sábado, 4 de abril de 2015

Poema 2


Katerina Plotnik



De tarde, no campo, nenhum pássaro cantou;
e só neste fim de dia um vento traz o assobio
da primavera melancólica: despedidas,
imagens breves, nenhuma inspiração. O sopro nocturno,
porém, anuncia um reflexo de espelho no fundo
do corredor. A voz surge de um dos quartos
em que a ausência se perde. Um baço
murmúrio se aproxima do gemido que evoca
o mar - sem que a onda se decida, quebrando
o som agonizante. Então, abro a porta
e chamo-te; sabendo que só a noite me responderá.

Autor Nuno Judice in «Poesia Reunida 1967 -2000», ibidem

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sonho

Jaroslaw Datta

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença, conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles, aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço para que sonhe o que aqui te conto.

.
Autor : Maria João Cantinho

segunda-feira, 30 de março de 2015

...



Ravshaniya

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Autor : Alejandra Pizarnik

domingo, 29 de março de 2015

do amor proibido



Ignoramos
e ambos sofremos
e ambos amamos
como se pudéssemos
mudar o rumo dos acontecimentos
era proibido
e ambos sabíamos.

Tu nunca saberás
que todos os dias
à mesma hora que telefonavas
eu oiço a “nossa” música
porque sei que nunca mais
vais voltar a faze-lo
e eu não mais ouvirei a tua voz

Tu nunca saberás
que em dias alternados
mas sempre no mesmo dia da semana
eu sento na mesma mesa
no mesmo café
e sei que tu nunca mais vais aparecer


Tu nunca saberás
que eu releio as tuas poesias
embora as saiba de cor
porque sei que tu nunca mais
irás pegar num simples lápis
e me escrever uma que seja


Tu nunca saberás
que eu sei que tu não sabes
mas que eu sempre soube
que tudo era falso e vão
que da tua parte
eu não passei dum devaneio


Tu nunca saberás
que eu choro nas minhas
noites vazias
e que relembro
cada gesto
Cada palavra
cada sorriso

Tu nunca saberás
que no amor
tudo é possível
tudo pode ser permitido
tudo pode ser compartilhado
tudo pode ser amado
e para ti tudo era proibido

Tu nunca saberás
que nada se esfumou
na minha lembrança
e que para tudo
teria de haver uma solução
e eu sei que tu nunca
quiseste sequer encontrar
essa saída

Do amor proibido
do nosso amor proibido
que não foi
que não esqueceu
que magoou
que continua a magoar

Tu nunca saberás...

Autor © Piedade Araújo Sol, Dezembro de 2003

quarta-feira, 25 de março de 2015

....

Sentir a vida.
Correr com ela
doida,
por entre as veias.
Enlouquecer
Do vício de viver.

Autor : Ana de Melo

terça-feira, 24 de março de 2015

um dia destes

Herberto Hélder Luís Bernardes de Oliveira 
Funchal 1930 -11-23
Cascais 2015-03-23

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas
                                                                        linhas


Autor : Herberto Helder

domingo, 22 de março de 2015

Estou mais perto de ti porque te amo

 Oleg Oprisco


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Autor © Joaquim Pessoa

quinta-feira, 19 de março de 2015

Tu nunca irás saber

Julie Waroquier

Tu nunca irás saber
Da saudade
que se adensa no meu peito
agora que não me escreves
e já não te posso ler
Tu nunca irás saber
Das rosas
que perfumam os meus sonhos
quando sentada junto ao mar
eu penso em ti
Tu nunca irás saber
Da tristeza
que anoitece o meu olhar
Das minhas mãos despidas de alegria
onde a dor da tua ausência vem pousar
Tu nunca irás saber…


Autor © Isaura Moreira

segunda-feira, 16 de março de 2015

É por ti que se enchem os rios


É por ti que se enchem os rios
de carpas azuis,
de águas que querem saltar
pela minha janela.
Como é belo este silêncio ilimitado
quando nas copas redondas das árvores
o teu nome me chama.
Pedi-te que apagasses a lua
e que nos campos tacteando te encontrasse.
Sei-te na aurora, por isso não temo
e agora a lanterna dos dias pode
por fim ficar em ventos de abraços.
Voam aves dentro dos teus sonhos
como memórias de pétalas acordadas.
Ficas ancorado dentro do meu tempo.
Não há saudade nem solidão
que se não derrube.


Autor © Lília Tavares.

domingo, 15 de março de 2015

Obsessão Conivente

Felicia Simion

A surpresa que me assalta
todos os dias e a cada hora

nada tem a ver com estas coisas
dos desamores sem lugares
e outras circuntâncias

a surpresa que me assalta
tem sempre e conivente

o teu olhar

Autor: Joaquim Alves

sexta-feira, 13 de março de 2015

De Repente



Kayleigh June


Vieste quando eu não te esperava.
 Partiste quando eu mais te precisava.
 Demoraste tanto a chegar
 E levaste tão pouco tempo para ir.
 Levaste tanto de mim
 E deixaste tão pouco de ti,
 Em vagos detalhes que ficaram contidos,
 Nesta saudade,
 Neste vazio,
 Nesta lembrança.

Autor.  Aluísio Cavalcante Jr.


quinta-feira, 12 de março de 2015

rasguei a minha identidade...

Julie de Waroquier


rasguei a minha identidade…

perco-me em caminhos não percorridos
abandono sonhos esquecidos na poeira da estrada,
tropeço no acaso de beijos de amantes extasiados
e embriago-me na loucura do desejo…

perco-me deslumbrada com o brilho das luzes
abandono-me em labirintos espelhados
de pedras faiscantes ,dispersas no vazio
e embriago-me no teu corpo morno na noite sem cor…

perco-me, tropeço, caio numa praia sem nome
rasguei a minha identidade e já não sei quem sou…

Autor:Ana Cristina Macieira 15-5-2012

sábado, 7 de março de 2015

De volta

Eric Wallis

De volta
Escuto no silêncio
Os nossos beijos
Que perduram nos teus olhos
Que revivo
Sem descanso
Saboreio a tua voz
Que me enlouquece
À espera do teu corpo
No cais do teu canto
Que amanhece

Autor: Nilson Barcelli © Dezembro 2005

quinta-feira, 5 de março de 2015

Pedaços



Nada mais triste
Do que a história do fim de um amor,
Para quem parte,
A dor imensa de ter amado de menos,
Para quem fica,
A dor sem limites de ter amado demais.

Autor : Aluísio Cavalcante Jr

segunda-feira, 2 de março de 2015

Descalço eu destruo o calçamento com meus pés de chumbo


Descalço eu destruo o calçamento com meus pés de chumbo.
Sobre a minha construção eu defeco cimento cinza.
Ou revisto o chão do meu quintal com caveiras (cabeças) de todo o mundo.

Um vírus letal destrói os neurônios de minha cabeça.
O mundo que eu construo não piso descalço pois são espinhos de aço.
Sobre o meu chão uma poça de sangue.

Construo cabeças em meu mundo cruel.
Construo calçadas e sobre elas eu defeco.
Paralelepípedos que me lembram colmeias mas sem abelhas e mel.

Descalço ando pelo chão do meu mundo destruído pela bomba da inveja.

Autor : André Francisco Gil

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Declaração

Cheline Sanuan
Declaro que te espero
nos dias em que a chuva me mitiga o fogo
nas noites em que o corpo em rebuliço
se entretém em danças e litanias solitárias.
Não venhas se me temes
ou se a tua fornalha não anseia pelo meu mar interno.
Tenho em mim a telúrica força de uma valquíria
e ouso defrontar o teu guerreiro altivo de canto rouco
e a tua espada acesa a queimar-me desde a boca
até ao vórtice onde o desejo renasce
num devorar repetitivo e lancinante.
Declaro que te espero
e sempre te esperei.
Esta música da pele tem um travo doce de devaneio juvenil
e a carência vivida das inclementes horas.
Declaro que te quero
assim, neste final que chega manso e louco.
Por isso
antes que os deuses te roubem ao insano desejo
vem.

Autor : © Margarida Piloto Garcia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

As Facas


Mladen Penev


Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas.
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.
.
Autor : Manuel Alegre
.


Sei

 Ivan Favre

Sei que ando bem longe,
Distante de tudo,
Os olhos nos rostos,
Mas vendo outros mundos,
Sei que estou por aqui,
Mas sempre adiante,
Perdida no tempo,
Me perco  no instante.

Sei que às vezes não escuto
Se solicitada,
Por vezes, me calo,
Pensando no nada...
O passo estancado,
A vida parada,
Um olho entreaberto
E o outro, fechado.

Perdoa-me o tempo
Em que perco tempo,
Perdoa-me o toque
Às vezes vazio,
Sei que ando tão longe,
Mas nunca te esqueço,
É que ando pensando,
Me olhando do avesso...

Autor : Ana Bailune

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

....

xelomy

 Há quantos anos me sento
a ver o mar? Amor

sem falhas


Autor : Casimiro de Brito

domingo, 22 de fevereiro de 2015

...


Svitlana Clerk Raichuk


...não sabe que horas são, não sabe que dia é, encolhe o corpo e deixa-se, sonhar.
.
Autor : BeatriceMar

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Apelo


Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

 Autor : Luísa Dacosta
in «Cem  Poemas Portugueses no Feminino»,

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

....

Arseny Semyonov

Para voar,
o vento não precisa
de ter asas.


Autor : Albano Martins

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Fim de tarde


Tisi Ramos
Hoje apetece-lhe alguém
que lhe ame o corpo
sem sorrisos doces
sem palavras a enganarem os sentidos.
Anula a alma,
um estorvo que carrega
como o peso de uma mala vazia
ou um pássaro morto.
Precisa de urgências
porque não quer sentir.
Apenas deseja ser um animal
no cio da primavera.
Hoje apetece-lhe
que nada lhe apeteça
e o dia finde.

Autor : Margarida Piloto Garcia

sábado, 14 de fevereiro de 2015

e agora o silêncio

Kam Kan

e agora o silêncio!

a madrugada foi cúmplice dos teus lábios nos meus, brotando mel.

e agora este silêncio.

as minhas mãos em forma de concha, vagabundeiam ao luar, querendo apanhar a luz retraída que a lua penetrando por entre as frinchas da janela entreaberta, embirra em repartir ocultamente sobre o teu corpo adormecido.

e agora o silencio.

lá fora a alvorada rompe para mais um dia metamorfoseado em dialecto de gestos inactivos. talvez vá chover, nunca te disse que gosto de sentir a chuva cair sobre a minha pele. não disse tanta coisa. não te digo tanta coisa. nem sequer que me magoa este silêncio.

o teu corpo sossegado, sorri, talvez navegue agora num sonho feito um rio de pétalas desordenadas no leito que te ampara.
vou embora!

e agora?! que faço do silêncio!


Autor  ©Piedade Araújo Sol, in Poiesis,pag 157

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tudo!

Michael Vincent Manalo

Perdoas-me?
Tudo!
O que não consegui dizer-te com os meus silêncios.

De nós anseio apenas o beijo desesperado
Aquele que nunca demos na praia nossa
Onde nunca fomos
Num dia igual ao de hoje
O temporal com sabor a salgado
De nuvens carregadas de saudade húmida!

Um beijo confundido com as lágrimas
E o sal do rosto
Olhos fechados
O corpo apertado um abraço aflito.

O ruído das velas gastas nas vergas soltas
O balouçar do convés a desequilibrar-nos
Os braços cansados deste abraço que somos ainda
Os olhos cerrados que não vêem os rostos fechados de agora
E o navio é demasiado grande para nós que já não somos
A praia açoitada pelo vento de norte
Deserta!
Definha na memória

Perdoas-me?
O desistir de ti


Autor : João marinheiro, 2008