quinta-feira, 19 de março de 2026

Algo ficou por dizer

 

E por isso os dedos da inquietação
tangem ainda as cordas invisíveis
de uma harpa inexistente
Algo ficou por dizer
O próprio coração pesa
como pedra suspensa
na frágil corda da aorta
Algo ficou por dizer
(a respiração à beira do sufoco
sempre que a palavra se desfaz
e desfeita se faz nada,
e nada-morta, totalmente morta)
Algo ficou por dizer
De uma dessas vigílias tinge-me
o padrão da toalha de mesa
os amigos de ocasião
que chegavam e partiam
ao ritmo do esvaziar de garrafas de grappa
Algo ficou por dizer
E um brilho com reflexos de carmim
fundeando no mesmo cálice
que para sempre ficará por beber
até ao fundo.

Autor : António Gil
Imagem:  Victor Bauer 

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