sexta-feira, 13 de março de 2026

Declaração


Escrevo poemas nos guardanapos dos cafés.
E não é fácil fazê-lo –
pelo menos como eu o faço –
de esferográfica,
o papel tende a rasgar-se,
é preciso prende-lo bem
sob os dedos,
estica-lo
para que se não rompa!

Agora mesmo, que o faço,
penso
como é difícil
e notável
esta arte que possuo –
a de escrever poemas
nos guardanapos dos cafés.

É bem mais fácil apenas frequentá-los
e beber o cimbalino quente
sem pensar nos poemas.

Melhor fora que guardasse
as palavras no bolso,
sem papel nem esferográfica,
antes elas nem me assaltassem
quando tomo o meu café.

Mais valia a montra
e o que vai para além dela!
Ainda por cima
o papel amachuca-se nos bolsos
e depois nem consigo ler,
tudo fica tão ilegível e baço
como a vida para além da montra do café.

Afinal... tudo faz sentido!

Autor : Alexandra Malheiro
In “A urgência das palavras”(2008)
Imagem : Pinterest

Sem comentários: