sábado, 2 de maio de 2026

Gosto quando me falas de ti...

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão..."

Autor : J. G. de Araújo Jorge
(Do livro "Quatro Damas" 1ª Edição, 1965)
Imagem  : rosie hardy

2 comentários:

brancas nuvens negras disse...

Um poema de entrega total a alguém e a quem se recebe de braços abertos.

Eros de Passagem disse...

O sujeito lírico vê a vida dela antes dele como um "novelo inútil", algo que estava parado ou sem rumo, e que só ganha utilidade e movimento quando ele chega para "desenrolar" essa história.
Gostei de reencontrar J.G. de Araújo Jorge (1914-1987)