Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
....
Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
.
Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.
.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.
Autor : Mia Couto
in Idades Cidades Divindades
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
O Amor
Cristina Fornarelli
Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei
Autor Sophia e Mello Breyner Andresen
in O Cristo Cigano
terça-feira, 10 de outubro de 2017
...umas vezes falavas-me dos rios
Escha Van den Bogerd
umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia
outras vezes velava-te uma lâmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava
outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias
nessas vezes a água do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia
Autor : Carlos Nogueira Fino
domingo, 8 de outubro de 2017
esquece
esquece os dias antes e depois de nós,
mas não esqueças o meu nome.
não digas que não sabes de mim,
não negues as noites que foram nossas.
muita coisa podes não querer lembrar,
mas um corpo nunca se esquece.
mas um corpo nunca se esquece.
26-05-2013
(reeditado)
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Pacto
terça-feira, 3 de outubro de 2017
De Amor nada mais resta que um Outubro
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Autor : Natália Correia
in “Poesia Completa”
sábado, 30 de setembro de 2017
Billhete
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Autor : Mário Quintana
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Uma mulher
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
Autor: Bruna Lombardi
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
Autor: Bruna Lombardi
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Por que me falas nesse idioma?
Alex Colville
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
Autor :Cecília Meireles
domingo, 24 de setembro de 2017
a memória
a memória está quase sempre numa espécie de hibernação,
por vezes só basta um
simples odor,
e tudo entra em efervescência.
.
Autor : BeatriceM
reeditado
1ªpublicação em 2014/06/19
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Tu e o mar
Tu e o mar, para mim são um todo, um só objecto, o do meu papel nesta aventura. Também eu olho para o mar. Tens de olhar como eu, como eu olho, o mais que posso, em vez de ti.
Autor:Marguerite Duras
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Retrato de amigo
norvhic fernandez austria
Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.
Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.
Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?
Autor :José Carlos Ary dos Santos
in 'Fotosgrafias'
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Paz
Anka Zhuravleva
Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.
Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.
Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.
Autor : Natália Correia
in "Poemas (1955)"
domingo, 17 de setembro de 2017
Tu eras um sonho
Cristina Fornareli
Tu eras um sonho
translúcido
na realidade da vida
(a minha).
Tu eras a imagem
idolatrada
o ícone
sem ser no altar
da basílica da estrela.
Tu eras
a aragem em tempo de canícula
o mar em pleno verão
a chuva do inverno
o sol na pele.
Eras …
Tudo isso…ou apenas o sonho.
que o tempo apagou
e tantas cicatrizes deixou.
Autor: BeatriceM
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Tempo
Achraf Baznani
Autor : Martha Medeiros
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Como eu queria
AnkaZhuravleva
Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia
Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia
Respirares-me
Boca a boca
Lentamente
Como eu queria.
Autor : José Gabriel Duarte
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Antes que Seja Tarde
tommy ingeberg
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Autor : Manuel da Fonseca
in "Poemas Dispersos"
in "Poemas Dispersos"
domingo, 10 de setembro de 2017
eco
o eco do que queria ouvir,
escuto,
os peixes no aquário,
como
se falassem da cor,
dos
teus olhos,
e sinto o teu olhar,
preso numa
asa de um
pássaro
que esvoaça por cima do mar.
.
Autor :BeatriceM
05-10-2014
reeditado
05-10-2014
reeditado
sábado, 9 de setembro de 2017
Vou sobre o Oceano
Vou sobre o Oceano (o luar de doce enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras de Pátria somem-se na treva,
águas de Portugal ficam, atrás.
Onde vou? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
lembra meu coração, na ânsia em que jaz.
Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
na minha Nau Catrineta, adeus!
Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
sobe depressa à gávea, Marinheiro,
e grita, França! pelo amor de Deus!
Autor : António Nobre
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Porque não cai a noite de uma vez?!
Ildiko Neer
Por que não cai a noite, de uma vez?
– Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.
Por que não cai a noite, de uma vez?
– Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.
(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)
Autor : Maria Alberta Meneres
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Que é voar?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Autor : Ana Hatherly
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Secreta Viagem
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.
Autor : David Mourão-Ferreira
in Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.
sábado, 2 de setembro de 2017
A casa
Katerina Plotnikova
A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.
Autor : ANTÓNIO RAMOS ROSA
In O Não e o Sim (1990)
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Da terra
Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar ateia a margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, o oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.
Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
In as fábulas
In as fábulas
quinta-feira, 31 de agosto de 2017
Kyrie
Saul Landell
Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
Autor : José Carlos Ary dos Santos
In Vinte anos de poesia
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