sábado, 28 de agosto de 2010

rasgos sem rima

chegas num gesto abraçado
trazes nas Mãos o pó aceso das estrelas
e o brilho do negrume precipitado
dum outro Mar...

a luz eleva-se no culminar do entardecer
tocas as Margens na abrangência dos teus braços,
demoves o Manto bordado a pérolas negras
onde um dia me perdi

a luz regressa na transparência da noite,
como uma confissão silenciada...

Autor:Cristina Fernandes http://omomentocerto.blogspot.com/
Foto: EdekLeszczyk

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Bem sabes que não sou capaz
de dizer adeus
porque o amor tem sempre
a impossibilidade
da despedida
por não haver nele
nenhuma forma de morrer
como a luz do crepúsculo
que quando aqui se apaga
é para fazer dia noutro lugar.

E por isso não julgues
que tenha perdido
o norte
nesta estátua de mármore
em que me transformaste
ao sul
dos teus olhos.
Como uma ostra no fundo do mar
vou depositando esta pérola no coração
para te deixar.
.
Autor : José Miguel de Oliveira http://deliriospoeticos.blogspot.com/
Foto: mooya http://plfoto.com/zdjecie,portret,sunday-morning,2097044.html

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

esperar dói

em azul mais azul que azul

em branco mais que branco

preso a um fio de bruma

esperar dói

na agonia pendular

que o vento torna mais nua

esperar dói

mãos feitas de bruma

dedos mágicos

tocam-se no colar das bocas

esperar dói

soltem-se os lábios dos rostos

para se beijarem em liberdade


Autor : antónio paiva http://coisas-do-burro.blogspot.com

Foto:F_W_B http://plfoto.com/zdjecie,portret,bez-tytulu,2162970.html

domingo, 22 de agosto de 2010

......



É sobre o rio que me vejo inteira e nua
debruçada sobre as pedras a lavar lençóis de mágoa
memórias desbotadas de gritos sem sentido
restos de sonhos que o tempo amarrotou.
É do rio que me vem com as marés
o cheiro a mar aberto a vento e chuva fria
que um dia me revolveu e encharcou
as asas com que já não sei voar como sabia.
É no rio que desaguo a raiva de ter sido
a ponte entre margens que não quis perder
perdulária do tempo da certeza
e me encontro de novo e nova em mim.
.
Autor:Ana Oliveira http://pacodasartes.blogspot.com/
Foto:Olga Czerwinka

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

É esta noite



Esta noite há talvez luar, cometas
e gafanhotos de asas de prata
preenchendo todo o céu.
Esta noite,
provaremos desse fruto
estranho às aves,
apenas consentido
à mordedura dos poetas,
no ardor de um qualquer Maio.
Esta noite,
todos os relógios
do mundo serão nossos:
esta noite provaremos do amor.

Autor :João de Mancelos
Entre Ausência e Esquecimento , Aveiro, Estante Editora, 1991.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Infinito Amor


Depois
Os homens e os pássaros vinham
Descansar em meu regaço
Maternal e transbordante

Depois de nós, amado, tudo acresce
Tudo refloresce
Do ventre da terra
Ainda
Se sou, intrínseca, um ser melhor …

Autor :Boneca de Trapos http://emsaltosaltos.blogspot.com/
Foto:dawidowe http://plfoto.com/182015/autor.html

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Ausentes para amor incerto



Já nem sabíamos quem fingir,
meu amor.
Foram raros os barcos nos lábios,
e demasiadas as laranjas
que a manhã descobriu
por afagar.

Já não somos a glória
de um corpo à deriva noutro corpo,
as nossas mãos já não florescem
nos cantos de cada noite.

Abelhas mordidas de morte,
cães de olhar deserto,
à chuva, à pedra, ao riso,
todos somos
Ausentes para Amor Incerto.

Autor :João de Mancelos In Ausentes para Amor Incerto , Aveiro, Ed. de autor, 1994.
Foto:Szarareneta

domingo, 18 de julho de 2010

Esta noite

esta noite
senti o mar incendiar-se
nas tuas mãos

arderam os olhos
nas tuas mão inteiras
enormes

esta noite no teu peito
inventei estrelas
que não conhecia
.

Autor:Luis Rodrigues
Foto:fotoalterego http://plfoto.com/zdjecie,akt,bez-tytulu,2140002.html

sábado, 10 de julho de 2010

A mulher desconhecida



é muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
o doce amor
.
Autor:José Tolentino Mendonça
(in "A noite abre meus olhos/poesia reunida, Assírio & A
Foto:holethrom

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Queria.....



Queria dizer-te que já abandonei os barcos. Queria que soubesses. Queria dizer-te que agora já não existem motivos para que partas, já não te troco pelo mar e os barcos são só memória. Mas é a tua que se sobrepõe a todas as outras memórias mesmo sendo a água a primeira memória da humanidade.

Só queria que soubesses isso. Que abandonei os barcos

Agora para matar o tempo, para que saibas também, passeio pela beira-mar na praia que foi a nossa no cabo do mundo. E se um dia resolveres regressar nem a vais reconhecer…

Autor:João Marinheiro
Foto:komarek66

quinta-feira, 8 de julho de 2010

sede


Bebi um verso,
Sôfrego de cor,
No calor-do-não-estar-aqui…
Bebi-o!
Todo,
para respirar
e
perder-me no olhar,
sem dor,
por ali…
.
Autor:Almaro
Foto:Szarareneta

domingo, 4 de julho de 2010

Vagueio

Vagueio por caminhos perdidos a fim de me encontrar
Escondo sentimentos mas divulgo emoções
Escrevo palavras que me escorrem pelos olhos
Ignoro diários inacabados por ausência de coragem e
Adopto hábitos solitários que me enternecem por breves segundos mas que me abatem por longas horas.

No fundo, até a ínfima parte do meu ser esperneia para que voltemos a ser um só.
Tu e Eu, apenas.

Autor:Petra Correia

Foto:RCotton

sábado, 3 de julho de 2010

Toma-me

Toma-me
em teus braços
d’enlaços feitos.
Faz-me princesa dos teus actos,
(ou boneca de trapos)
coroa-me de boquets diademados
d’ hortenses d’algas e sargaços...

Mata a sede antiga
de te sentir a palpitar de lés-a-lés
edificado em mim, que, musa ou diva,
cederei ao desejo incontido
de ser em ti, de ti, poema, livro aberto,
mapa de um mundo secreto
e só nosso,
bonança e porto de abrigo

ou água …

simplemente água, livre e solta,
a explodir-se saliva no céu-da-boca
nos poros da alma
e nos corpos exaltados
os nossos corpos, amado, fundidos e nus
em palco divino de estrelas e de astros
afixos.

Mostra-me, se fores capaz,
a lua p’los teus olhos
os prados largos
e o sol alcantilado
nos delírios de ninfas e faunos.

Ofereço-te este mapa de marés…
.
Autor:Boneca de Trapos http://emsaltosaltos.blogspot.com/
Foto:GosiaMakova

sexta-feira, 25 de junho de 2010

onde



Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de uma
árvore, na pele de um muro,
no ar que atavessa de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobe o meu corpo - é teu

para sempre, o meu nome.



Autora :Maria do Rosário Pedreira de Os Nomes de Familia em Nenhum Nome Depois, ed. Gótica Lisboa, 2004
Foto:
Komarek66

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Retrato do poeta quando jovem

José Saramago
16-11-1922
18-06-2o1o



Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.



Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.



Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.



Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.



Autor :José Saramago


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Vem

Vem.
Vem comigo
Cansados de amor
mergulhemos juntos na noite
no silêncio dos amantes

amor amor amor
repete comigo
as palavras que nos dão paz.

Autor:Luis Rodrigues

terça-feira, 15 de junho de 2010

Beijar-te


Beijar-te será desvendar
O gosto puro nos teus olhos
Em berço largo de candura.
Será entrar no anel de fogo
Que inunda, sem o saberes,
A tua carne embriagada
Pela entrega com loucura.
Será reconhecer as aves intactas
Que voam inocentes
No sorriso delicado do teu rosto.
Será incendiar-te,
Afogar-te o peito erguido
Com as chamas dos meus braços.
Será rasgar a minha fronte
Para que a tua se alague
Da nudez divinal que te habita.
Será sussurrar-te palavras com rastilhos
Até que atices a pólvora
Da desordem do meu grito sobre o teu.
Beijar-te, será coabitar-te
Até que eu morra
A cada espasmo que te mate.


Autor Nilson Barcelli http://nimbypolis.blogspot.com/
Foto:Leszek

sábado, 12 de junho de 2010

Tentei desenhar os teus olhos de mar


Tentei desenhar os teus olhos de mar,
para poder um dia saber ensinar a menina das ondas a sonhar…
Não encontrei lápis nem pincel,
só a cor andava por perto a voar…
Difícil tarefa,
esta de ensinar a contar,
cada lágrima do mar,
quando cada uma tem em seu tamanho o Universo a chorar…
Nuvem, mar ou rio, é tudo o mesmo verso…
Amar é cousa séria, de saberes antigos, mistérios que não se ensinam, porque o sentir não é ter, mas dar.
Só te sei ensinar a voar, isso é cousa simples, não é preciso inventar, basta ir com o Ver, sentir a brisa a bater
e Ser…
Só te peço que não fiques, ficar estraga tudo,
até o sonhar.
Mesmo que fiques aí a olhar,
vai,
mesmo que seja pelo mar…

Autor:Almaro
2005-09-02
Foto:Goodnight

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sexta Poética 38

Maria Aurora Carvalho Homem

13/11/1939
11/06/2010


A palavra não chega a ser murmúrio
Mastigo-a na sombra a intervalos breves:
é um dizer silencioso
um tempo sem rosto
uma ausência presente em cada gesto.
A palavra viaja no meu corpo
prendo-a na franja dos olhos
corrompe a limpidez da distância
na precisão incolor dos dias.
É cardo, gume, alfazema e jasmim.
Persigo-a neste gesto de quem quer.
A palavra é este olhar de tudo cheio
este cheiro de noite
este acaso de nada
adágio sufocado em catedral vazia
vôo raso de pássaro vadio.
A palavra tem rosto de mulher
olhar de noiva eternamente virgem
é a pele que me veste cada dia
e que me despe à noite devagar.
Faço-a minha na ternura calada
de quem desfolha rosas no outono.
Caladas nos dizemos:
amantes confessados.

Autora: Maria Aurora Carvalho Homem

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A nudez das palavras



Da boca brotam as palavras interdita
se
dentro de mim soltam-se as amarras
liberando tudo
o que eu tinha querido guardar
ficou somente
o desejo de querer compartilhar contigo
este fogo
que me transporta ao mais profundo de ti
e
em noites de transmutação
fico mudo quando a nudez das palavras
me conduzem
a este estranho sonho
de te ter tão longe e tão perto
.
Autor:Rogério Saviniano Telo
Foto:Stefers

terça-feira, 1 de junho de 2010

Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
.
autor :Ferreira Gullar Prémio Camões 2010

sábado, 29 de maio de 2010

... hoje


... hoje um pássaro meditava nas águas. quando me apercebi ele falava comigo. e por breves momentos consegui entrar na linguagem dele...



Foto:zbde http://plfoto.com/zdjecie,zwierzeta,pliszka-gorska,1848558.html

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Eu não quero mudar o mundo





Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel:
empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro lado,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno toque para lá,
e agora sim:
o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam
lá dentro se encontram todos partidos. Estão a ver?

Os copos todos partidos. Que aborrecimento.
Não nos lembrámos da fragilidade do vidro.

Autor: Gonçalo M. Tavares, in “O homem ou é tonto ou é mulher”

Foto:MyCatherine

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Elegia das Águas Negras para Che Guevara


Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.

Pálidas vozes em prado procuram
O potro mais livre, a palmeira
mais alta sobre o lago, o barco talvez
Ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol do meio-dia,
a face viva do sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé;
cada palavra tua
faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos contigo
no coração em redor do fogo.


Autor: Eugénio de Andrade em Poemas a Guevara (selecção e tradução de Egito Gonçalves - colecção Os Olhos e a Memória - Editora Limiar - 1975)

Foto;wiwit


sábado, 1 de maio de 2010

devia morrer-se de outra maneira


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem
hoje às 9 horas.
Traje de passeio". E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios...
depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

.

Autor:José Gomes Ferreira
Foto:depreska