terça-feira, 30 de junho de 2026

Estamos Atados Filho

TJ Scott

Levar-vos-ei sempre comigo. Olho de frente o último raio de sol antes de o sol desaparecer. Penso: um homem é um dia, um homem é o sol durante um dia. E é preciso continuar. Avançam os meus pés sobre a terra. Filho, dormes ainda, e quis mostrar-te o sol-pôr. Quis mostrar-te a terra, ensinar-te a cor da terra por dentro, porque quem conhece a cor da terra por dentro conhece o mundo e os homens. Filho, o sol desapareceu agora e deixou uma aura vermelha de sangue à volta do cabeço onde entrou, e quis ensinar-te que amanhã estará calor. Quis ensinar-te que, se não vires as estrelas de noite, espera chuva no dia seguinte. E saberes isto é saberes tudo. São estas as poucas coisas que nos dão a saber. O resto, filho, são mistérios sem explicação. O resto são punhais apontados dentro do nevoeiro. O resto são punhais que vemos aproximarem-se do nosso peito, e estamos atados, filho. 

Autor : José Luís Peixoto
in 'Nenhum Olhar'

3 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Intenso e profundo. Amei

Saudações poéticas

Daniel André disse...

Beatrice, há textos que não apenas nos alcançam, mas permanecem conosco depois da última linha. O trecho de José Luís Peixoto e os seus versos dialogam com rara delicadeza: ambos nos lembram que a ternura é uma forma de resistência e que o tempo, quando bem vivido, também sabe curar. Gostei especialmente da esperança serena que encerra o poema — a prova de que a poesia continua encontrando morada em um coração que escolheu não desistir do amor. Belíssima partilha.

Abraços fraternos,
Daniel
https://gagopoetico.blogspot.com/2026/06/terremoto-da-empatia-morta.html

Eros de Passagem disse...

"Nenhum olhar" se assemelha. E gosto da personificação do abstrato que emana do texto e fico me perguntando depois de lido e relido vale quanto pesam o silêncio, a solidão e o próprio destino no livro?