quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Nunca soube o teu nome.


Souichi-Furusho

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Silêncio


 Ermese-Durcka Lake

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
.
Autor : José Agostinho Baptista

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lábios



Fervem os lábios enquanto brilham na espera
e eu amo-te tanto
que não sei porque as bocas estremecem
no medo de se darem
Perdem-se as bocas em línguas de fogo
e eu amo-te ainda mais
mas não posso dizer-to
Se os lábios se envolvem num espasmo desmedido
eu rasgo-me louca na polpa agridoce
Neles se tocam os seios e os sexos
as palavras e os silêncios
neles se enredam histórias e estremecem estrelas
e as explosões dão-se em eternos segundos
Por isso amo-te
mas guardo na boca fechada o teu nome

porque ele é um segredo a florir nos lábios

Autor : Margarida Piloto Garcia

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

...

Julie de Waroquier

Na folha vazia,
Onde escorre a tinta das letras,
Existe a voz de um silêncio inacabável
No qual me deito e sonho.
.

Autor : Luís Ferreira

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Eras o poema


laura zalenga

Escrevi um poema numa folha perene
veio o vento e o poema levou

Escrevi um outro num pergaminho
mas o tempo impiedoso o apagou

Nas asas de Ícaro escrevi um outro
que o sol implacável queimou

Tentei um último na vela de um barco
mas o mar enfurecido o rasgou

Escrevi então o meu corpo no teu
e o poema até hoje ficou.


Autor: Fátima Guimarães

no livro "A voz do nó"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como se mágoa fora!...

Ricardo Fernandez Ortega

Desfolho a pétala
Que o vaivém da onda
Nega como se fora
E não fora...

Sorvo o vento
No búzio do tempo
Glória sem eco
Que me devora...

Alinho ternura
No arco sem volta
De qualquer procura...

Denso perfume
Que se acende em lume
Na ilusão de ser…

Ausência rola
Como se mágoa fora
Fingindo não ser...


Autor : Herético 2010-11-14
http://relogiodependulo.blogspot.pt/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Desfolhada

Birdcam Italia


Soltei um pássaro
que me pousou no texto
mas não lhe evitei
o menear das pétalas
Só mais tarde
tão tarde
que já adormeciam as palavras
ouvi espargir irrepreensíveis
metáforas
na folha de papel
Soltei uma rosa
que se exala
quando a sopro para voar
mas sempre regressa
desfolhada
como um pássaro

.
Autor :Eufrázio Filipe mar arável 2010-01-01
http://mararavel.blogspot.pt/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O coração todo teu


Michael Vincent Manalo

Agora que sabes que te amo
O coração todo teu
Para lá do tempo


Envolves-te no manto do silêncio
Eu aqui na angustia da espera

Tardas

Envelheço nas curvas dos dias
Sem memória já
do teu corpo inalcançável
e fico adormecido


este amor
tão doloroso de ausente
como ausente sou sempre
das noticias tuas que tardam


a ausência esse lugar dos destroços
agora que sabes que te amo
o coração todo teu


Autor : João marinheiro 2008

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A esta hora


" A esta hora a que te escrevo , amor , não sei nada sequer de ti .Talvez sejas lágrimas .Talvez tenhas nas mãos tuas, as rosas que aí deixei . Não sei se és nua ...Não sei se és lua... Nem carta tua me chegou . Carta que me falasse de amor e de rosas . Ontem , falavas-me tanto dos sonhos quando abraçavas as rosas . E à hora a que te escrevo , nem mãos , nem rosas , nem carta tua me chegou . Mas eu quero-te amor em lua e nua. E quero as tuas mãos a esta hora a que te escrevo ."
.
Autor Armindo Lima de Carvalho

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fragor



E vêm daí as marcas da sombra:
a trança solta ao sol de fevereiro,
uma mão cheia de vento sobre o teu ombro,
e o cão do crepúsculo a correr adiante de nós.
Como um destino,
leva consigo as últimas palavras
antes da noite.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto

sábado, 31 de janeiro de 2015

...


Matteo Artanotti

Queria escrever...escrever algo só para ti! Escrever palavras de ternura, de magia. Queria dizer-te com elas o que sinto. Explicar os sentimentos, colocando em cada silaba os meus sentidos.

Peguei numa folha e pedi ao coração para escrever seu ritmo e fazer das palavras uma melodia que pudesse embalar teu coração. Esperei…

Cada palavra que nascia imensa no peito, ficava pequenina, perdida no deserto de uma página em branco. Não sabia como dizer as palavras que vinham da alma...

Pintei a folha de azul, cor de céu onde as nuvens se fazem algodão sempre que te invento junto a mim. Coloquei no meio uma pequena lágrima que depressa se transformou em mar calmo. Num cantinho, desenhei um sorriso perfeito e ele logo se fez sol.

Olhei para a folha, e pareceu-me perfeita, até notar que havia na praia dos sentidos a tua ausência e a falta de ti. O mar que senti calmo, tinha tempestades de emoções e o sol queimava de saudades...

Queria escrever...escrever algo só para ti. Não fui capaz, porque não se escreve o amor que se sente, a doçura de um beijo, a dor de uma saudade...


F__S

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Deita-te aqui

Deni-Soul
Deita-te aqui - esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos: talvez assim eu possa esquecer para
sempre quem me matou de amor, ou morrer
de uma vez sem me lembrar. Isso, abraça-me

também: onde os teus dedos tocarem há uma
ferida que o tempo não consegue transportar.
Mas fecho os olhos, se tu não te importares, e
finjo que essa dor é uma mentira. Claro, o que

quiseres está bem - tudo, ou qualquer coisa,
ou mesmo nada serve, desde que o frio fique
no laço das tuas mãos e não regresse ao corpo
que te deixo agora sepultar. Não sentes frio, tu,
dentro de mim? Nunca nevou de madrugada no
teu quarto? Que país é o teu? Que idade tens?
Não, prefiro não saber como te chamas.


Autor : MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,
in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Silêncios



oleg oprisco


Talvez eu goste dos teus silêncios
porque não trazem laços.
Sentados junto ao rio que corre
esquecemos palavras.
Apenas o teu olhar escreve alfabetos
tão antigos como o homem.
Tenho perguntas para fazer
mas navegam num barco de papel
feito das últimas letras que escrevi.
Deixo o meu ombro desnudar-se
e secar-te os discursos.
Agora, já só tens um desejo
gritado no silêncio.
Não levamos connosco âncoras
de passado ou futuro.
Só temos o momento a tremer nas pestanas
e a escorregar devagar pelas margens do corpo.
E se eu quiser
pronunciar palavras proibidas
por favor não me deixes fazê-lo
e sela com a tua a minha boc
a.
© Margarida Piloto Garcia

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O Poeta


Fabian Perez

Por haver quedas de água nos seus olhos,
é que é possível intuir, no sulco do poema,
a livre aprendizagem da vida.
Incessante, a sua voz se eleva em rotação de luz
e rompe o círculo das sombras
tão próximo dos lábios
que mais parece a íntima alegria de cantar.
Entre os seus dedos uma ave palpita,
perturbada, como se urdisse em seu voo
o perfil azul-claro das manhãs.
O poeta tem sonhos de barro
enrolados na garganta : o lugar
onde os deuses sopram
a pulsação das palavras
e refazem o sentido dos dias.
.
Autor : Graça Pires

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

...


svetlana belyaeva


Hoje fui eu; mais que nunca.
Fui eu; mais que nunca. 
Fui livre; mais que nunca.
Tive espaço; mais que nunca.

.
O tempo foi meu; mais que nunca.
Hoje fui sempre; mais que nunca.
Tive "paz" mais que nunca.
Hoje, mais que nunca, soube que não somos loucos por amor.
O amor é que nos deixa loucos, mais que nunca.

.
Autor : Mónica Teixeira

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

...


que sejam feitas coroas
para atirá-las ao mar
de conchas que trazem
noticias
de quem nele foi morar
com uma beleza
pura
que as flores
não podem dar
por qualquer razão
definida
nas ondas estão a habitar
quer pescadores ou viajantes
que queriam passar
nalgumas ditas histórias
que nos fazem pasmar

Autor : jorge morais

domingo, 25 de janeiro de 2015

Detalhes


Não fui eu que me perdi – em ti
Foste tu que te perdeste
Na tarde junto ao mar
No beijo consumado

No fogo ateado
Nos cristais partidos
Nos barcos fundeados
Não fui eu que te perdi

Foste tu – que ainda não sabes
De ti – nem de mim
No beijo consumado
Noutra boca – não em ti.
.
Reeditado
Autor:BeatriceMar
Foto:j sitarski

sábado, 24 de janeiro de 2015

Chuva



Oleg Oprisco

Chuva que cai lá fora
Como no meu coração.
Lágrimas que escorrem
Sem aparente razão.

Já não sei quem sou…
Sou tão mediana em tudo
Que até assusta…
É difícil viver…
É difícil ser…

Gostaria às vezes de fugir,
De escapar de mim…
Mas não posso,
Não consigo…
Sou um pássaro ferido…

Um dia o sol regressa
E eu serei tudo o que sou…
Um dia as feridas desvanecem
E eu não estarei onde estou…
.
Autor : Alexandra Santos
In Palavras Sussurradas

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Pensamentos Soltos


Encontro-te em todas as esquinas do pensamento,
Sorriem teus olhos quando alcançam os meus.
Beijo-te ... Percorro cada milímetro do teu corpo
Quando oiço as ondas do mar por mim chamar
E a areia molhada por ti intensamente suspirar.

Nesse momento respiras em mim ...
Minha pele sente a tua num toque inebriante
Que penetra na profundeza das minhas entranhas.

Encontro-te na poeira dos meus olhos
Embriagados pelo Sol, pelo prazer
Do fogo ardente da paixão
que existe na melodia da nossa canção.

Encontro-te e deixo na tua boca
Todos os silêncios e segredos
Que intimamente me pertencem.

Autor : Sofia Valadares

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Abraça-me


Meu verso…
O universo…
Constrói-se no laço
desse teu abraço!

Leve se torna o traço…
Escasso fica o espaço…
E a estrofe onde fico imerso
é poema solto e disperso!


Abraça-me com intensidade!
Quero sentir a infinidade
que habita o ser!


Abraça-me com profundidade!
E meu ser voará em liberdade
nas letras que escrever!


Autor : João Bettencourt

domingo, 18 de janeiro de 2015

..



Saul Landell

Sim sou um homem de ninguém
tenho o vento por sentido
e a lua por amante
a vida essa ao contrário do que pensas
é vivida no fundo de uma estrada sem fim
há sempre mais a alcançar
...a viver.
Não roubo amor porque o sinto
...roubo a alma.
Vou para lá do sentir
...do tocar
...do continuar.
Não quero compaixão
apenas te digo que caio
...bato
em dias de tempestade com a alma no lama e sinto
...o cheiro da terra
do ventre da mulher que anseio novamente.
Conheço o teu desespero
quando olhas o mar e vens até mim
em sentidos ocultos pelas brumas do amanhecer.
Sim sou um homem de ninguém
mas todos os dias vou renascer!

Autor : Fernando Sousa
F__S

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Amar-te-ei sempre


"Amar-te-ei sempre! Sempre que o silêncio vier e eu ficar em ti.
Amar-te-ei... nas horas vivas em que vivo a saudade,
Em que procuro por nós, na minha verdade.
Amar-te-ei em coração alado.
Amar-te-ei, nas ruas em que indago o teu ser,
No escuro da noite e na luz que me faz querer-te,
Nos meus braços... meu amor.
Amar-te-ei nesta vida,
E em tantas outras que me esqueço de contar
(contando tudo o que somos desde que... me amaste).
Amar-te-ei com todo o meu coração,
Sem que nada, nem mesmo tu sejam em vão.
Amar-te-ei no sentir de mim mesmo.
Amar-te-ei como nunca amei ninguém.
Serás amor daquele que nunca irei esquecer?
Alguém que em mim entrou e imortaliza-se a meu lado?
Irei sempre pertencer-te,
Mesmo que nunca tenha todo o tempo para confessar tal amor.
Amar-te-ei para bem de mim mesmo,
Amar-te-ei mesmo que te minta,
Que te esconda, que te negue,
Amar-te-ei... apenas irei sempre te amar.
Amar-te-ei naquilo que de melhor sou,
Neste homem que sempre te sonhou,
Amar-te-ei agora e, sobretudo, amar-te-ei durante toda a minha vida,
Mesmo que um dia te veja ir naquela inevitável partida...
Não te esqueças... eu irei contigo."


Autor André Sousa
https://www.facebook.com/andresousapaginaoficial…

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Escrito no piar de uma gaivota

Rosie Hardy

Há o universo azul
onde vivem e moram
silêncios quase totais.

Essa lonjura infinita
não me permite avistar
se as nuvens têm asas
e olhos tristes a chorar,
se na lua há pirilampos
a cair na noite escura...

Deixar-me-á algum recado,
mensagem trazida do mar?

Será que o mar me quer dar
o recado,à luz do amanhecer,
escrito no piar duma gaivota
pousada para além dos areais?
.
Autor : Maripa http://omarmequer.blogspot.pt/

domingo, 11 de janeiro de 2015

Há um poema


Há...
Um poema que sinto
Há...
Uma palavra que minto
Há...
Um amor que tarda
Neste labirinto
De nada!
.

Autor : José Luís Outono
in Rio de Doze Águas

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Lavro teu corpo




WhiteAlice


Lavro teu corpo d’Oiro
Com meu cinzel de lábios
Esculpo a mais serena manhã
Com a mais violenta tempestade
Se nocturna a minha sede se prolonga
E teu ventre d’Oiro se aparta de meus dedos.


Autor : Joaquim MONTEIRO
2014-12-29 (© todos os direitos reservados)