sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Desarticulação


A terra vai secando, estiolando, doendo de metais pesados e de tanta lama. Invertem-se as correntes, ao grande gelo caem-lhe os caninos. A lua nem sempre se vê: é feroz a melancolia dos astros.

A terra de ossos contornados, Perdida no escuro dos sentidos: enxames de palmeiras na cidade, a amável temperature sempre à beira da doença, o luxo do betão, quase carnal, explicitando assédio, misturando ao pensamento uma penumbra fria; bétulas abertas como tigres pela casca, homens de feições rasgadas, almas que migram sem lume; e o desejo uma gaiola imunda, um vivo sequestro de araras.

A terra que se abria aos gregos, à astronomia, à agonia poderosa de um vulcão, filmada.

A terra vai desaparecendo. Poder-se-ia reduzí-la à questão da solubilidade das imagens – que a desarticula o sal, como a um navio.

Autor : Andreia C. Faria
De Canina, Tinta-da-china, 2022
Imagem : Andrea Peipe

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