quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Feliz Ano Novo de 2026

Agradecimento

Mais um ano que agora termina.

Em 2025 tive a oportunidade de aprender e crescer, e por isso, sinto gratidão por cada desafio e cada alegria que este ano me trouxe.

Agora, olho para 2026 com esperança, pronta para abraçar novas oportunidades e construir memórias inesquecíveis.

Que o novo ano seja repleto de saúde, paz, sucesso e realizações para todos nós.

Agradeço reconhecidamente por todos os amigos e leitores que aqui deixaram a sua pegada em comentários e em entradas anónimas que enriqueceram este blogue conforme as estatísticas.

Muito obrigada a todos.

Feliz Ano Novo de 2026

 Beatrice 2025-12-31

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Revelação


Meu ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombras e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

Autor : José Tolentino Mendonça
Imagem : Pinterest

domingo, 28 de dezembro de 2025

Súplica Serena


Conduze-me,
pois já não sei rezar.

Esqueci as palavras antigas
e as preces decoradas;
restam-me apenas as que invento,
sussurradas ao silêncio,
para que ninguém as escute.

Hoje, incline-se a minha boca
em gratidão pela vida,
pelas bênçãos recebidas
e pelo anseio de ser melhor
a cada dia que amanhece.

Hoje,
erguendo um fio de esperança,
imploro que a paz se derrame
sobre toda a terra
e sobre cada ser que respira.

Ámen.

Autor : BeatriceM 2025-12-28
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal

 



Ando à procura de um Natal diferente
Um Natal do tempo do passado
cheio de cheiros, de sons e da gente
que se perdeu e nunca foi achado.

Meus pais levaram com eles os Natais.
Eram Natais sem luxo e sem fartura.
Eram Natais que não esqueço mais,
Pois eram feitos de vida e de ternura...

O Deus menino punha no sapatinho
um sabonete, um rebuçadinho
Uma mensagem que trazia luz...

A minha mãe era uma Mãe Maria.
São José era o meu pai que só sorria.
Era um Presépio do Menino Jesus...

Autor : Maria Helena Amaro
Natal, 2015

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

FELIZ NATAL DE 2025

Feliz Natal 

Agradeço, com sincero reconhecimento, a todos os leitores, seguidores e amigos deste espaço dedicado à Poesia e à Literatura.

Expresso a minha profunda gratidão pela vossa presença e pelas vossas leituras. Embora os comentários sejam poucos, as visitas são, segundo as estatísticas, em número considerável , e isso enche-me de alegria. 

Obrigado por fazerem parte deste projecto.

Desejo a todos um Feliz e Santo Natal.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Caminho de Casa

Volto de noite para casa.
Tudo é memória fora de mim
ou onde em mim alguém conduz
fisicamente o automóvel.

Como não estarei
nem não estarei
em nenhum sítio, voltando
absolutamente para casa?

Subindo as escadas grave e inocente
como quem volta à noite para casa
e voltando para casa inteiramente
e adormecendo em mim como em casa

Autor :Manuel António Pina
 in O Caminho de Casa(Assírio & Alvim, 1989)
Imagem : Pinterest

domingo, 21 de dezembro de 2025

A desumanidade do mundo


Os inocentes choram,
silenciosos, a dor lhes consome o corpo,
uma dor que calcorreia até as entranhas.

Caminham por trilhas polvilhadas de aflição,
buscando alento em meio à escuridão.

Lágrimas enxugam,
não por escolha, mas por exaustão.

E neste mundo, cruel,
que nunca pediram para morar,
carregam o peso do que não pode ser mudado. 


Autor : BeatriceM 2025-12-21
Imagem : Christine Elger

sábado, 20 de dezembro de 2025

Aos Amigos

Achraf Baznani

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Autor : Herberto Helder
In Ofício Cantante

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

A solidão

a solidão não é um vazio
a solidão é um cheio de tudo
um abarrotamento dentro da gente
no grande silêncio de fora

Autor : Vera Lúcia de Oliveira
Imagem :Katharina Jung

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Pétalas

aprecio muito a redondez do mundo,
flores e pétalas
apontadas numa direção amarela

verdades doces como mangas
[gosto de mangas com fio – dão sorrisos mais amarelos]

um dia veio o vento e as pétalas esvoaçaram

ficou triste a flor
ficaram livres as pétalas


Autor : Ondjaki
Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Tela


Oleg Oprisco

Hoje sou eu que poso para o teu poema
Como uma modelo numa cama de flores
Que estaria
A vida inteira diante dos teus olhos
Até ser só ossos, ouro, palavras, rebentação.

Autor: Ana Salomé

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Pórtico

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda

Autor : Daniel Faria
in “A casa dos Ceifeiros”
Imagem : Natália Drepina

domingo, 14 de dezembro de 2025

Beijo Suspenso


Mesmo que não precises de mim,
lança teu nome ao vento —
por ímpetos e temporais,
eu o receberei
com a leveza
e a carícia
do beijo
que ficou por dar…

 Autor : BeatriceM 2025-12-14
Imagem : Laura Makabresku

sábado, 13 de dezembro de 2025

este livro


este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.

este livro tem palavras, esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

pousa os lábios sobre a página, pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.

Autor :  José Luis Peixoto
in A casa, a Escuridão, pág 19.
Temas & Debates

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Falhámos tudo


falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor
demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.
já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.

Autor : Renata Correia Botelho
Imagem :Pinterest

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Visão


...se eu não tivesse
desatado tantos nós...
talvez deixaria
as amarras frouchas
em escuridão.

Autor : AA
Albino Alves.Poesia Facebook
Imagem :Nikolai Tikhomirov

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Palavra eu

 


súbito vem o desejo
de um poema em que não caiba
a palavra eu

mas ela desconfiada
salta para dentro da pura
intenção: haverá sabotagem
nesse ao redor
nesse céu de tanto azul
nessa mosca pesada e lúdica
batucando na janela?

tantas coisas prescindem
de mim
tudo é maior do que eu
e no entanto
este instante
em que se pensa isto
em que se escreve isto —
será menos do que
inequivocamente meu?

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem Elena Kalis

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Movimento Imóvel


Passavam mil anos. Seres extraordinários
saíam da terra ou nela penetravam e
desapareciam. Guerras arrasavam
o que se erguia por cima de outras guerras.
E este movimento era imóvel. As pedras
lá estavam, não mentiam, com os astros
as únicas fautoras do silêncio.
Havia qualquer coisa como o vento que erodia.

Mas passavam mil anos. Os povos contavam
pelos dedos. A morte não vinha mais depressa.

Autor : Carlos Poças Falcão
Imagem : Pinterest

domingo, 7 de dezembro de 2025

Sussurro


A tua voz
é um eco
que a ilusão me traz —
jorra em meandros
de murmúrios
que me ditam
os anjos.

 Autor : BeatriceM 2025-12-07
Imagem : Brooke Shaden

sábado, 6 de dezembro de 2025

As pegadas do coração


As pegadas
Agora indeléveis
No coração

Autor :Alberto de Lacerda
In - O Pajem Formidável dos Indícios
Imagem :  Pinterest

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Linhas de torres


O passado é um país estrangeiro,
só não sabíamos que o tinham ocupado
nalgum inverno ausente,
para nos exilarem da ternura
entretanto roída por um exército de traças.

Cruzando a fronteira,
a solidão tornou-se uma sala
de espera povoada por mais
calafrios além do nosso,
mas já não restam palavras
a essas conversas de fantasmas
entrincheiradas que ainda
temem a via-sacra da noite,
o sono a parar em cada estação.

A retirada terá de ser feita
de forma desordeira e irrecuperável,
dinamitando horizonte a horizonte.
E que a ilusão pague por fim
a sua dívida ao presente.

Autor : Inês Dias
Imagem : Bara Vavrova

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Quando voltares

Kasia De Rwins

Quando voltares
toma a minha mão.
Tenho saudades
de mim em ti.

Tenho muitas saudades
de morar dentro dos livros
e de fazer amor contigo
em todas as páginas.

Autor : Joaquim Pessoa

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Pior...

marco pandullo

Amei quem me amou
Mas nem sempre
E bem.

Também amei quem
Não me amou.

Pior foi não amar
Quem me odiou.

Autor : Maria Sousa

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

É o frio


É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.

Autor : Rui Pires Cabral
Imagem : Laura Makabresku

domingo, 30 de novembro de 2025

Retorno


nunca pensei que, depois de tanto caminhar
entre a água
e o fogo,
a maldade
e a mentira,
a ansiedade e a luta,

tudo chegaria ao seu termo.
encerro este capítulo
da minha vida
fortalecida, plena,
de missão cumprida.

e retorno ao sítio de onde parti.

 Autor : BeatriceM 2025-11-30
Imagem : Ilya Kisaradov

sábado, 29 de novembro de 2025

Aquilo que não fomos


Ninguém tem culpa
Daquilo que não fomos!
Não houve erros,
Nem cálculos falhados
Sobre a estepe de papel.
Apenas,
Não somos os calculistas
Porém os calculados,
Não somos os desenhistas
Mas os desenhados,
E muito menos escrevemos versos
E sim somos escritos.
Ninguém é culpado de nada
Neste estranhar constante.
Ao longe, uma chuva fina
Molha aquilo que não fomos.

Autor : Paulo Bomfim.
Imagem : Sanya Khomenko

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

o escuro absoluto

Não dormia sem o escuro absoluto,
doíam-lhe os olhos de ter visto cidades,
de ter esquecido gente, do frio
do vidro nas palavras. Demorava tanto
a entender o mundo que agora não dormia
de muita luz que as coisas tinham
antes sequer de serem suas.

Autor: Filipa Leal
Imagem : Mira Nedyalkova

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Quero-te de Branco, Meu Amor

Vladimir Muhin

Quero-te de branco,
ou antes, modelada
nas roupas que cosesses
das bonecas, nos saltos,
nos baloiços, nos degraus
de uma porta qualquer donde saísses.
Quero-te de branco e intocada,
carregada porém dos anos buliçosos
e das vidas ausentes.
De branco, meu amor,
e de tão branco
que me desses o mundo em luz de sol.

Autor : Pedro Tamen
in“Rua de Nenhures”

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Gritei

Quantas vezes; gritei e não me ouviram
Quantas vezes; sozinha, me deixaram
Nos recantos mais sombrios onde floriram
Flores e pão que do meu sangue brotaram

Autor : Maria Tavares
Imagem : Brooke Shaden

terça-feira, 25 de novembro de 2025

falso lugar


o teu inverno

foi tudo nesse horizonte afogado. a mesa vazia, o piano calado, o pássaro imóvel. virás por muitos anos, como a espuma dos sonhos perdidos. e a raiva será cantada no paredão da memória até ficarem macias as pedras do caminho.

e será esse o teu Inverno.


Autor : gil t.sousa
Imagens : Pinterest

domingo, 23 de novembro de 2025

Escureço

Escureço comigo

e sei que não verás a minha escuridão
quando digo escureço, quero dizer envelheço
e não sei se é bom ou não
escurecer sem ti,


e hoje é apenas um dia…mas, é mais um dia,
e está frio.

Autor : BeatriceMar 22-11-2015
Imagem : Ilya Kisaradov

sábado, 22 de novembro de 2025

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura

GNP

«Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado...»

Autor : Herberto Helder

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Seu a Seu Dono

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do corpo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
como a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

Autor : Rosa Alice Branco
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Os Tempos Não


Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.
-
É pelo hálito que te conheço
no entanto o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.
-
Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Autor : Manuel António Pina
in Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde (Assírio & Alvim, 1974)
Imagem :  Alex Stoddard

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Hoje é o Dia de Todos os Deuses

Hoje é o dia de todos os deuses.
A maresia subirá breve
ao terceiro andar.

Virá como quem pede mais um pouco
desta tarde.
Deixo-me ficar enquanto vou

indecisa como quem não sabe.
Se escolho rainha se rei
só eu decido, só eu sei.

Hoje é o dia de todos os deuses.
A qualquer deles vou pedir
não só a Zeus, não só a Argos,

não só a Afrodite,
a que o amor consente de todos os modos,
à brisa pedirei

que me deixe partir
a voz em arco
e tudo fruir de outro modo

Ainda que hoje não seja o dia
direi
não tenho género ou identificação bastante

que se assemelhe
ao estar
preto no preto branco no branco.


Autor ; Helga Moreira, 
in 'Agora que Falamos de Morrer'
Imagem :Pinterest

terça-feira, 18 de novembro de 2025

com uma pedra


com uma pedra podemos fazer um universo, uma história ou um poema (as pedras servem para tudo, menos para atirar, as pedras são as letras do escultor…)“Engracei com uma pedra. Não pela cor, nem pela forma, mas por estar ali no meio do meu andar.Olhei-a, em conversa (daquelas conversas que temos com todas as coisas que nos entram no olhar e ali ficam a provocar-nos, seja pedra, rio, nuvem, quadro, flor ou coisas outras), mas ela mandou-me seguir caminho.O meu parar incomodava-a “ Sai! Sai da frente! Sai! Não ouves?” Repetiu-se em soluços simpáticos mas insistentes.Fiquei intrigado, porque não a imaginava com olhar. Pedra que é pedra, não tem frente nem costas quanto mais “olhar”.Fui. Na volta tornei a vê-la e parei-me provocador, mas não me disse nada.“Sonhei”, pensei “ lá estás tu com as tuas histórias”, disse-me. Fui com toda a intenção de ir, mas fui interrompido por um sussurro, “Espera! Fica aqui comigo! Preciso de ti!”. “Para quê? Porquê?”, “ Cansei-me de ser pedra! De manhã quando passaste por mim, estava a olhar para aquela papoila, aquela que ali está, a olhar para mim. Quero que me transformes em papoila!”, “Mas tu nunca serás uma papoila! Serás sempre uma pedra!”, “ Tu também já foste menino e agora és homem, porque razão não posso ser papoila?”Agarrei nela e esculpi-a, papoila…O sol encarregou-se de lhe dar cor…”
.
(escrito com a alma de uma pedra a 12/7/2004)

Autor:Almaro

domingo, 16 de novembro de 2025

Tristeza


não escondas a tristeza que te absorve;
deixa as lágrimas correrem livres
até não restar mais dor no peito.

é apenas uma catarse,
e — quem sabe — amanhã,
ou depois,
depois,
um sorriso renasça no teu rosto.

 Autor : BeatriceM 2025-11-16
Imagem : Artur Saribekyan

sábado, 15 de novembro de 2025

Ausência


Boyana Petkova

Fala

Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem

Alguém de nós que já não está

Autor : Daniel Faria
in "Oxálida"

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Do muro

 

Este muro avança com a estrada,
caminha para o cume e para o vale.
Se eu parasse junto dele, dir-me-ia:
aceito e recuso o movimento,
vou e não vou por vários horizontes,
sou e não sou infindamente.

Autor : fiama hasse pais brandão
as fábulas quasi 2002
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira


Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico

Autor : António Ramos Rosa
Deambulações Oblíquas. Quetzal, 2001.
Imagem :Pinterest

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Na periferia da manhã


Na periferia da manhã, levemente adiada,
improviso uma ilha.
Tão nua como páginas em branco.
E concedo-me o direito de esperar Ulisses.
A minha fronte marcada com palavras sem destino.

Autor : Graça Pires
Imagem : Tina Albrecht

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Elogio da Distância



Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
um enforcado estrangula o baraço.

Autor : Paul Celan
in “Papoila e Memória”
Imagem : stoddard

domingo, 9 de novembro de 2025

Segredos

 

Ontem falaram-me
de segredos
meus
eram segredos que só o vento sabia
fiquei perplexa e sem feedback.

Já não posso confiar em ninguém
nem sequer no vento.

Autor : BeatriceM 29-10-2022
Imagem : Mira Nedyalkova

sábado, 8 de novembro de 2025

Parto estelar


Contados os pontos
Finitos como eu
Mas belos no findar

Abstratos anjos gasosos
As verdadeiras nuvens
E o céu estão aí?

Reparar que é Hidrogênio
Também
Tão onipresente quanto Deus
Também
Tão logo se torna Hélio
Também
Nobre como deve ser

Um rajado
Na noite e no tempo
Vindo do infernal núcleo
Esgota contigo

No passado parecias eterna
No dia não parecias
Na noite perecias passageira

Humana luz
Resiste
Exaure

Orbitando no pretume onírico
É perfeita
Por esgotar-se
E brilhar o suficiente
Para parecer imortal

Autor : André Rosa

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Fim

Não houve um fim com grito ou dor,
só o silêncio a apagar o sabor.
Foi morrendo devagar, sem razão,
como quem larga devagar a mão.

Faltou carinho, vontade, calor,
aquilo que um dia chamámos amor.
Não foi traição, nem culpa, nem erro,
foi só o tempo a fechar o desterro.

Ficámos bem, e isso é raro,
não carrego raiva, nem olhar amargo.
Tu foste parte da minha estação,
mas não eras destino — só direção.

Hoje somos dois que já foram “nós”,
e mesmo que a memória ainda traga a voz,
a vida seguiu, tranquila e capaz…
porque o que ficou entre nós,
ficou tudo em paz.

Autor :Raquel Gonçalves
Imagem : Irina Dzhul