quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

composição


Sequer um gesto fica por esboçar
nem hora sem a sua liturgia:
realidade inteira a respirar
Deus, por todos os poros, à porfia.
Só então o poeta bebe a bica
e, discreto, compõe versos à lupa.


Autor : António Barahona da Fonseca

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A Noite abre meus olhos

Christine Ellger


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

Autor : José Tolentino Mendonça
in 'A Estrada Branca'

domingo, 27 de dezembro de 2015

Fiquei

Laura Makabresku

Fiquei de pé, a ver-te partir, por entre
os automóveis, que seguiam na mesma
direcção
só quando desapareceste no final da
rua,
cambaleando,
comecei a andar pela praça
coberta de folhas das que árvores que
circundavam as casas.

E então chorei…totalmente desamparada.

BeatriceMar

sábado, 26 de dezembro de 2015

Não é Preciso

Laura Treece

Não é preciso que a realidade exista
para acreditarmos nela. Na verdade,
se não existir tudo é mais luminoso.
Mundo, evidência submissa e soberana.

Autor : Pedro Mexia
in "Duplo Império"

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Feliz Natal


Desejo a todos os amigos, visitantes e seguidores um Feliz Natal.

BeatriceMar

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Não sei,

Federico
 Erra

Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

Autor:Pedro Tamen

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O profundo azul da noite

Brooke Shaden

O azul que me veste as mãos por dentro
é ainda o profundo azul da noite
em que bebi no sal da tua pele
o branco aceso do meu corpo
e o silêncio da aragem miúda
que antes da chegada do vento
te havia de romper os olhos
em lágrimas de espanto e sede
pela sombra dos meus dedos.

Autor : Ana Oliveira

domingo, 20 de dezembro de 2015

despedidas

Andrea Hubner
Ao fundo da rua, o teu carro,
a esvair-se em marcha lenta.

Eu parada, a reter, a tarde, a rua,
a despedida.

Às vezes oiço as tuas palavras,
que guardo em lugares recônditos.

BeatriceMar


sábado, 19 de dezembro de 2015

significativo

todos os nomes podem ter uma coisa
que pode não ter nome.
não sei se é o tempo, se há tempo
ou se há um tempo, sequer.
os meus dedos são o que eu quiser,
mas tocar-te, sejam eles o que forem,
só se o desejares. o resto, nesta matéria:
são invenções ou coisas de outra razão,
que não a minha. ou palavras. ou nomes.

mas eu sonho. pouco importa a cor
ou o nome. sonho, como respiro.
respira. podes colar estrelas no céu,
embalar a dor e ter mapas no corpo.
poderemos não ter que atribuir um nome
a tudo e, ainda assim, comer laranjas.

Autor : Henrique Caldeira dos Santos
http://aurorar.blogspot.pt/

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Palavras minhas

Rosie Hardy

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Autor : Pedro Tamen
in TÁBUA DAS MATÉRIAS – POESIA 1956-1991 (Tertúlia,

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Nem tudo

Elizabhet Gadd

Nem tudo o que os olhos vêem são verdade, tal como nem tudo o que o coração sente é real.
Não se escreve o que se pensa e o que se sente, escreve-se no crú da folha o que se é.
Ao se mostrar, nú, o homem despe-se de seu corpo e matéria para se apresentar aos nossos olhos.
Acreditamos religiosamente nas nossas mãos e sentidos sem antes as lavarmos.
Acreditem que nossos sentidos são mentores de nossa personalidade mas não nossos poderes.
Se me perguntarem a mim, se assim o é, tenho que pensar um pouco sobre o que sinto do próprio homem.
Na vida, o peito doi, aperta, mas ele sabe o tempo e o caminho.
Autor: Alvaromartins MArtins  Alvaromartins Martins

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

era um vapor que passava

Saul Landell

Era um vapor que passava
e o seu rasto na água.
Era uma ave suspensa
no redondo do céu.
Era a tarde e a sua
luz esmaecente.
E eram as nossas mãos
que se uniam
em silêncio.


Autor  . Pedro da Silveira (Memória Vaga)

domingo, 13 de dezembro de 2015

...

lembro os nossos corpos
à chuva
na praça defronte da casa

hoje chove
e só existe a praça a casa
e a tua lembrança

BeatriceMar

sábado, 12 de dezembro de 2015

É estranho este sentir em que nada sinto

Ana.Photography.PL

É estranho este sentir em que nada sinto,
Este morrer que semelha uma outra lida
Ao lavrar estranha emoção jamais sentida
Pois não escrevo pensando, mas por instinto.

Sendo justo, escrevo tão-só o que pressinto,
O que não sentirei nesta coisa nunca tida,
Para uns existência, para mim triste vida
De cuja ausência no que faço me ressinto.

Sou assim, nada há a fazer. E, ao sê-lo,
Melindro quem s’atreve a ter piedade,
A nutrir por mim certo dó, sem merecê-lo,

Pois só então sei ser para ser de verdade
Quem julgo ser quando tento esquecê-lo,
Esse que sou, mas do qual não tenho saudade.

LC dixit
Autor : Luís Corredoura

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Quando vieres

17 de janeiro de 1927 
10 de Dezembro de 2015

Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.

Eugénia Cunhal
in «Silêncio de Vidro»

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

E agora a tua pele

Rosie Hardy

Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.
Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
No côncavo da mão o sol nascia.

Autor : Pedro Tamen

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

É nos teus olhos

Esther Bayer

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou,mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.
.
Autor : Nuno Júdice

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

I Was Made To Love Magic

Elena Vizerskaya

A manhã com as suas proibições
na tua fala. A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos
não coincidiam com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo. E no caso de nos ter acontecido
uma mudança, onde é que havíamos de procurar
os seus indícios? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.

Autor : Rui Pires Cabral
in 'Música Antológica & Onze Cidades'

domingo, 6 de dezembro de 2015

a tarde entra

Barbara Cole

a tarde entra sorrateira pela janela
por cima das cortinas

e as gaivotas esvoaçam, adivinhado
a chuva da noite

na minha memória, ainda
recuo no tempo

e sei que amanhã os barcos
não vão para o mar.

BeatriceMar

sábado, 5 de dezembro de 2015

quisera

Oleg Oprisco

quisera tão só esse dom de cegar,
de luz trespassar as noites
e no ventre do mundo correr mansamente
como se os navios chamassem
e um oceano morresse no vazio dos passos,
como se fosse a hora de me transformar numa ilha
onde só tu naufragasses


autor . gil t. sousa

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Dizes que me amas

Ivan Alifan

Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.


autor: Amália Bautista

domingo, 29 de novembro de 2015

Ainda...

Saúl Landell

Ainda... escrevo palavras que não entendes
nem lês
e ainda as pegadas que deixo na praia
são as tuas e as minhas
mesmo que não estejas comigo
eu sei que ainda dormes na minha saudade.
.
Autor : BeatriceMar

sábado, 28 de novembro de 2015

NADA ESTÁ ESCRITO !...



Christine Ellger

Na fogueira dos dias ardidos em que a cidade desmaia
Anuncia-se incerta uma luminosidade vespertina -
Destino sem rosto bem definido ainda...

Subtis prenúncios se levantam na combustão das palavras
Esventradas e nos latidos de cinza sobrevoando 
A noite como meteoritos de uma galáxia
Entretanto extinta...

O espectáculo porventura reluz e predomina
Numa embriaguez que os sentidos recolhem
Como lantejoulas de enganos no vazio exaurido
De títeres sem rosto quais vampiros de um insaciável
Sangue que lhes turba a voz e lhes empalidece a fronte... 

Nada porém está escrito que os homens não possam.
Nem as entranhas das aves são labirinto de secretas.
Fórmulas que apenas alguns decifram...

Nem o poder. Nem o tempo...

O dia e a noite seguem seu ritmo.
E respiramos. E no alvoroço das palavras reinventadas
Ateamos o fogo solar e o fulgor dos dias claros...

Nada está escrito!...

Autor : Manuel Veiga
http://relogiodependulo.blogspot.pt/

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Se procuro o teu rosto

Katerina Plotrikova

Se procuro o teu rosto
no meio do ruído das vozes
quem procura o teu rosto?

Quem fala obscuramente
em qualquer sítio das minhas palavras
ouvindo-se a si próprio?

Às vezes suspeito que me segues,
que não são meus os passos
atrás de mim.

O que está fora de ti, falando-te?
Este é o teu caminho,
e as minhas palavras os teus passos?

Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?

Autor : Manuel António Pina

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O mar é longe, mas somos nós o vento;

Elena Vizerskaya


O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio passe e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Autor : Pedro Tamen
in "Daniel na Cova dos Leões"

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Autor : José Luís Peixoto
in 'A Criança em Ruínas'

domingo, 22 de novembro de 2015

escureço

Anna O.Photografy

Escureço comigo
e sei que não verás a minha escuridão
quando digo escureço, quero dizer envelheço
e não sei se é bom ou não
escurecer sem ti

e hoje é apenas um dia…mas, é mais um dia
e está frio

Autor : BeatriceMar

sábado, 21 de novembro de 2015

esperar que voltes é tão inútil como o

Anna O.Photografy

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos e
um telefone se debruça de
uma qualquer janela

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver

Autor : Alice Vieira

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

herança

Emily Soto
o tempo
que desconhece
tempo
é sempre

um momento.

É
sempre

uma criança
em sua eterna infância
que do universo
recebeu essa herança -
tempo


autor : joanna.franko

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Quero dar-te

Josephine Cardin

Quero dar-te a coisa mais pequenina que houver
bago de arroz
grão de areia
semente de linho
suspiro de pássaro
pedra de sal
som de regato
a coisa mais pequena do mundo
a sombra do meu nome
o peso do meu coração na tua pele.
Autor : Rosa Lobato de Faria

terça-feira, 17 de novembro de 2015

6

Eric Zener

guarda-me
adormecida para sempre no teu peito

ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.

há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes

depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.

E eu adormecida
para sempre no teu peito.

e eu acorrentada para sempre
no teu peito

e de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
 que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor

muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão

e eu adormecida para sempre
no teu peito

e eu acorrentada para sempre
 no teu peito.

© Alice Vieira
pág 64  in dois corpos tombando na água

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Felicidade


Anna O. Photography

Felicidade
é abrir-te devagar como uma porta
rangendo murmúrios
para o meu corpo entrar.

E depois, depois voltar a fechá-la atrás de mim
e caminhar em ti em ritmos certos
para que os meus passos se confundam com o
bater do teu coração.

E depois, depois semear em ti trigo novo
e soltar papoilas nuas da minha boca
para que se misturem com o teu sangue.

E depois,
depois perder-me nesse sonho sem regresso
só com a luz dos teus olhos
a levarem notícias do mundo!…

Autor : João Morgado
in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, (Coisas de Ler Ed., 2012)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Esquece-te de mim.Amor

Jantina Peperkamp

Esquece-te de mim, Amor
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa.
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez termos chegado.
.
Autor : António Mega Ferreira
in Os Princípios do Fim- Poemas (1972 – 1992),

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Ama-me

Leslie Ann O'Dell

Ama-me,
agora
antes que a palavra chegue.
Toca-me
antes que haja mundo,
Beija-me
antes que comece o beijo.
Despe-me
para que eu esqueça ter corpo.
Devolve-me
o reino onde fui deus.
Ama-me
até não sermos dois.
Ama-me.
E tudo será depois.

Autor © Mia Couto

domingo, 8 de novembro de 2015

Teu corpo

Christine Elgger

Teu corpo é um livro
Que folheio e leio
Releio
E nunca me canso de ler
Há sempre algo novo
Que eu releio e quero voltar
A reler

BeatriceMar

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O breve amor do tempo

Eric Zenner

venho dormir junto de ti
e o meu corpo é uma coisa diferente
do que se vê ou toca ou sente;
é, fora de mim, essa coluna de ar onde respiro,
olhos que beijam o teu corpo exacto,
as muitas mãos que dobram o teu rosto.
Um deus que dorme, um deus que dança, e mais
que um mero deus, o breve amor do tempo.


Autor  : António Franco Alexandre

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sou-te ninho

Jaroslaw Datta

No teu rosto
repousa a madrugada
de fatigados pássaros

Poisas a cabeça
no meu peito
onde ainda há pouco
o vento cantava

e os meus seios eram eco
de teus incontidos desejos

Sou-te ninho


Autor : Fátima Guimarães

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os teus seios


Os teus io


Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.

Os teus seios na palma da mão.

Autor : José Félix

domingo, 1 de novembro de 2015

O frio

shawrus

o frio que me consome,
é apenas um apêndice, que se colou em mim
após a tua partida.

BeatriceMar

sábado, 31 de outubro de 2015

Tempestades

Brooke Shaden

São de nada
 tempestades
 ante a falta
 que me fazes.

Autor :  David Mourão-Ferreira

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A noite caía

Leslie Ann O´Dell

A noite caía
Eu podia ouvir o chamado.
Nada mais do que areia ,
o vento varrerá
os traços de que eu estava aqui
A história de uma lágrima
a minha história
Isso é tudo...
o vento levará
o som do meu coração!

Autor : joanna.franko

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

...

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.


Autor : José  Saramago
in Os Poemas Possíveis (Portugália Ed., 1966)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Homem e a Mulher


Rosie Hardy

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefenível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A razão convence e as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço e cantar é conquistar a alma.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra; a mulher, onde começa o céu.

Autor : Victor Hugo

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Feminina

Mira Nedyalkova


Não lavei os seios
 pois tinham o calor
 da tua mão.
 Não lavei as mãos
 pois tinham os sons
 do teu corpo.
 Não lavei o corpo
 pois tinha os rastros
 dos teus gestos;
 tinha também, o meu corpo
 a sagrada profanação
 do teu olhar
 que não lavei.
 Nem aqueles lençóis,
 não os lavei,
 nem os espelhos
 que continuam
 onde sempre estiveram:
 porque eles nos viram
 cúmplices, e a paixão,
 no paraíso,
 parece que era.
 Lavei, sim,
 lavei e perfumei
 a alma, em jasmim,
 que é tua, só tua,
 para te esperar
 como se nunca tivesses ido
 a nenhum lugar:
 donde apaguei
 todas as ausências
 que apaguei
 ao teu olhar.


Autor : Soares Feitosa

domingo, 25 de outubro de 2015

...

Natália Drepina

hoje assinei o meu nome
limpo
sem apêndices do teu
o meu nome
apenas...
.
BeatriceMar

sábado, 24 de outubro de 2015

Sem outro intuito


Sem outro intuito
Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

Autor : Luís Miguel Nava
in Vulcão I

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Alma Gémea

rebecca finch

Dos anéis, restam os dedos
do sofrer, as cicatrizes
das paixões, apenas cinza
da obra, os aprendizes.
Das palavras, velhos livros
das alegrias, lembranças
dos quadros, restam paredes
dos afagos, duas tranças.
De ti, a fotografia
de nós, simplesmente nada
de mim, uma estátua fria
da vida, a triste balada.
E no espelho, há uma imagem
a única, que em nós confia
a única, que nos nomeia
a única, que desafia.
.
.

Autor : Helena Figueiredo,2014

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O céu

Oleg Oprisco


O céu
Assoam-se-me à alma,quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.

Autor :Luís Miguel Nava

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

De sonhar

Miho Hirano

De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos.

Autor Fernando Pessoa
Livro do Desassossego

domingo, 18 de outubro de 2015

Parti todos os espelhos


Parti todos os espelhos que me perseguiam
E tenho estilhaços a magoar-me a alma
E a esventrar-me os sonhos que não vivi.

Autor: BeatriceMar