sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Só eu sinto bater-lhe o coração

Brita Seifert

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.
 (Alguém há-de guardar este tesoiro!)
 E, como dorme, afago-lhe o cabelo,
Que mesmo adormecido é fino e loiro. 

Só eu sinto bater-lhe o coração,
Vejo que sonha, que sorri, que vive;
Só eu tenho por ela esta paixão
Como nunca hei-de ter e nunca tive. 

E logo talvez já nem reconheça
Quem zelou esta flor do seu cansaço... 
Mas que o dia amanheça
E cubra de poesia o seu regaço!


Autor : Miguel Torga
in 'Diário (1946)'

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
.

Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Paulo Madeira

domingo, 26 de agosto de 2018

noite e margens

Ben Zank

Nas orlas da noite –margens em mim
Tenho todos os segredos – em nós
Guardo no ventre a seiva – e afogo-me
Luxúria dos corpos - em rios
Nas escarpas das certezas – de perigos
E somos dois – entrelaçados
Unos – apenas 


Autor :BeatriceM
(Nota: pode separar o poema (o que está escrito a negrito) e ler de duas maneiras)

Foto:Stan Mare

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Bairro

Luís Amaro 
(1923-2018)

Em teu corpo enfim repousarei
Das pedras ásperas
Que mal sei pisar?

Das guerras, dos cilícios,
Dos ecos a doerem nos ouvidos
Como pedradas.
E dos tédios que sangram?

Ah, finalmente
Ao desfolhar teu corpo desfolhado
— Mas inda fresco e belo —
A vida será minha?

Autor : Luís Amaro
Foto:Autor desconhecido

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Horizonte Imediato

Cristina Fornarelli

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão

Autor : António Ramos Rosa
In Estou vivo e escrevo sol (1966) retirado de Antologia Poética

domingo, 5 de agosto de 2018

Crepúsculo


Não me iludo
No meu horizonte vislumbro
O crepúsculo do dia
A noite cinge-me
E eu quero um devaneio
Feito deslumbramento
Num braçado de estrelas cadentes.

Autor : BeatriceM 2012-08-05

sábado, 4 de agosto de 2018

Bar do Acaso

Fabian Perez

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro
e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.

Autor : Rui Costa
em, O pequeno-almoço de Carla Bruni (edição bilingue), Punta Umbría: Ayuntamiento de Punta Umbría, 2009, p. 10.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Epitáfio

Foto:Marcela Bolivar

Querida vida.
Pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Autor : Luiza Neto Jorge
em Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2ª edição, 2001, p. 288.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Silêncio



Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no 
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
.
Autor : José Agostinho Baptista

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

...


Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.

Autor : Marta Chaves
em Pedra de Lume, Lisboa: Paralelo W, 2013, p. 27.