terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cantares

leszek bujnowski

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

Autor : António Machado

domingo, 22 de outubro de 2017

herança

Deixaste-me tudo o que podias
E foi tão pouco
Tão pouco


Quase nada

Nada
Ou quase tudo

.Quando ainda me lembro
Ainda sinto a tua pele
Em mim


E procuro na noite
O teu beijo
Perdido por aí...

..

Autor :BeatriceM (reeditado)
Foto: Żaba-Ewa

sábado, 21 de outubro de 2017

Dois rios

Elizabet Gadd

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luis Miguel Nava

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Prazo de vida

Olga Astratova
No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

Cecília Meireles
in 'Mar Absoluto'

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ver e não ver


Idilko Neer

Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação, ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão porque naturalmente, e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas, porque as vemos: e não vemos essas mesmas coisas, porque as vemos divertidos. 

Autor : Padre António Vieira
in "Sermões"

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Terror de te amar

Ana Razumovskaya

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in “Obra Poética”

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Praia

Laura Lee Zanghett

Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar

teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas

braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu

e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

domingo, 15 de outubro de 2017

Partilha

Vera Rockline

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor: BeatriceM 2011-03-06
(reeditado)

sábado, 14 de outubro de 2017

De Longe

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

..

Lindsey Kustsuch
Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo que parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

Autor : Alice Alves
in O que doí às aves

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

....

Ionut Caras

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
.
Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.
.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

Autor : Mia Couto
in Idades Cidades Divindades

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O Amor

Cristina Fornarelli

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei

Autor Sophia e Mello Breyner Andresen
in O Cristo Cigano

terça-feira, 10 de outubro de 2017

...umas vezes falavas-me dos rios

Escha Van den Bogerd
umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia

outras vezes velava-te uma lâmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava

outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias

nessas vezes a água do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia

              Autor : Carlos Nogueira Fino

domingo, 8 de outubro de 2017

esquece


esquece os dias antes e depois de nós,
mas não esqueças o meu nome.

não digas que não sabes de mim,
não negues as noites que foram nossas.

muita coisa podes não querer  lembrar,
mas um corpo nunca se esquece.

Autor : BeatriceMar
26-05-2013
(reeditado)

sábado, 7 de outubro de 2017

Quase de nada místico

Paul Fried

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.

Autor : Ana Luísa Amaral
in às vezes o Paraíso

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Completas

Ildiko Neer

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Autor  : Manuel António Pina
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pacto


Istvan Sandorfi

entre o teu signo e o meu
existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno

e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.

Autor : Bruna Lombardi

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Viagem

Paul Kelley

É o vento que me leva
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

Autor: Miguel Torga

terça-feira, 3 de outubro de 2017

De Amor nada mais resta que um Outubro


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Autor : Natália Correia
in “Poesia Completa”