quarta-feira, 31 de maio de 2017

Etapas

omar ortiz

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Autor : Glória de Sant’Anna
in ‘Poemas do Tempo Agreste

terça-feira, 30 de maio de 2017

Etapas

George Christakis

Não te detenhas nos corredores sombrios,
são apenas etapas que importa ultrapassar.
De qualquer modo, não passam de episódios
e têm forçosamente um fim.

Os precipícios só existem
na cabeça de quem os inventa.

Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.

Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.

Quando o sol te acordar, verás que o pesadelo
não passou disso mesmo, um pesadelo.

Autor : Torquato da Luz

domingo, 28 de maio de 2017

é tão tarde....

Maja Topcagic photography

e ainda me falta aprender tanta coisa
e não tenho mais tempo
é tarde, tão inevitavelmente tarde.

tudo o que podia dar, já dei
não custou muito,
apenas pouco, muito pouco.

os meus livros,
isso custou,
foram pedaços de mim.

fiquei com as minhas dores
os meus falhanços
os meus sentires.

fiquei com a janela sem cortinas
para melhor ver a praça
e o mar.

sou livre, não tenho bens
não preciso de testamento…

Autor : BeatriceM

sábado, 27 de maio de 2017

Lançamento



Obra poética inspirada nas mulheres retratadas pelo célebre pintor italiano Amadeo Modigliani.
Apresentação da obra pela poeta Catarina Nunes de Almeida


Já não possuo a voz de outrora,
quando repartir o pão
era um gesto maternal
e os filhos me pediam os olhos
para poderem adormecer.

Com os pulsos abertos
a qualquer aflição
manejo, como sei,
o sulco invisível da luz.

E sei-me rodeada por um rio
gemido até à secura.

Mulher com camisola preta, p. 18

--

Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Obras publicados
Poemas. Lisboa: Vega, 1990
Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013
Espaço livre com barcos. Poética Edições, 2014
Uma claridade que cega, Poética Edições, 2015

Prémios recebidos:
Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

laços


Andei a vida toda atrás do teu abraço
Sem saber que todos os caminhos
percorridos
Eram destino do nosso enlaço.

E os desenlaços meus
nunca foram (os) teus.

Autor : LuísM
https://alemabarca.blogspot.pt/

quinta-feira, 25 de maio de 2017

...

Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.

Autor : Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 24 de maio de 2017

De nós em limite

ofra amit

Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura

No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite

Autor : Manuela Amaral

terça-feira, 23 de maio de 2017

(Poema 6 do Ciclo Elementos)

Maja Topcagic

O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.

Autor :  Victor Oliveira Mateus. Gente Dois Reinos
 Fafe: Editora Labirinto, 2013
 p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
.
.

sábado, 20 de maio de 2017

Amor

Omar Ortiz


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Já não vivo, só penso

Victor Bauer

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lançamentos

Apresentação da obra por
Luís Filipe Sarmento e Isabel Mendes Ferreira


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Desnascer do tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Poema Líquido, p. 30


Manuel Veiga Nasceu em, Matela, Vimioso (Trás-os-Montes), e vive em Bobadela, concelho de Loures. É licenciado em Direito tendo exercido advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e mais tarde como Inspector Superior da Inspecção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respectivo Gabinete Jurídico. 
Entretanto, havia sido redactor de noticiários da Emissora Nacional e Copywriter de publicidade. Colaborou esporadicamente na imprensa diária, designadamente, no “Diário de Lisboa” e em “O Diário”, e regularmente em revistas periódicas sobre temas de natureza política, económica e social, designadamente, a revista “Economia EC”, a revista “Poder Local”, e a revista “SEARA NOVA”, integrando presentemente o Conselho Redactorial desta última. 
Para além da obra agora dado à estampa pela Poética, é também autor das obras “Poemas Cativos” (poesia, Poética Edições, 2014), “Notícias de Babilónia e outras Metáforas” (crónicas, Modocromia, 2015) e “Do esplendor das coisas possíveis” (poesia, Poética Edições, 2016).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia

terça-feira, 16 de maio de 2017

Chove

Emerico Toth

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Autor : José Gomes Ferreira

domingo, 14 de maio de 2017

casualidades

Oleg Oprisco

desviados da rotina,
submersos em cascatas de emoções acabadas
cruzaram-se, acidentalmente,

cruzaram-se numa esquina da vida,
quando fugiam de tudo e todos,
quando andavam por aí invisíveis,

olhares trocados,
sorrisos cúmplices,
e corpos partilhados,

e seguiram caminhos contraditos
fugiram, e a ausência
macerou a saudade compartilhada,

aos poucos, e levemente
criou uma auréola num acaso que
merece sempre ser revivido.

Autor : BeatriceM

sábado, 13 de maio de 2017

Os amigos


norvz austria

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Autor : José Tolentino Mendonça
In : De Igual Para Igual

sexta-feira, 12 de maio de 2017

As tuas mãos

omar ortiz
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim…

Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!...
- Mãos de doente,
mãos de asceta…
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta…

Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!

Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
… E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
- as minhas mãos de mulher!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheço o Sal


Kevin Pinardy

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Autor : Jorge de Sena

quarta-feira, 10 de maio de 2017

As Mães

Gustav Klimt

as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa
de onde nunca partimos

as mães são eternas
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meu País Desgraçado

Almada Negreiros
Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Autor : Sebastião da Gama
in 'Cabo da Boa Esperança'

domingo, 7 de maio de 2017

certezas

Leah Jonhnston

já não te tenho, e
nem te perdi, deambulando pelo meu corpo
ainda retenho,
o teu odor em mim…

Autor : BeatriceM

sábado, 6 de maio de 2017

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

mariska karto

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Autor : António Lobo Antunes
in "Diário de Notícias (2004)"

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Recado

Danielle Richard

Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.

Autor : Glória de Sant'Anna
in 'Música Ausente'

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As Lágrimas e o Amor

katia chausheva

As lágrimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. Às vezes lambo-as dos cantos dos olhos. São mini-margaridas, sem álcool, inteiramente naturais. Dizer «Não chores» funciona sempre, porque só mencionar o verbo «chorar» emociona-as e liberta-as, dando-lhe a carta branca para chorar ainda mais. Só intervenho com piadas e palavras de esperança e de amor quando elas vão longe demais e começam, por exemplo, a pingar do nariz.

As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. É como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. Nós somos a toalha que está mais à mão. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. É horrível, não é? Mas só um santo não se aproveitaria.

E as raparigas que choram depois de se virem? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas? Gostaria de pensar que sim. As três coisas, pelo menos. Elas próprias não sabem. Riem-se logo de seguida. As piores são as que se riem logo ao princípio. Mas as piores também são muito queridas.

Autor : Miguel Esteves Cardoso
in 'O Amor é Fodido'

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Matura Idade

Anka Zhuravleva

Já não receio
 meu avesso de medos. 

Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei — cada ser
possui justa medida.

Já não almejo
o que me foi negado.

Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.

Autor : Lara de Lemos
in 'Adaga Lavrada'

terça-feira, 2 de maio de 2017

Não digas a ninguém



Não digas a ninguém, mas no frio da noite, procuro o calor nos teus braços.
Nos momentos de angústia e desespero, procuro a calma e segurança,
na paz do teu olhar.

Não digas a ninguém, mas é no teu colo que encontro carinho e ternura.
É no teu beijo que encontro desejo e paixão.

Não digas a ninguém, mas és tu que dás sentido há minha vida,
és tu que me motivas para alcançar objectivos,
que me dás força para lutar.

Não digas a ninguém, mas és tu o meu amor eterno...
e sei, que sou e serei sempre o teu.
Mas descansa, não direi a ninguém.


Autor  : Pedro Belo