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sábado, 12 de setembro de 2026

Compasso para elegia

Adam Bird.
.
Não me venham dizer que há remédio:
nada substitui a presença das coisas,
a presença material das coisas.

Os dias da morte
gravitam no escuro,
enquanto acendo fósforos de sombra
à tua procura nas gavetas,
nos armários, nas cabines,
em todos os lugares
onde fatalmente
tu não estás.

Nenhum prodígio pode reconstituir
a tua voz, o sorriso interior da tua boca,
voz humana, acesa no peito,
cujas palavras eram como labaredas.

Só o silêncio comemora o facto
de teres vivido como o álcool,
possuindo possuída,
com as artérias cheias de vinho doce
- corpo de vaso e sangue de licor.

Autor : albano martins
assim são as algas
campo das letras 2000

sábado, 1 de agosto de 2026

Crepúsculo de Agosto


Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, de ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.

Autor : Albano Martins
Imagem : Pinterest

terça-feira, 9 de junho de 2026

Entardecer na Praia da Luz

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.


Autor : Albano Martins
in "Castália e Outros Poemas"

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pintura


Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Autor : Albano Martins
in "Castália e Outros Poemas"
Imagem : Lizzy Petereit

sábado, 9 de agosto de 2025

Tu choravas

Katia Chausheva

Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
– riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.
Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.
Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida,
entrando devagar, muito devagar e
acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.

Autor : Albano Martins

sábado, 12 de julho de 2025

ainda te falta

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
.
Autor : Albano Martins

sábado, 31 de agosto de 2024

Arrefece


Arrefece,
dizias. É o frio,
disse eu,
que te acaricia
a pele. Que nela se aquece. Que nela
se esquece.

Autor : Albano Martins

sábado, 27 de julho de 2024

...


Não digas
beijo, diz a boca. Não
digas rio, diz a fonte. Diz
apenas.

Autor : Albano Martins
Palinódias e Palimpsestos Editorial Campo das Letras, Porto 2006
Imagem : Michal Zahornacky

terça-feira, 25 de junho de 2024

Talvez

Cristina Fornarelli

Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.

Autor : Albano Martins

sábado, 25 de maio de 2024

Um dia virei

Elizabeth Gadd

Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,
para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem
e eu não sinta.

Autor : Albano Martins

sábado, 20 de abril de 2024

Dois Poemas

Antonio Curnetta

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?

É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.

Autor : Albano Martins

terça-feira, 26 de março de 2024

Insónia

Oleg Oprisco

Perguntarás aos peixes
como se dorme
de olhos abertos. Porque o sono
dos vivos é um fosso
de víboras
insones. E precisas
por isso
de estar atento. De dormir
acordado.

Autor : Albano Martins

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

...


À maçã
não lhe perguntes
quem é.

Outra forma
não há
de lhe reconhecer
o sabor

Autor : Albano Martins

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Compêndio


Dizias: daqui o mar parece '
uma tarântula
azul. Eu respondi:
vermelhas
são as flâmulas,
das algas e o fermento
das águas.

Escrever
é isso: fazer
da vida uma pauta
e um compêndio de espuma

Autor :Albano Martins
Imagem :Eric Rubens

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Como se fosse o mar


Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.

Autor : Albano Martins
(Do livro Escrito a vermelho, 1999)
Imagem : vaggelis fragkakis

sábado, 23 de julho de 2022

Se o tempo

Frank Wilcok 

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Autor : Albano Martins

terça-feira, 21 de junho de 2022

Como um livro


Como um
livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
.
Autor:Albano Martins
Foto:Martim Dimitrov

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

O nome da ausência

 

O sotão: era ali
que o mundo começava. Ainda
não sabias, então,
quantas letras te seriam
necessárias para soletrar
o alfabeto dos dias, para encher
a tua caixa
de música, a tua concha
de areia. E ainda
o não sabes hoje. Com cinza
nada se escreve a não ser
as vogais do silêncio. E este
é o nome que se dá à ausência,
quando a noite e a poeira
dos astros pousam
sobre a ranhura dos olhos.

Autor : Albano Martins
Imagem : Annegien Schilling

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Diálogo

 

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

Autor : Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"
Imagem : Victor Bauer

terça-feira, 22 de junho de 2021

...

É preciso arrancar as árvores,
impedir que a noite suba,
descalça, pelos seus ramos.
É preciso, e já.
Antes que a sombra se farte
e nos vomite nos olhos.

Autor : Albano Martins
Imagem : Viktoria Haack