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sábado, 29 de agosto de 2026

Viagem

Paul Kelley

É o vento que me leva
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

Autor: Miguel Torga

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Liberdade


-- Liberdade, que estais no céu…
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

-- Liberdade, que estais na terra…
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
-- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Autor : Miguel Torga

sábado, 19 de novembro de 2022

Fé

 


Venha o sol que vier, é uma promessa
O que a manhã nos traz na sua alvura.
É outra vez a vida que começa
Abertura de inocência e de frescura.

Cipreste frio a noite, a noite! Cor impura.
Triste alegria a tinta negra impressa.
Venha o sol que vier, tem mais altura.
O sonho que se veja e que meça.

Claro como a verdade _ diz o povo.
Doce como um começo, o fruto novo
Onde reluz o laivo que o pintou.

Venha o sol que vier, é um outro dia
No límpído da fantasia.
Que a nossa escuridão iluminou.

Autor : Miguel Torga
Imagem : David Tomek

sábado, 2 de julho de 2022

Desfecho


Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te…
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte.)

Fosse qual fosse o chão da caminhada
Era certa a meu lado

A divina presença impertinente
Do teu vulto calado
E paciente…

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão.
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tua não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia…
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

Autor : Miguel Torga
 In câmara ardente 1962
Imagem : David Talley

sábado, 4 de dezembro de 2021

Não tenho certezas

 

Não, não tenho certezas.
Se era esse o canto que vos atraía,
Deixai-me só nesta melancolia
De baixo, aberto e liso descampado
Quero viver, quero morrer, e quero
Que ao fim a soma seja um grande zero
Do tamanho da ardósia... E apagado.

Mas são desejos da fisiologia...
Vagas aspirações do dia-a-dia
Duma bilha de barro
Que não vale um cigarro
Que se fuma.
Não, não tenho certezas;
Tenho bruma.

Autor : Miguel Torga
Imagem :Laura Makabresku

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Bilhete


Nada me dês nem peças.
E não meças
O que podias dar e receber.
Fecha a própria riqueza do teu ser.

Um de nós era a mais
À lírica janela…
Olharam-se os zagais,
Mas não houve novela.

A vida assim o quis,
A vida sem amor.
Não regues a raiz
Do que não teve flor.

Autor : Miguel Torga

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Só eu sinto bater-lhe o coração

Brita Seifert

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.
 (Alguém há-de guardar este tesoiro!)
 E, como dorme, afago-lhe o cabelo,
Que mesmo adormecido é fino e loiro. 

Só eu sinto bater-lhe o coração,
Vejo que sonha, que sorri, que vive;
Só eu tenho por ela esta paixão
Como nunca hei-de ter e nunca tive. 

E logo talvez já nem reconheça
Quem zelou esta flor do seu cansaço... 
Mas que o dia amanheça
E cubra de poesia o seu regaço!


Autor : Miguel Torga
in 'Diário (1946)'

sábado, 22 de abril de 2017

Súplica

Rosanne Pormerleau
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Autor : Miguel Torga

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ajuda

dara scully
Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!

Autor : Miguel Torga
in 'Diário (1945)'

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Dies Irae

Leslie Ann O'Dell
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Autor : Miguel Torga
in 'Cântico do Homem'