quinta-feira, 30 de novembro de 2017

interiores


Ionut Caras

chove na manhã de todos os silêncios
iluminada pela bruma que penetra
a janela
a casa é um santuário no recolhimento temporário
o cão presente olha para mim
sentado, à espera da habitual refeição
mas é ainda tão cedo
e, não fora ele, a realidade escapava-se da minha mão
assim, o dia acordou
os pássaros voam e chilram
as goteiras dos beirais e varandas
produzem a música
e o isolamento acabou.
ah! guardei o beijo matinal
recebido
habitual
com que o dia começa
sempre diferente
sempre igual.

Autor : LuísM Castanheira

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Sonhe e seja o que você quiser


Sonhe com o que você quiser.
vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
…e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.


Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Ausência

Karen Hollingsworth


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Autor: Carlos Drummond de Andrade

domingo, 26 de novembro de 2017

Choveu



Gustav Klimt

Choveu
pouco, quase nada
mas a água molhou a praça
e os abrigos gotejaram
pouco, muito pouco.

Choveu
em Novembro de há tantos anos
e na lembrança que tenho
era apenas  uma canção
e o teu primeiro choro de bebé.

Autor : BeatriceM

sábado, 25 de novembro de 2017

Vontade

Elizabeth Gadd

Despida de roupa
e de falsidade
quero a nudez pura
na plenitude da tua pele
acesa
Quero-te assim
iluminada e tensa
como quem pensa
que me pode perder
e só me tem a mim

Autor : Edgardo Xavier

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

De que serviu ir correr mundo,

Anka Zhuravleva
De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

Autor : MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
In Nenhum nome depois
(2004)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Saber

Kyle Thompson

O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade.

Autor : Agostinho da Silva

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

...

Ildiko Neer

Perder, dói! Não adianta dizer não sofra, não chore; só não podemos ficar parados no tempo chorando nossa dor diante das nossas perdas.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 21 de novembro de 2017

todas as aves





Surreal Photo-Manipulations by Norvz Austria

Das árvores despidas outras o não ficam
e essas também gritam
gritam no poema, quase dor
na ausência da chuva ou do amor
das que (a)guardam as palavras
neste outonal calor.

Abro a janela e espreito a madrugada
e o frio choca com o poema, na chegada
só aí, desperta a alvorada.

- todas as aves ficam presas à minha mão...!

Autor : LuisMCastanheira

domingo, 19 de novembro de 2017

Ao lado da chuva e de mim

Impassível,
a cidade,
abandono-me com a ansiedade,
que abrigo neste deslumbramento de mim.

Pesa-me,
a chuva deste outono.
Agitam-se as memórias,
 que esfiapo.

E como se fizesse renda,
acolho sob o guarda-chuva,
fragmentos de nós.
.
Autor: BeatriceMar 2013-17-11


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Em uma tarde de Outono

Elizabeth Gadd
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Autor : Olavo Bilac
in "Poesias"

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Garras dos Sentidos

Anna Razumovskaya´

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Autor Agustina  Bessa-Luís
In Garra dos Sentidos 98

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

mesmo que o silêncio...


 Leszek Paradowski


mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras

vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas

          Autor: Carlos Nogueira Fino

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ilha




Photo by Leszek Paradowski

Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho

Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta

és um barco vazio
que me arrasta

Autor : Mafalda Veiga