sábado, 30 de setembro de 2017

Billhete

Montserrat Gudiol

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Autor : Mário Quintana

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Uma mulher

Luigi Amato
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora. 

Autor: Bruna Lombardi

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O mar já não era para mim suficiente.


O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Por que me falas nesse idioma?

Alex Colville
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando. 
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Autor :Cecília Meireles

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Uma prosa sobre os gatos


Ildiko Neer

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa
.
Autor : Manuel António Pina

domingo, 24 de setembro de 2017

a memória


a memória  está quase sempre numa espécie de hibernação,
por vezes  só basta um simples odor,
e  tudo entra em efervescência.
.
Autor : BeatriceM
reeditado
1ªpublicação em 2014/06/19

sábado, 23 de setembro de 2017

Do lado do silêncio


çoçuk ağzından nefes alıyorsa

Gosto de espreitar o teu sono de criança, à noite, quando dormes alheio a tudo, e eu fico a ouvir a tua respiração a alisar os teus cabelos. Às vezes, chego a pensar que é um desperdício ir dormir, em lugar de ficar a ver-te dormir, porque o tempo voa e em breve já não será criança. Nestas noites, como diz a lei, tenho-te à minha «guarda», o que é prazer insubstituível e a que alguns chamam direitos e outros deveres.
Gosto de acordar de manhã, quando, ainda antes do despertador tocar, oiço o som do Canal Panda na sala, e fico a saber que tu já acordaste e que segues à risca o ritual estabelecido, e a que a seguir irás fazer o teu pequeno almoço e vestires-te para a escola. Mas, apesar disso, gosto de te recomendar que faças tudo isso e não te esqueças de lavar os dentes, sabendo que não te esqueces mas também gostas de ouvir-me dizer-to, porque essa é a forma de saberes que te «guardo».
Saímos de casa deixando para trás o desalinho do teu quarto, a desarrumação vivida das tuas coisas, esses sinais indesmentíveis da tua presença, sem os quais a casa não faz sentido e o silêncio pesa como dor escondida. És sempre tu quem carrega no botão do elevador, quem acende as luzes da garagem, numa atenção emergente para a rotina das coisas, que é forma como vais entrando na manhã. E segues num silêncio atento no banco de trás do carro, que interrompes às vezes com alguma pergunta que te ocorre de repente. Vais chegado para a frente, uma mão pousada nas costas do meu banco, como se quisesses prolongar os últimos instantes de proximidade física. Infelizmente, é tão curto o trajecto, que chego a desejar uma camioneta a descarregar na rua que nos atrase uns minutos antes que a manhã nos separe. E embora eu saiba que não há carros à vista quando tu atravessas a rua para a porta da escola, vou contigo de mão dada, para que sintas ou para que eu finja para comigo que continuo a guardar-te até que a porta nos separe e outros fiquem contigo.
Porque há sempre uma porta que se fecha e que nos separa, ao contrário da casa, onde a porta do teu quarto e a do meu estão sempre abertas. Há sempre esta porta que se fecha sobre ti, outros que te falam e te escutam, enquanto eu caminho na tua ausência e na lembrança da tua voz, outros que sabem de ti o que eu ignoro, outros que por vezes se cansam de ti enquanto eu só te espero, outros que te vêem e te tocam enquanto eu olho as tuas fotos espelhadas pela minha vida. Tão perto e tão longe de ti. Tão fundo e tão ausente. Tantas esperanças, tantos projectos, tantos planos. Tantos enganos. Tantos anos, Tantos danos.
Fecho os olhos e sonho. Tu caminhas comigo, de mão dada, num campo onde não há mais ninguém, e procuramos musgo e pinhas.
Há uma gruta num pequeno bosque de que eu finjo não conseguir encontrar a entrada sem ti. É o nosso segredo e lá estamos protegidos do mundo e dos seus males e perigos. Entro por aí contigo. Adormeço e para sempre viverei contigo nesta gruta. E és tu então que me proteges.
( A todos os pais que não se demitiram de o ser e que gostariam de acordar todas as manhãs com os seus filhos e vê-lo adormecer todas as noites e não podem. A todos os machos-homens, vagueando por casas vazias sem ninguém a quem guardar, sem ninguém a queproteger, sem função útil, nestes tempos em que não há tempo a perder. E escrito em mais um Dia Internacional da Mulher, com o seu coro de lamentações e homenagens à mulher e «à sua tripla função de mãe-trabalhadora-dona-de-casa», face à cada vez mais evidente inutilidade social dos homens).
.
Autor:Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Tu e o mar



Tu e o mar, para mim são um todo, um só objecto, o do meu papel nesta aventura. Também eu olho para o mar. Tens de olhar como eu, como eu olho, o mais que posso, em vez de ti.

Autor:Marguerite Duras

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Retrato de amigo

norvhic fernandez austria

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Autor :José Carlos  Ary dos Santos
in 'Fotosgrafias'

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Paz

Anka Zhuravleva

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

Autor : Natália Correia
in "Poemas (1955)"

terça-feira, 19 de setembro de 2017

..

Ildiko Neer

Promessa de uma noite
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

Autor : © Mia Couto
In Raiz de Orvalho e Outros Poemas, 1999

domingo, 17 de setembro de 2017

Tu eras um sonho

Cristina Fornareli

Tu eras um sonho
translúcido
 na realidade da vida
(a minha).

Tu eras a imagem
idolatrada
o ícone
sem ser no altar
da basílica da estrela.

Tu eras
a aragem em tempo de canícula
o mar em pleno verão
a chuva do inverno
o sol na pele.

Eras …
Tudo isso…ou apenas o sonho.
que o tempo apagou
e tantas cicatrizes deixou.

Autor: BeatriceM

sábado, 16 de setembro de 2017

Estranho é o sono que não te devolve

ildiko neer

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Autor : Daniel Faria
in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tempo

Achraf Baznani

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo tira apenas o incurável do centro das atenções.

Autor : Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como eu queria

AnkaZhuravleva

Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.

Autor : José Gabriel Duarte

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Solidão

Victor Bauer

Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Antes que Seja Tarde

tommy ingeberg

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Autor : Manuel da Fonseca
in "Poemas Dispersos"

domingo, 10 de setembro de 2017

eco

Elena "Kassandra" Vizerskaya
.
antevejo em mim,
o eco do que queria ouvir,
escuto, os peixes no aquário,
como se falassem da cor,
dos teus olhos,
e sinto o teu olhar,
preso numa asa de um
pássaro que esvoaça por cima do mar.
.
Autor :BeatriceM
05-10-2014
reeditado

sábado, 9 de setembro de 2017

Vou sobre o Oceano



Vou sobre o Oceano (o luar de doce enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras de Pátria somem-se na treva,
águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
lembra meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
na minha Nau Catrineta, adeus!

Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
sobe depressa à gávea, Marinheiro,
e grita, França! pelo amor de Deus!

Autor : António Nobre

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Porque não cai a noite de uma vez?!

Ildiko Neer

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Autor : Maria Alberta Meneres

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Se o tempo

Frank Wilcok 

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Autor : Albano Martins

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Que é voar?


Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Autor : Ana Hatherly

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Secreta Viagem


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

Autor : David Mourão-Ferreira

in Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.

domingo, 3 de setembro de 2017

fragmentos


deixa ficar ... a lembrança das ternuras
mesmo que ténue
que o tempo não a leve de mim...
                                                                                         nem de nós....

Autor: BeatriceM

sábado, 2 de setembro de 2017

A casa

Katerina Plotnikova

A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.

Autor : ANTÓNIO RAMOS ROSA
In O Não e o Sim (1990)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Da terra


Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar ateia a margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, o oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
In as fábulas