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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

[para que serve o corpo senão / para amar outro corpo]

 

Queria copular-te de maneira inédita e original
beijar a rosa de maneira que o rosa, vermelho ficasse.
Beijar teus erectos seios de forma que o sangue dos lábios
se misturasse com o leite derramado da ausência,
quando as montanhas eram o lugar aprazível, onde
o verde e o ar se misturavam no puro movimento
com que as abelhas esvoaçam no teu ventre, e
colhiam o pólen da flor aberta a toda a abstracta claridade.
Queria dizer-te que o meu Sul é o teu Norte
e que navegássemos à deriva no mar encapelado
de meu corpo, pelos ventos que me sopras aos ouvidos,
como o Adamastor às naus do Gama, e depois, viesses
sereia: agrinaldar-me a fronte e cobrir-me a pele
com as algas mais doces e aromáticas do Sal, que penetrando
narinas dentro, inebriassem neste velho marinheiro
os sentidos que trouxera da velha pátria Lusitânia,
e náufrago, me agarrasse a teu corpo de alabastro.

Autor : ©Joaquim Monteiro
in À janela do teu corpo
Imagem : Nikolay Tikhomirov

sábado, 15 de janeiro de 2022

Labirinto ou Procura Iniciática

Natalia Drepina (@yourschizophrenia)

Tudo é labirinto e forma inútil
Vã glória e beleza efémera. 

Beijo a beijo, flor a flor,
Vão chegar os dias transparentes.
O ardor da casa pedra a pedra
Os degraus da sapiência transmutável
Com que os bosques guardam
As falas de antiquíssimos anéis.
 
Virão; estou convencido, novas melodias,
O silêncio cantado na pausa da escrita.
Novos rostos, novas mãos para afagar
O brilho das estrelas num inextinguível amor
Partilhado, na forma mais pura do voo,
No olhar mais cristalino de etérea profundidade.

Na noite a luz dos espelhos definem-te os contornos.
Mas, só as palavras sussurradas incendeiam a pele
E fazem da nascente o sortilégio de todos os desígnios. 

Autor : Joaquim Monteiro, in “À Janela do Teu Corpo”, página 102

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Lavro teu corpo




WhiteAlice


Lavro teu corpo d’Oiro
Com meu cinzel de lábios
Esculpo a mais serena manhã
Com a mais violenta tempestade
Se nocturna a minha sede se prolonga
E teu ventre d’Oiro se aparta de meus dedos.


Autor : Joaquim MONTEIRO
2014-12-29 (© todos os direitos reservados)