sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Tu e o mar



Tu e o mar, para mim são um todo, um só objecto, o do meu papel nesta aventura. Também eu olho para o mar. Tens de olhar como eu, como eu olho, o mais que posso, em vez de ti.

Autor:Marguerite Duras

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Retrato de amigo

norvhic fernandez austria

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Autor :José Carlos  Ary dos Santos
in 'Fotosgrafias'

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Paz

Anka Zhuravleva

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

Autor : Natália Correia
in "Poemas (1955)"

terça-feira, 19 de setembro de 2017

..

Ildiko Neer

Promessa de uma noite
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

Autor : © Mia Couto
In Raiz de Orvalho e Outros Poemas, 1999

domingo, 17 de setembro de 2017

Tu eras um sonho

Cristina Fornareli

Tu eras um sonho
translúcido
 na realidade da vida
(a minha).

Tu eras a imagem
idolatrada
o ícone
sem ser no altar
da basílica da estrela.

Tu eras
a aragem em tempo de canícula
o mar em pleno verão
a chuva do inverno
o sol na pele.

Eras …
Tudo isso…ou apenas o sonho.
que o tempo apagou
e tantas cicatrizes deixou.

Autor: BeatriceM

sábado, 16 de setembro de 2017

Estranho é o sono que não te devolve

ildiko neer

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Autor : Daniel Faria
in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tempo

Achraf Baznani

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo tira apenas o incurável do centro das atenções.

Autor : Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como eu queria

AnkaZhuravleva

Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.

Autor : José Gabriel Duarte

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Solidão

Victor Bauer

Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Antes que Seja Tarde

tommy ingeberg

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Autor : Manuel da Fonseca
in "Poemas Dispersos"

domingo, 10 de setembro de 2017

eco

Elena "Kassandra" Vizerskaya
.
antevejo em mim,
o eco do que queria ouvir,
escuto, os peixes no aquário,
como se falassem da cor,
dos teus olhos,
e sinto o teu olhar,
preso numa asa de um
pássaro que esvoaça por cima do mar.
.
Autor :BeatriceM
05-10-2014
reeditado

sábado, 9 de setembro de 2017

Vou sobre o Oceano



Vou sobre o Oceano (o luar de doce enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras de Pátria somem-se na treva,
águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
lembra meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
na minha Nau Catrineta, adeus!

Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
sobe depressa à gávea, Marinheiro,
e grita, França! pelo amor de Deus!

Autor : António Nobre

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Porque não cai a noite de uma vez?!

Ildiko Neer

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Autor : Maria Alberta Meneres

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Se o tempo

Frank Wilcok 

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Autor : Albano Martins

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Que é voar?


Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Autor : Ana Hatherly

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Secreta Viagem


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

Autor : David Mourão-Ferreira

in Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.

domingo, 3 de setembro de 2017

fragmentos


deixa ficar ... a lembrança das ternuras
mesmo que ténue
que o tempo não a leve de mim...
                                                                                         nem de nós....

Autor: BeatriceM

sábado, 2 de setembro de 2017

A casa

Katerina Plotnikova

A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.

Autor : ANTÓNIO RAMOS ROSA
In O Não e o Sim (1990)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Da terra


Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar ateia a margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, o oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
In as fábulas

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Kyrie

Saul Landell

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Autor : José Carlos Ary dos Santos
In Vinte anos de poesia

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um rio de luzes

Elizabeth Gadd

Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido

Autor : Ana Hatherly
in O Pavão Negro, 2003

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Poema

Trini Schultz

As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

Autor : António Ramos Rosa

domingo, 27 de agosto de 2017

Só hoje

Só hoje

deixa que acompanhe teu voo,
que seja a outra asa,
a outra margem.

que te ampare o voo,
que te sare a feridas,
que te beije a face.

e depois, vai
que o teu voo é longo,
e é apenas teu.

e será sempre assim,
sempre,
até que mais nada reste.

senão um adeus,
aquele adeus,
que será para sempre.

só hoje...amanhã,
não sei,
se estaremos aqui.

Autor : BeatriceM





Foto : Alex Colville

sábado, 26 de agosto de 2017

Algumas coisas

Natália Drepina

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Autor : Manuel António Pina
in Todas as palavras. Poesia reunida; ed. Assírio & Alvim, 2012

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Ecos

Eric Zener

Em voz alta, ensaiei o teu nome:
a palavra partiu-se
Nem eco ínfimo neste quarto
quase oco de mobília

Quase um tempo de vida a dormir
a teu lado e o desapego é isto:
um eco ausente, uma ausência de nome
a repetir-se

saber que nunca mais: reduzida
a um canto desta cama larga,
o calor sufocante

Em vez: o meu pé esquerdo
cruzado em lado esquerdo
nesta cama

O teu nome num chão
nem de saudades

Autor : Ana Luísa Amaral
in Se fosse um intervalo

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ainda às vezes


Avanço devagar, vão-se os amigos na ressaca
de cujo amor avanço assim deixando
ficar contudo aos poucos para trás, embora o mar
lhes sobre ainda às vezes do sorriso.

Procuro esses amigos. É possível
atar-lhes o horizonte entre o cabelo e acariciá-los
ainda uma vez mais. Fazer-lhes através
das mãos passar o sopro das pedreiras.

Autor : Luís Miguel Nava

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

...


Vincent Bourilhon
não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes

da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais

Autor : Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Gosto que gostes de ser viagem

Laura Lee Zanghett

Gosto de passear na tua sombra,
poder te ver, sem tu me veres,
de estar contigo, sem tu saberes,

Gosto de me esconder na tua ausência,
de ser teu sonho, sem me sonhares,
viveres comigo, sem o julgares,

Gosto de me enlear na tua teia,
de ser teu cúmplice, sem que me prendas,
ser teu escravo, sem que me vendas,

Gosto que gostes de ser viagem,
e ao me encontrares,
eu ser paragem…


Autor : José Gabriel Duarte

domingo, 20 de agosto de 2017

Destinos

Claude Raquet Hirst


Em todos os continentes
Os livros que lemos
Foram
E serão os nossos destinos


Em tantos livros te li
E em  tantos tu me leste

Autor : BeatriceM

sábado, 19 de agosto de 2017

Para ti

Stanislav Sidorov

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida

Autor:Mia Couto
Foto:Dorad

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A Bailarina

Pal Fried

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Autor : Cecília Meireles

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Certas palavras

Vincent Bourilhon

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.

Autor : Carlos Drummond de Andrade
in 'Boitempo'

Nota: Carlos Drumond de Andrade
 Brasil 31 Out 1902 // 17 Ago 1987 
Escritor/Poeta/Cronista

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

4

Fabrizia Milia
sei um jeito de te fazer ficar
murmuravas nas manhãs em que nascíamos
ávidos de nós
e éramos tão novos
e faltávamos às aulas

posso ter esquecido admito muita coisa
caminhos promessas lugares a cor
da saia que vestia no dia em que não voltei
muita coisa admito menos
a concha perfeita das tuas mãos sobre o meu peito
o cheiro das laranjeiras as cartas
em papel tão adolescente e azul
o esplendor de junho à mesa familiar
os espelhos garantindo-nos um lugar único na casa

posso ter esquecido admito muita coisa
menos os nossos corpos simultâneos
às portas do amor

no arco da minha pele que humidamente
se abria ao lume da tua língua

nessas manhãs em que jurámos
não morrer nunca

Autor : Alice Vieira
In Dois Corpos Tombando na água pág 23/24

terça-feira, 15 de agosto de 2017

entender os outros

Anna O. Photography

Entender os outros não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros. 

Autor : José Luís Peixoto
in 'Em Teu Ventre'

domingo, 13 de agosto de 2017

a dança


dançaremos ao sabor da música que pela noite,
vem sussurrar nos meus ouvidos,
não importa quando....nem onde.

Autor : BeatriceM

sábado, 12 de agosto de 2017

Nossa Memória


Nossa memória sempre foi a memória
dos monstros nosso enigmático testamento

de altas labaredas sempre foi
o caminho
devastado pelo sangue pela circuncisa memória
dos mortos pelo perfil
dos astros — nossa colorida volúpia
sempre foi dos monstros
a mais crua linguagem húmida fuga
desolada
através do tempo através do medo
de não sermos belos de não sabermos
esculpir na cinza o sopro
de tanta luz tão prostituída —

Autor:Casimiro de Brito, in "Negação da Morte"

Foto:Koval

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O Mapa







Um dia perguntou-me:

Estudaste os teus mapas?

Conheces os caminhos?

Olhei-a desconfiada e,

cheia de medo de me perder,

desenhei-me em quadrado,

desfiz-me em quilómetros. .
. .

Autor :Filipa Leal
Foto:paralajak

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Vi-te


Vi-te agora com estes olhos que nunca te tinham visto assim
Vi os teus olhos como nunca antes tinham sido vistos, não pude evitar afogar-me neles
Perder os sentidos em ti, mergulhar, cair dentro de ti.
Vejo-te como ninguém te pode ver.
Estás nua por dentro e por fora.
Despida de tudo entregue a este agora por mim criado, por mim terminado.
Estás pálida e frágil consumida pela verdade inabalável a que os meus olhos te submetem.
Não julgo. Olho apenas e és mais minha que nunca.
.
Autor:Pedro Barreiros
Foto: LeszeK

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Chove



Chove
Espalham-se pelo ar
Os murmúrios das gotas
Os seus gritos
Magoados quando tocam o chão

Caminho pelos campos
Desnuda
Sem cobertas que me prendam
Mas não me vergo ao tempo
Como os velhos
Nem às memórias há muito esquecidas
Não me vergo à solidão
Não me vergo ao vento
Que sopra palavras
Que não entendo
Vergo-me apenas ao seu peso

Envolvo-me na terra
Fundo-me com ela
Deixo-me abraçar
Como por um amante
E tudo se torna claro
Brilhante e leve.

Escuto o silêncio
Do aroma da terra molhada
Fecundada pela chuva que cai
Escuto o silêncio
Prenhe das cores de que a terra se cobre.

Ergo-me
Também eu prenhe de luz
Agora renascida
Purificada
Entendo
Os gritos
Os murmúrios
As palavras
Que se soltam de mim
As palavras
Agora leves
Que a terra me segredou.

E chove ainda.

Autora:Helena Domigues http://orionix.blogspot.com/
Foto:Anikot

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Do Outro Lado

Paul Kelley

Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes. 

Autor : Eugénio de Andrade
in 'Poesia e Prosa [1940-1980]'

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Um dia virá


Cristina Fornarelli

Um dia virá
em que a minha porta
permanecerá fechada
em que não atenderei o telefone
em que não perguntarei
se querem comer alguma coisa
em que não recomendarei
que levem os casacos
porque a noite se adivinha fresca.

Só nos meus versos poderão encontrar
a minha promessa de amor eterno.

Não chorem; eu não morri
apenas me embriaguei
de luz e de silêncio.

Autor : Rosa Lobato Faria
in A noite inteira já não chega-poesia-1983-2010 Guimarães Editora, 2012

sábado, 5 de agosto de 2017

...

Kiyo Murakami

Devia ser sábado, passava da meia-noite. Ele sorriu para mim. E perguntou:
- Você vai para a Liberdade?
- Não, eu vou para o Paraíso.
Ele sentou-se ao meu lado. E disse:
- Então eu vou com você.

Autor : Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

catrin welz stein artist

Como se nunca,
terrena e submissa,
recolhesse do amor
o fruto sazonado.

Como se os abraços
não fossem para
o homem e suas dores
acalanto e regaço

Como se não houvesse
riso e pranto
noite escura e dia
a canção e os mortos

Só. Como se o muro
surgisse inexplicável
e eu tivesse nascido
do outro lado.

Autor : Lara de Lemos
in 'Amálgama'

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Nirvana

Leah Johnston


Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Autor : Antero de Quental
in "Sonetos"

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

...

laura makabresku

A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Como um livro



Como um

livro
Folheei o
teu corpo como um livro
à procura da tua alma : encontrei-a no índice.
.
Autor:Albano Martins
Foto:Martim Dimitrov

domingo, 30 de julho de 2017

nem sempre as palavras

Pawel Kuczynski

nem sempre  as palavras,
são como a água que corre,
à procura da foz,
para se infiltrar no mar,

nem sempre conseguem destino certo,
algumas vezes -  muitas,
são apenas palavras,
que resvalam e encalham na memória,

e vão deixando cicatrizes que ninguém vê.


Autor : BeatriceM

sábado, 29 de julho de 2017

Poema Involuntário


Achraf Baznani,

Decididamente a palavra
quer entrar no poema e dispõe
com caligráfica raiva
do que o poeta no poema põe.

Entretanto o poema subsiste
informal em teus olhos talvez
mas perdido se em precisa palavra
significas o que vês.

Virtualmente teus cabelos sabem
se espalhando avencas no travesseiro
que se eu digo prodigiosos cabelos
as insólitas flores que se abrem
não têm sua cor nem seu cheiro.

Finalmente vejo-te e sei que o mar
o pinheiro a nuvem valem a pena
e é assim que sem poetizar
se faz a si mesmo o poema.

Autor : Natália Correia
in "O Vinho e a Lira"

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tempo

Victor Bauer
O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbedo de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.

Autor : Carlos de Oliveira
in 'Colheita Perdida'

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O tempo seca o amor

Nadja Berberovic

O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Autor : Cecília Meireles

in 'Retrato Natural'