domingo, 19 de novembro de 2017

Ao lado da chuva e de mim

Impassível,
a cidade,
abandono-me com a ansiedade,
que abrigo neste deslumbramento de mim.

Pesa-me,
a chuva deste outono.
Agitam-se as memórias,
 que esfiapo.

E como se fizesse renda,
acolho sob o guarda-chuva,
fragmentos de nós.
.
Autor: BeatriceMar 2013-17-11


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Em uma tarde de Outono

Elizabeth Gadd
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Autor : Olavo Bilac
in "Poesias"

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Garras dos Sentidos

Anna Razumovskaya´

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Autor Augustina  Bessa-Luís
In Garra dos Sentidos 98

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

mesmo que o silêncio...


 Leszek Paradowski


mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras

vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas

          Autor: Carlos Nogueira Fino

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ilha




Photo by Leszek Paradowski

Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho

Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta

és um barco vazio
que me arrasta

Autor : Mafalda Veiga

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cantares

leszek bujnowski

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

Autor : António Machado

domingo, 22 de outubro de 2017

herança

Deixaste-me tudo o que podias
E foi tão pouco
Tão pouco


Quase nada

Nada
Ou quase tudo

.Quando ainda me lembro
Ainda sinto a tua pele
Em mim


E procuro na noite
O teu beijo
Perdido por aí...

..

Autor :BeatriceM (reeditado)
Foto: Żaba-Ewa

sábado, 21 de outubro de 2017

Dois rios

Elizabet Gadd

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luis Miguel Nava

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Prazo de vida

Olga Astratova
No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

Cecília Meireles
in 'Mar Absoluto'

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ver e não ver


Idilko Neer

Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação, ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão porque naturalmente, e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas, porque as vemos: e não vemos essas mesmas coisas, porque as vemos divertidos. 

Autor : Padre António Vieira
in "Sermões"

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Terror de te amar

Ana Razumovskaya

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in “Obra Poética”

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Praia

Laura Lee Zanghett

Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar

teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas

braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu

e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

domingo, 15 de outubro de 2017

Partilha

Vera Rockline

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor: BeatriceM 2011-03-06
(reeditado)

sábado, 14 de outubro de 2017

De Longe

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

..

Lindsey Kustsuch
Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo que parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

Autor : Alice Alves
in O que doí às aves

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

....

Ionut Caras

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.
.
Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.
.
Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.

Autor : Mia Couto
in Idades Cidades Divindades

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O Amor

Cristina Fornarelli

Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei

Autor Sophia e Mello Breyner Andresen
in O Cristo Cigano

terça-feira, 10 de outubro de 2017

...umas vezes falavas-me dos rios

Escha Van den Bogerd
umas vezes falavas-me dos rios
e densas cicatrizes
e o sangue
procedia

outras vezes velava-te uma lâmpada
de faias e de enigmas
e a sombra
repousava

outras vezes o barro
originava
uma erupção de insónia recidiva
no gume do incêndio onde jazias

nessas vezes a água do teu riso
abria nos meus pulsos uma rosa
e eu entontecia

              Autor : Carlos Nogueira Fino

domingo, 8 de outubro de 2017

esquece


esquece os dias antes e depois de nós,
mas não esqueças o meu nome.

não digas que não sabes de mim,
não negues as noites que foram nossas.

muita coisa podes não querer  lembrar,
mas um corpo nunca se esquece.

Autor : BeatriceMar
26-05-2013
(reeditado)

sábado, 7 de outubro de 2017

Quase de nada místico

Paul Fried

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.

Autor : Ana Luísa Amaral
in às vezes o Paraíso

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Completas

Ildiko Neer

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Autor  : Manuel António Pina
in “Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pacto


Istvan Sandorfi

entre o teu signo e o meu
existe uma possibilidade
de veneno
umas tintas de vermelho
meu moreno

e se a paixão há de ser provisória
que seja louca e linda
a nossa história.

Autor : Bruna Lombardi

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Viagem

Paul Kelley

É o vento que me leva
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar…

Autor: Miguel Torga

terça-feira, 3 de outubro de 2017

De Amor nada mais resta que um Outubro


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Autor : Natália Correia
in “Poesia Completa”

sábado, 30 de setembro de 2017

Billhete

Montserrat Gudiol

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Autor : Mário Quintana

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Uma mulher

Luigi Amato
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela

a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca

uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora

o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora. 

Autor: Bruna Lombardi

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O mar já não era para mim suficiente.


O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Por que me falas nesse idioma?

Alex Colville
Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando. 
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Autor :Cecília Meireles

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Uma prosa sobre os gatos


Ildiko Neer

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa
.
Autor : Manuel António Pina

domingo, 24 de setembro de 2017

a memória


a memória  está quase sempre numa espécie de hibernação,
por vezes  só basta um simples odor,
e  tudo entra em efervescência.
.
Autor : BeatriceM
reeditado
1ªpublicação em 2014/06/19

sábado, 23 de setembro de 2017

Do lado do silêncio


çoçuk ağzından nefes alıyorsa

Gosto de espreitar o teu sono de criança, à noite, quando dormes alheio a tudo, e eu fico a ouvir a tua respiração a alisar os teus cabelos. Às vezes, chego a pensar que é um desperdício ir dormir, em lugar de ficar a ver-te dormir, porque o tempo voa e em breve já não será criança. Nestas noites, como diz a lei, tenho-te à minha «guarda», o que é prazer insubstituível e a que alguns chamam direitos e outros deveres.
Gosto de acordar de manhã, quando, ainda antes do despertador tocar, oiço o som do Canal Panda na sala, e fico a saber que tu já acordaste e que segues à risca o ritual estabelecido, e a que a seguir irás fazer o teu pequeno almoço e vestires-te para a escola. Mas, apesar disso, gosto de te recomendar que faças tudo isso e não te esqueças de lavar os dentes, sabendo que não te esqueces mas também gostas de ouvir-me dizer-to, porque essa é a forma de saberes que te «guardo».
Saímos de casa deixando para trás o desalinho do teu quarto, a desarrumação vivida das tuas coisas, esses sinais indesmentíveis da tua presença, sem os quais a casa não faz sentido e o silêncio pesa como dor escondida. És sempre tu quem carrega no botão do elevador, quem acende as luzes da garagem, numa atenção emergente para a rotina das coisas, que é forma como vais entrando na manhã. E segues num silêncio atento no banco de trás do carro, que interrompes às vezes com alguma pergunta que te ocorre de repente. Vais chegado para a frente, uma mão pousada nas costas do meu banco, como se quisesses prolongar os últimos instantes de proximidade física. Infelizmente, é tão curto o trajecto, que chego a desejar uma camioneta a descarregar na rua que nos atrase uns minutos antes que a manhã nos separe. E embora eu saiba que não há carros à vista quando tu atravessas a rua para a porta da escola, vou contigo de mão dada, para que sintas ou para que eu finja para comigo que continuo a guardar-te até que a porta nos separe e outros fiquem contigo.
Porque há sempre uma porta que se fecha e que nos separa, ao contrário da casa, onde a porta do teu quarto e a do meu estão sempre abertas. Há sempre esta porta que se fecha sobre ti, outros que te falam e te escutam, enquanto eu caminho na tua ausência e na lembrança da tua voz, outros que sabem de ti o que eu ignoro, outros que por vezes se cansam de ti enquanto eu só te espero, outros que te vêem e te tocam enquanto eu olho as tuas fotos espelhadas pela minha vida. Tão perto e tão longe de ti. Tão fundo e tão ausente. Tantas esperanças, tantos projectos, tantos planos. Tantos enganos. Tantos anos, Tantos danos.
Fecho os olhos e sonho. Tu caminhas comigo, de mão dada, num campo onde não há mais ninguém, e procuramos musgo e pinhas.
Há uma gruta num pequeno bosque de que eu finjo não conseguir encontrar a entrada sem ti. É o nosso segredo e lá estamos protegidos do mundo e dos seus males e perigos. Entro por aí contigo. Adormeço e para sempre viverei contigo nesta gruta. E és tu então que me proteges.
( A todos os pais que não se demitiram de o ser e que gostariam de acordar todas as manhãs com os seus filhos e vê-lo adormecer todas as noites e não podem. A todos os machos-homens, vagueando por casas vazias sem ninguém a quem guardar, sem ninguém a queproteger, sem função útil, nestes tempos em que não há tempo a perder. E escrito em mais um Dia Internacional da Mulher, com o seu coro de lamentações e homenagens à mulher e «à sua tripla função de mãe-trabalhadora-dona-de-casa», face à cada vez mais evidente inutilidade social dos homens).
.
Autor:Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Tu e o mar



Tu e o mar, para mim são um todo, um só objecto, o do meu papel nesta aventura. Também eu olho para o mar. Tens de olhar como eu, como eu olho, o mais que posso, em vez de ti.

Autor:Marguerite Duras

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Retrato de amigo

norvhic fernandez austria

Por ti falo. E ninguém sabe. Mas eu digo
meu irmão minha amêndoa meu amigo
meu tropel de ternura minha casa
meu jardim de carência minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo
um caminho de nardos empestados
uma intensa e terrífica ternura
rodeado de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo minha essência
meu lume minha lava meu labéu
como é possível não chegar ao cume
de tão lavado céu?

Autor :José Carlos  Ary dos Santos
in 'Fotosgrafias'

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Paz

Anka Zhuravleva

Irreprimível natureza
exacta medida do sem-fim
não atinjas outras distâncias
que existem dentro de mim.

Que os meus outros rostos não sejam
o instável pretexto da minha essência.
Possam meus rios confluir
para o mar duma só consciência.

Quero que suba à minha fronte
a serenidade desta condição:
harmonia exterior à estátua
que sabe que não tem coração.

Autor : Natália Correia
in "Poemas (1955)"

terça-feira, 19 de setembro de 2017

..

Ildiko Neer

Promessa de uma noite
cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

Autor : © Mia Couto
In Raiz de Orvalho e Outros Poemas, 1999

domingo, 17 de setembro de 2017

Tu eras um sonho

Cristina Fornareli

Tu eras um sonho
translúcido
 na realidade da vida
(a minha).

Tu eras a imagem
idolatrada
o ícone
sem ser no altar
da basílica da estrela.

Tu eras
a aragem em tempo de canícula
o mar em pleno verão
a chuva do inverno
o sol na pele.

Eras …
Tudo isso…ou apenas o sonho.
que o tempo apagou
e tantas cicatrizes deixou.

Autor: BeatriceM

sábado, 16 de setembro de 2017

Estranho é o sono que não te devolve

ildiko neer

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

Autor : Daniel Faria
in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Tempo

Achraf Baznani

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo tira apenas o incurável do centro das atenções.

Autor : Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como eu queria

AnkaZhuravleva

Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.

Autor : José Gabriel Duarte

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Solidão

Victor Bauer

Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Antes que Seja Tarde

tommy ingeberg

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Autor : Manuel da Fonseca
in "Poemas Dispersos"

domingo, 10 de setembro de 2017

eco

Elena "Kassandra" Vizerskaya
.
antevejo em mim,
o eco do que queria ouvir,
escuto, os peixes no aquário,
como se falassem da cor,
dos teus olhos,
e sinto o teu olhar,
preso numa asa de um
pássaro que esvoaça por cima do mar.
.
Autor :BeatriceM
05-10-2014
reeditado

sábado, 9 de setembro de 2017

Vou sobre o Oceano



Vou sobre o Oceano (o luar de doce enleva!)
Por este mar de Glória, em plena paz.
Terras de Pátria somem-se na treva,
águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o Vapor, quando se eleva,
lembra meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
na minha Nau Catrineta, adeus!

Paquete, meu Paquete, anda ligeiro,
sobe depressa à gávea, Marinheiro,
e grita, França! pelo amor de Deus!

Autor : António Nobre

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Porque não cai a noite de uma vez?!

Ildiko Neer

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Autor : Maria Alberta Meneres

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Se o tempo

Frank Wilcok 

Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.

Autor : Albano Martins

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Que é voar?


Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo, os pés?
Isso é que é voar?
Não.

Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência.
E isso é voar?
Não.

Voar é humano
é transitório, momentâneo…
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.

Autor : Ana Hatherly

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Secreta Viagem


No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada…
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa…
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos…
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa…

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem…
Aonde iremos ter? – Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa… alheio aos meus sentidos.
– Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

Autor : David Mourão-Ferreira

in Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.

domingo, 3 de setembro de 2017

fragmentos


deixa ficar ... a lembrança das ternuras
mesmo que ténue
que o tempo não a leve de mim...
                                                                                         nem de nós....

Autor: BeatriceM

sábado, 2 de setembro de 2017

A casa

Katerina Plotnikova

A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.

Autor : ANTÓNIO RAMOS ROSA
In O Não e o Sim (1990)

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Da terra


Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar ateia a margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, o oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

Autor : Fiama Hasse Pais Brandão
In as fábulas