quarta-feira, 26 de julho de 2017

O céu

Assoam-se-me à alma, quem
como eu traz desfraldado o coração sabe o que querem
dizer estas palavras.
A pele serve de céu ao coração.


.
Autor:Luís Miguel Nava
Foto:Keray Ceroz

terça-feira, 25 de julho de 2017

Um dia

Laura Lee Zanghett

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Autor :Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 24 de julho de 2017

ínfima partícula

Laura Makabresku

sou um rio no desejo
do teu olhar
e nos teus lábios
perco o chão
de tanto mar.

Autor : LuísM Castanheira
https://poesiaaremar.blogspot.pt/

domingo, 23 de julho de 2017

domingo, 9 de julho de 2017

com a minha mão na tua


Que hoje , os espelhos não sejam o reflexo,
da minha alegria,
porque o reflexo não pode,
ser,
apenas o reflexo dum sentir,
mas apenas o âmago do porvir.

Hoje não dou conta de coisa nenhuma,
e não assumo responsabilidades,
sobre nada,
nem sequer sobre mim.

BeatriceMar 2014-07-10
(reeditado)

sábado, 1 de julho de 2017

Foram pétalas


Oleg Oprisco

Foram pétalas
Ou olhos de deusas
Que calquei?

Não,
Não me digam

Eu sei
Que foram Sonhos

Autor : Daniel Faria
In “Poesia”

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Das palavras

Pawel Kuczynski

Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!

Autor : Alice Queiroz
In Jardim de Afectos

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Estigma

Trini Schultz

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

Autor : José Carlos Ary dos Santos

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Agnieska Motyka


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Livro Sexto'

terça-feira, 27 de junho de 2017

Poesia Depois da Chuva

       Laura Lee Zanghetti
 A Maria Guiomar 
Depois da chuva o Sol - a graça. 
Oh! a terra molhada iluminada! 
E os regos de água atravessando a praça 
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer. 
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. 
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça. 

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar. 

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado 
antes do Sol, não duvidava agora.) 
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual 
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. 
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... 
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...) 

Autor : Sebastião da Gama
in 'Pelo Sonho é que Vamos'

sábado, 24 de junho de 2017

É isto o Amor

Montserrat Gudiol

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Autor : Nuno Júdice
in 'Pedro, Lembrando Inês'

sexta-feira, 23 de junho de 2017

São horas de voltar

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Autor: Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O silêncio só raramente é vazio

Neil Driver

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

Autor : José Tolentino Mendonça

quarta-feira, 21 de junho de 2017

...

Liat Aharoni


Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim, e passa
sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.
Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta
entre ti e mim, e está comigo.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 20 de junho de 2017

um dia

Victor Bauer Art

um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo

lá fora o meu desejo assassina o mundo
a noite não existe porque a deixaste
no movimento de pedra dos meus braços

daqui onde estou quem te era
não se vê nada do amor

Autor:Pedro Sena-Lino
zona de perda livro de albas
objecto cardíaco, 2006


sábado, 17 de junho de 2017

Serenata

Maja Tocagic

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo.

Autor : Cecília Meireles

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Homem

tommy ingberg

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

Autor : António Gedeão
in 'Movimento Perpétuo'

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Carta

Bryan Larsen
Amor:
Ensina-me o tempo que passa devagar
a festa, o canto e o riso


Embala-me
até me dissolver no teu abraço
como se só houvesse este momento
em todos os momentos que hão de vir

E dá-me as tuas mãos e o teu corpo
para sentirmos de novo
a fome e a ânsia de nos termos

Ensina-me a vida
e o espanto, encanto do começo
e deixa-me o gosto de te amar.

Autor : Angela Leite

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Postal

Saul Landell

Chovem pais e filhos sobre os campos,
terrenos de árvores húmidas, outono.
Os pais tentam sempre proteger os filhos,
essa é a natureza que corre nas árvores,
essa é a lei e esse é o sentido. É outono
e não poderia ser outra estação, começou
o frio e a fome, olho a força dos campos
pela janela submersa deste último outono
e compreendo por fim a minha idade:
chovem pais e filhos de mãos dadas.
Lá longe, sou pai. Lá longe, sou filho.

Autor : José Luís Peixoto
In Gaveta de Papéis

domingo, 11 de junho de 2017

e ficou somente,

paolo barzman

apenas um rasto de nada
depois o tempo
o calor a abrasar a tarde
o corpo lasso
a memória difusa
o reflexo ao fim da curva
as mãos escondidas
a melancolia despida,

e no fim da curva
um reflexo…os faróis a alumiar a rua.

Autor : BeatriceM

sábado, 10 de junho de 2017

Jogo

SONJA HESSLOW

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
 como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

Autor : Nuno Júdice
in "A Fonte da Vida"

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Razão inversa


Claude Raguet Hirs
Dispersa,
Imersa
em meu eu,
sou o adverso
de mim mesma.


Torno
meu universo
controverso
amando as rimas
e versos,
e
em paralelas
vou criando
um ângulo
transverso,
de fugas
e medos.

crio um
novo "segredo"
viro a vida
num novo enredo
que é
pra poder
sobreviver...
Autor : joanna.franko

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Forma de inocência

Liat Aharoni

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.

Autor : António Gedeão

quarta-feira, 7 de junho de 2017

...

Este foi o nosso último abraço.
E quando,daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje nãodaremos.
E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
.
Autor:Maria do Rosário Pedreira
Foto:Kaunau

terça-feira, 6 de junho de 2017

Aos Amigos

Achraf Baznani

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Autor : Herberto Helder
In Ofício Cantante

domingo, 4 de junho de 2017

apenas questionar

George Christakis

de que nos servem os louros
os adereços
o supérfluo

no final da peça
e com a pano corrido
somos todos autómatos

paradoxalmente
ninguém sabe para onde vai
nem de onde vem.

Autor : BeatriceM

sábado, 3 de junho de 2017

...

Maja Topcagic
silêncio
um vazio interno
intenso
Minha verdade
sem futuro
sem meio
sem direção
tem apenas
um eco ensurdecedor
do nada.

Autor : joanna.franko

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Cinzas de Sísifo

Armando da Silva Carvalho
Óbidos. 28 de Março de 1938
Caldas da Rainha 01 de Junho de 2017

Eu vi o sobressalto.
Nesse bosque de lâminas e luvas
tocaste cada coisa como
um grito.

E amaste a minha boca
como quem corta
os pulsos ao silêncio.

Se o vento te derrama
entre folhas e cinza
é sempre a mesma voz que não perdoa

a mesma lei

o mesmo labirinto.

Autor : Armando da Silva Carvalho

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Em Louvor das Crianças

Gustav Klimt
Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Autor : Eugénio de Andrade
in 'Rosto Precário' 

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Etapas

omar ortiz

Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Autor : Glória de Sant’Anna
in ‘Poemas do Tempo Agreste

terça-feira, 30 de maio de 2017

Etapas

George Christakis

Não te detenhas nos corredores sombrios,
são apenas etapas que importa ultrapassar.
De qualquer modo, não passam de episódios
e têm forçosamente um fim.

Os precipícios só existem
na cabeça de quem os inventa.

Nunca cedas ao medo das viagens longas,
de que a vida também se faz.

Na primeira carruagem dos comboios nocturnos
viaja sempre a madrugada.

Quando o sol te acordar, verás que o pesadelo
não passou disso mesmo, um pesadelo.

Autor : Torquato da Luz

domingo, 28 de maio de 2017

é tão tarde....

Maja Topcagic photography

e ainda me falta aprender tanta coisa
e não tenho mais tempo
é tarde, tão inevitavelmente tarde.

tudo o que podia dar, já dei
não custou muito,
apenas pouco, muito pouco.

os meus livros,
isso custou,
foram pedaços de mim.

fiquei com as minhas dores
os meus falhanços
os meus sentires.

fiquei com a janela sem cortinas
para melhor ver a praça
e o mar.

sou livre, não tenho bens
não preciso de testamento…

Autor : BeatriceM

sábado, 27 de maio de 2017

Lançamento



Obra poética inspirada nas mulheres retratadas pelo célebre pintor italiano Amadeo Modigliani.
Apresentação da obra pela poeta Catarina Nunes de Almeida


Já não possuo a voz de outrora,
quando repartir o pão
era um gesto maternal
e os filhos me pediam os olhos
para poderem adormecer.

Com os pulsos abertos
a qualquer aflição
manejo, como sei,
o sulco invisível da luz.

E sei-me rodeada por um rio
gemido até à secura.

Mulher com camisola preta, p. 18

--

Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Obras publicados
Poemas. Lisboa: Vega, 1990
Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013
Espaço livre com barcos. Poética Edições, 2014
Uma claridade que cega, Poética Edições, 2015

Prémios recebidos:
Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

laços


Andei a vida toda atrás do teu abraço
Sem saber que todos os caminhos
percorridos
Eram destino do nosso enlaço.

E os desenlaços meus
nunca foram (os) teus.

Autor : LuísM
https://alemabarca.blogspot.pt/

quinta-feira, 25 de maio de 2017

...

Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.

Autor : Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 24 de maio de 2017

De nós em limite

ofra amit

Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura

No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite

Autor : Manuela Amaral

terça-feira, 23 de maio de 2017

(Poema 6 do Ciclo Elementos)

Maja Topcagic

O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.

Autor :  Victor Oliveira Mateus. Gente Dois Reinos
 Fafe: Editora Labirinto, 2013
 p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
.
.

sábado, 20 de maio de 2017

Amor

Omar Ortiz


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Já não vivo, só penso

Victor Bauer

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lançamentos

Apresentação da obra por
Luís Filipe Sarmento e Isabel Mendes Ferreira


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Desnascer do tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Poema Líquido, p. 30


Manuel Veiga Nasceu em, Matela, Vimioso (Trás-os-Montes), e vive em Bobadela, concelho de Loures. É licenciado em Direito tendo exercido advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e mais tarde como Inspector Superior da Inspecção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respectivo Gabinete Jurídico. 
Entretanto, havia sido redactor de noticiários da Emissora Nacional e Copywriter de publicidade. Colaborou esporadicamente na imprensa diária, designadamente, no “Diário de Lisboa” e em “O Diário”, e regularmente em revistas periódicas sobre temas de natureza política, económica e social, designadamente, a revista “Economia EC”, a revista “Poder Local”, e a revista “SEARA NOVA”, integrando presentemente o Conselho Redactorial desta última. 
Para além da obra agora dado à estampa pela Poética, é também autor das obras “Poemas Cativos” (poesia, Poética Edições, 2014), “Notícias de Babilónia e outras Metáforas” (crónicas, Modocromia, 2015) e “Do esplendor das coisas possíveis” (poesia, Poética Edições, 2016).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia

terça-feira, 16 de maio de 2017

Chove

Emerico Toth

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Autor : José Gomes Ferreira

domingo, 14 de maio de 2017

casualidades

Oleg Oprisco

desviados da rotina,
submersos em cascatas de emoções acabadas
cruzaram-se, acidentalmente,

cruzaram-se numa esquina da vida,
quando fugiam de tudo e todos,
quando andavam por aí invisíveis,

olhares trocados,
sorrisos cúmplices,
e corpos partilhados,

e seguiram caminhos contraditos
fugiram, e a ausência
macerou a saudade compartilhada,

aos poucos, e levemente
criou uma auréola num acaso que
merece sempre ser revivido.

Autor : BeatriceM

sábado, 13 de maio de 2017

Os amigos


norvz austria

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Autor : José Tolentino Mendonça
In : De Igual Para Igual

sexta-feira, 12 de maio de 2017

As tuas mãos

omar ortiz
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim…

Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!...
- Mãos de doente,
mãos de asceta…
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta…

Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!

Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
… E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
- as minhas mãos de mulher!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheço o Sal


Kevin Pinardy

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Autor : Jorge de Sena

quarta-feira, 10 de maio de 2017

As Mães

Gustav Klimt

as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa
de onde nunca partimos

as mães são eternas
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meu País Desgraçado

Almada Negreiros
Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Autor : Sebastião da Gama
in 'Cabo da Boa Esperança'

domingo, 7 de maio de 2017

certezas

Leah Jonhnston

já não te tenho, e
nem te perdi, deambulando pelo meu corpo
ainda retenho,
o teu odor em mim…

Autor : BeatriceM

sábado, 6 de maio de 2017

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

mariska karto

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Autor : António Lobo Antunes
in "Diário de Notícias (2004)"