domingo, 28 de maio de 2017

é tão tarde....

Maja Topcagic photography

e ainda me falta aprender tanta coisa
e não tenho mais tempo
é tarde, tão inevitavelmente tarde.

tudo o que podia dar, já dei
não custou muito,
apenas pouco, muito pouco.

os meus livros,
isso custou,
foram pedaços de mim.

fiquei com as minhas dores
os meus falhanços
os meus sentires.

fiquei com a janela sem cortinas
para melhor ver a praça
e o mar.

sou livre, não tenho bens
não preciso de testamento…

Autor : BeatriceM

sábado, 27 de maio de 2017

Lançamento



Obra poética inspirada nas mulheres retratadas pelo célebre pintor italiano Amadeo Modigliani.
Apresentação da obra pela poeta Catarina Nunes de Almeida


Já não possuo a voz de outrora,
quando repartir o pão
era um gesto maternal
e os filhos me pediam os olhos
para poderem adormecer.

Com os pulsos abertos
a qualquer aflição
manejo, como sei,
o sulco invisível da luz.

E sei-me rodeada por um rio
gemido até à secura.

Mulher com camisola preta, p. 18

--

Graça Pires (Figueira da Foz, 1946) editou o seu primeiro livro em 1990, depois de ter recebido o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro "Poemas". Depois disso publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, muitos dos quais premiados. É licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Obras publicados
Poemas. Lisboa: Vega, 1990
Outono: lugar frágil. Fânzeres: Junta de Freguesia da Vila de Fânzeres, 1993
Ortografia do olhar. Lisboa: Éter, 1996
Conjugar afectos. Lisboa: Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, 1997
Labirintos. Murça: Câmara Municipal de Murça, 1997
Reino da Lua. Lisboa: Escritor, 2002
Uma certa forma de errância. Vila Nova de Gaia: Ausência, 2003
Quando as estevas entraram no poema. Sintra: Câmara Municipal, 2005
Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos. Ed. autor, 2007
Uma extensa mancha de sonhos. Fafe: Labirinto, 2008
O silêncio: lugar habitado. Fafe: Labirinto, 2009
A incidência da luz. Fafe: Labirinto, 2011
Uma vara de medir o sol. São Paulo: Intermeios, 2012
Poemas escolhidos: 1990-2011. Ed. Autor, 2012
Caderno de significados. Póvoa de Santa Iria: Lua de Marfim, 2013
Espaço livre com barcos. Poética Edições, 2014
Uma claridade que cega, Poética Edições, 2015

Prémios recebidos:
Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, com Poemas (1988)
Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, com Labirintos (1993)
Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, com Outono: lugar frágil (1993)
Prémio Nacional de Poesia 25 de Abril, com Ortografia do olhar (1995)
Grande Prémio Literário do I Ciclo Cultural Bancário do SBSI, com Conjugar afectos (1996)
Concurso Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves, com Labirintos (1997).
Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, com Uma certa forma de errância (2003)
Prémio Literário de Sintra Oliva Guerra, com Quando as estevas entraram no poema (2004)

sexta-feira, 26 de maio de 2017

laços


Andei a vida toda atrás do teu abraço
Sem saber que todos os caminhos
percorridos
Eram destino do nosso enlaço.

E os desenlaços meus
nunca foram (os) teus.

Autor : LuísM
https://alemabarca.blogspot.pt/

quinta-feira, 25 de maio de 2017

...

Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra. Um jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que via o dono, ia correndo ao seu encontro e, na maior alegria, acompanhava-o com seu passinho saltitante de volta a casa.

A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e ele correspondia, chegava a correr todo animado atrás dos mais íntimos para logo voltar atento ao seu posto e ali ficar sentado até o momento em que seu dono apontava lá longe.

Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo? Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar ansioso naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono bem amado. Assim que anoitecia, ele voltava para casa e levava sua vida normal de cachorro até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao seu posto de espera.

O jovem morreu num bombardeio, mas no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão. Quando ia chegando àquela hora ele disparava para o compromisso assumido, todos os dias. Todos os dias.

Com o passar dos anos (a memória dos homens!) as pessoas foram se esquecendo do jovem soldado que não voltou. Casou-se a noiva com um primo. Os familiares voltaram-se para outros familiares. Os amigos, para outros amigos. Só o cachorro já velhíssimo (era jovem quando o jovem partiu) continuou a esperá-lo na sua esquina, com o focinho sempre voltado para aquela direção.

Autor : Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 24 de maio de 2017

De nós em limite

ofra amit

Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura

No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite

Autor : Manuela Amaral

terça-feira, 23 de maio de 2017

(Poema 6 do Ciclo Elementos)

Maja Topcagic

O que dói não são as roturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tão-pouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.

Autor :  Victor Oliveira Mateus. Gente Dois Reinos
 Fafe: Editora Labirinto, 2013
 p 27 ( Prefácio de Inocência Mata, Texto da Contracapa de José Ángel García Caballero).
.
.

sábado, 20 de maio de 2017

Amor

Omar Ortiz


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Já não vivo, só penso

Victor Bauer

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lançamentos

Apresentação da obra por
Luís Filipe Sarmento e Isabel Mendes Ferreira


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Desnascer do tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Poema Líquido, p. 30


Manuel Veiga Nasceu em, Matela, Vimioso (Trás-os-Montes), e vive em Bobadela, concelho de Loures. É licenciado em Direito tendo exercido advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e mais tarde como Inspector Superior da Inspecção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respectivo Gabinete Jurídico. 
Entretanto, havia sido redactor de noticiários da Emissora Nacional e Copywriter de publicidade. Colaborou esporadicamente na imprensa diária, designadamente, no “Diário de Lisboa” e em “O Diário”, e regularmente em revistas periódicas sobre temas de natureza política, económica e social, designadamente, a revista “Economia EC”, a revista “Poder Local”, e a revista “SEARA NOVA”, integrando presentemente o Conselho Redactorial desta última. 
Para além da obra agora dado à estampa pela Poética, é também autor das obras “Poemas Cativos” (poesia, Poética Edições, 2014), “Notícias de Babilónia e outras Metáforas” (crónicas, Modocromia, 2015) e “Do esplendor das coisas possíveis” (poesia, Poética Edições, 2016).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia

terça-feira, 16 de maio de 2017

Chove

Emerico Toth

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Autor : José Gomes Ferreira

domingo, 14 de maio de 2017

casualidades

Oleg Oprisco

desviados da rotina,
submersos em cascatas de emoções acabadas
cruzaram-se, acidentalmente,

cruzaram-se numa esquina da vida,
quando fugiam de tudo e todos,
quando andavam por aí invisíveis,

olhares trocados,
sorrisos cúmplices,
e corpos partilhados,

e seguiram caminhos contraditos
fugiram, e a ausência
macerou a saudade compartilhada,

aos poucos, e levemente
criou uma auréola num acaso que
merece sempre ser revivido.

Autor : BeatriceM

sábado, 13 de maio de 2017

Os amigos


norvz austria

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Autor : José Tolentino Mendonça
In : De Igual Para Igual

sexta-feira, 12 de maio de 2017

As tuas mãos

omar ortiz
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim…

Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!...
- Mãos de doente,
mãos de asceta…
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta…

Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!

Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
… E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
- as minhas mãos de mulher!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheço o Sal


Kevin Pinardy

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Autor : Jorge de Sena

quarta-feira, 10 de maio de 2017

As Mães

Gustav Klimt

as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa
de onde nunca partimos

as mães são eternas
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meu País Desgraçado

Almada Negreiros
Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Autor : Sebastião da Gama
in 'Cabo da Boa Esperança'

domingo, 7 de maio de 2017

certezas

Leah Jonhnston

já não te tenho, e
nem te perdi, deambulando pelo meu corpo
ainda retenho,
o teu odor em mim…

Autor : BeatriceM

sábado, 6 de maio de 2017

A Vaidade e a Inveja Desaparecem com a Idade

mariska karto

Com o passar do tempo, há dois sentimentos que desaparecem: a vaidade e a inveja. A inveja é um sentimento horrível. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E a vaidade faz-me pensar no milionário Howard Hughes. Quando ele morreu, os jornalistas perguntaram ao advogado: «Quanto é que ele deixou?» O advogado respondeu: «Deixou tudo.» Ninguém é mais pobre do que os mortos.

Autor : António Lobo Antunes
in "Diário de Notícias (2004)"

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Recado

Danielle Richard

Se eu morrer longe
sepulta-me no mar
dentro das algas ignorantes
e lúcidas.

Cobre o meu rosto de palavras
antigas
e de música.

Deixa em meus dedos
a memória mais recente
de outras coisas inúmeras

e nos meus cabelos
o incerto movimento
do vento e da chuva.

Eu vogarei sob as estrelas
com pálidas luzes entre os cílios
e pequenos caramujos
entrarão nos meus ouvidos.

Estarei assim idêntica
a todos os motivos.

Autor : Glória de Sant'Anna
in 'Música Ausente'

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As Lágrimas e o Amor

katia chausheva

As lágrimas das raparigas refrescam-me. Levantam-me o moral. Às vezes lambo-as dos cantos dos olhos. São mini-margaridas, sem álcool, inteiramente naturais. Dizer «Não chores» funciona sempre, porque só mencionar o verbo «chorar» emociona-as e liberta-as, dando-lhe a carta branca para chorar ainda mais. Só intervenho com piadas e palavras de esperança e de amor quando elas vão longe demais e começam, por exemplo, a pingar do nariz.

As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. É como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. Nós somos a toalha que está mais à mão. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. É horrível, não é? Mas só um santo não se aproveitaria.

E as raparigas que choram depois de se virem? Estarão assim tão arrependidas? Comovidas? Simplesmente agradecidas? Gostaria de pensar que sim. As três coisas, pelo menos. Elas próprias não sabem. Riem-se logo de seguida. As piores são as que se riem logo ao princípio. Mas as piores também são muito queridas.

Autor : Miguel Esteves Cardoso
in 'O Amor é Fodido'

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Matura Idade

Anka Zhuravleva

Já não receio
 meu avesso de medos. 

Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei — cada ser
possui justa medida.

Já não almejo
o que me foi negado.

Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.

Autor : Lara de Lemos
in 'Adaga Lavrada'

terça-feira, 2 de maio de 2017

Não digas a ninguém



Não digas a ninguém, mas no frio da noite, procuro o calor nos teus braços.
Nos momentos de angústia e desespero, procuro a calma e segurança,
na paz do teu olhar.

Não digas a ninguém, mas é no teu colo que encontro carinho e ternura.
É no teu beijo que encontro desejo e paixão.

Não digas a ninguém, mas és tu que dás sentido há minha vida,
és tu que me motivas para alcançar objectivos,
que me dás força para lutar.

Não digas a ninguém, mas és tu o meu amor eterno...
e sei, que sou e serei sempre o teu.
Mas descansa, não direi a ninguém.


Autor  : Pedro Belo

domingo, 30 de abril de 2017

equilíbrio em mim onde ...

Fabrizia Milia

...ainda guardo estrelas luminosas,
para iluminar-me a escuridão,
da noite,  e muitas vezes do dia.

e não deixo que a penumbra
me isole, e embrulho-me
em constante encanto.

e muitas vezes escondo o pranto,
e o desencanto,
energicamente,aí  num recanto.

Autor : BeatriceM

sábado, 29 de abril de 2017

Vida


Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Serenata à Chuva

Laura Lee Zanghetti

Chuva, manhã cinza, guarda-chuva.
Entrar no contexto, dois pontos. Ele e ela
abraçados caminham sob o tecto
do guarda-chuva que os guarda.
Pelas ruas vão com a vontade de voltar
ao branco dos lençóis. Esse objecto prosaico
que às vezes se vira com o vento
torna-se objecto de poema. Dizer também
como a chuva é doce neste dia de verão.
Como o amor altera o sentido da chuva,
sim, como ela se eleva no ar e as frases se colam
ao vestido. No interior da pele o poema mudou
desde que entraste no guarda-chuva esquecido
a um canto do armário. Talvez o amor seja tudo amar
sem excepção. Eu que nunca uso guarda-chuva
assino incondicionalmente este poema.

Autor : Rosa Alice Branco
in 'Soletrar o Dia'

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Noutra praia

Victor Bauer

Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos

Autor :Luís Filipe Castro Mendes

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Prelúdio



anastasiya valiulina

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...

Autor :Alda Lara

terça-feira, 25 de abril de 2017

Há nesta memória



Há nesta memória uma inóspita dor. Subterrânea.
Ou talvez uma gravidez calada.
E um rastilho aberto (ainda não fogo).
E um murmúrio de água que se deslaça do interior da pedra
Antes da fonte. E os dedos de colhê-la.

Ou a sede que se pressente
Neste arfar. E no desalinho da cidade...

Há nesta espera um novelo
Que os olhos desfiam. Gota a gota...

E há um estio bravio. E uma inquietação que lampeja.
E uma dor que se faz canto e uma centelha
Que almeja. E o fio oculto da chama.
Ou um grito.

Há talvez um dia outro - que a memória se desprenda!...
Ou uma brisa. Que incendeia. Ou um mar. E gente
Sofrida que não cala.

Há talvez alamedas. Míticas e cheias.
E flores no cântico das armas.

Que então a pedra seja chama. E as praças sejam parto.
E os corpos se incendeiem.
E a água seja cântico.

E Abril seja límpido. E claro.
E a justiça viceje no rosto do meu Povo.
E na boca dos famintos...

Autor : Manuel Veiga
...............................................
25 de Abril, Sempre!...
http://relogiodependulo.blogspot.pt/2014/04/

domingo, 23 de abril de 2017

palavras estranhas ...ou a definição do amor

Vincent Baurilhon

há palavras estanhas…
é estranho também é o amor, e a sua definição
estranhas palavras, essas,
que não ousamos dizer, nem rejeitar
estranha estou eu…sentada entre as palavras,
por entre o desamor,
e o amor (por definir)
em palavras...

Autor : BeatriceM 2017-04-21

sábado, 22 de abril de 2017

Súplica

Rosanne Pormerleau
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Autor : Miguel Torga

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Mirada Secreta


Natália Drepina

Foram-se
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.

Autor : Lya Luft

quinta-feira, 20 de abril de 2017

...

Achraf Baznani

Apenas nos iludimos, pensando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Autor : Miguel de Sousa Tavares

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Poema Ensina a Cair

anka zhuravleva

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Autor: Luiza Neto Jorge
in 'O Seu a Seu Tempo'

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sono


eric zener

Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite: 
e assim perdido 
o sono 
o olvido 
bates, coração, repetes 
sem querer 
o dia.

Autor : Carlos de Oliveira
in 'Cantata'

domingo, 9 de abril de 2017

mentira

Neil Driver

há em mim, um medo do temporal
quando lá fora chove
e o vento agreste, bate nas persianas.

traz com ele um ruído, que me relembra
eternamente,
tu a bater na minha porta.

eu sei que não é
mas, isso não me afasta o medo.

e sempre que isso acontece
tapo a cabeça com o lençol
e finjo que gosto de dormir assim.

fico sempre com a sensação
da minha mentira
quando digo que já está tudo olvidado
e que não gosto, nem nunca gostei de ti …

Autor : BeatriceM

sábado, 8 de abril de 2017

ser...

Omar Ortiz


quero o silêncio pelo meio
entre o que foi e há-de ser

quero um outro amanhecer
com um sorriso em teu seio

quero também sentir o vento
e me deslumbrares em marés

e se não for pedir muito, o alento
de seres aquilo que és.

Autor: LuisM Castanheira
https://barcaarmada.blogspot.pt/

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O Poema

Jenna Martin

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
De Livro Sexto (1962)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Lembra-te

jenna martin

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Autor: Mário Cesaruny



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Tu tens um medo

Ben Zank

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Autor : Cecília Meireles

domingo, 2 de abril de 2017

sonhar-te...ainda

Fabrizia Milia

quis ser sonho, em ti
mas, qual quimera solta
deambulando em ecos
no vento, de que apenas
suspiram ruínas
dum sonho apenas,
e só meu.


Autor : BeatriceM

sábado, 1 de abril de 2017

Garras dos Sentidos

catrin welz stein artist

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Autor : Agustina Bessa-Luís

sexta-feira, 31 de março de 2017

11

Ben Zank

Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca", e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.

Autor: Rui Coias
in A Função do Geógrafo, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição

quinta-feira, 30 de março de 2017

Pernoitas em mim

Frederico Erra

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Autor : Al Berto

quarta-feira, 29 de março de 2017

Predestinaçao

Steve Hanks

Longe no tempo
um homem lançou
no ventre
de uma mulher, uma semente
e eu nasci para ti.

Longo o caminho
Mais tempo que Jacob
servi Labão para cumprir a vida.
Da carne fiz chão pr'a caminhar
da vontade fiz ponte
para o sonho de ti
que trouxe da semente que me fez.

Chegou ao altar a oferenda
os deuses que cumpram a promessa.
Fechem-se todas as chagas
no abraço azul do teu amor.

Autor : Angela Leite

terça-feira, 28 de março de 2017

Amor

Marc Figueras

Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...

Autor : Nuno Júdice
De «Meditação sobre Ruínas» (1994)

domingo, 26 de março de 2017

e na outra margem existe o mar


e todos os dias atravessas a ponte,
que te conduz à cidade grande
e ainda, e sempre
é o rio que te confunde o olhar,
quando procuras novos detalhes.

e consegues sempre,
edificar,
uma infinidade de pequenas coisas,
que se confundem nas roupas garridas,
que usas e abusas.

Autor: BeatriceM

sábado, 25 de março de 2017

Sonho

Samantha French

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

sexta-feira, 24 de março de 2017

Apesar das Ruínas


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Autor:Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 23 de março de 2017

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Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.

Autor : Fernando Paixão
In De Fogo dos Rios (1989)