domingo, 31 de dezembro de 2017

Feliz Ano Novo


Dentro de algumas horas, deixaremos a ano de 2017 a quem chamaremos o ano velho.

Desejo a todos os  que visitem este espaço muita saúde e sucesso durante o ano de 2018.

Feliz Ano Novo

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma coisa inocente

Natália Drepina

Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora
uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime

Autor : José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Partir

Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

Autor : Maria Teresa Horta

in Poemas para Leonor, Dom Quixote, 2012, p. 138-9

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

..



Andre Kohn

…E minhas rugas são ruas
e minhas ruas
são rias ou rios de risos
de crianças ao luar
correndo felizes, descalças e nuas
com suas estrelas acabadas
de roubar…

Autor : António Gil
in Obra ao Rubro (Lua de Marfim, 2012)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

...


Victor Bauer
Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre ― a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono.
.
Guarda-o
serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
.
E protege-o de todos os invernos ― dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.
.
Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
.
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez o que queria.
.
Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
.
E nada lhe peças de manhã ― as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol.
.
E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

Autor : Maria do Rosário Pedreira
in A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Deram-me o silêncio

Pier Toffoletti
Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Autor : Adolfo Casais Monteiro

domingo, 24 de dezembro de 2017

Feliz Natal


Para todos os que gostam de poesia e que por aqui passaram 
aproveito para deixar votos de umas Festas Felizes,
que seja um tempo de paz, saúde, e muita felicidade.

BeatriceM

sábado, 23 de dezembro de 2017

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo

eduard gordeev

do mundo que malmolha ou desolha não me defendo,
nem de mim mesmo, à força
de morrer de mim na minha própria língua,
porque eu, o mundo e a língua
somos um só
desentendimento

Autor : Herberto Helder
In A Faca não Corta o Fogo, 2008

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Não entendo

Natália Drepina

Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.

Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.

Autor : Clarice Lispector

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Água morrente

Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,
Cair, quase morrer…
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos
Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente.

Autor  : Camilo Pessanha
in clepsidra

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Queria dizer-te que não sei

Kyle Thompson

Queria dizer-te que não sei
que há qualquer coisa
talvez desperdiçada talvez não
Tu sentiste-a disseste que era como
qualquer uma outra coisa que
esqueci
A tarde era talvez já fosse tarde
e a noite não vinha
─ como sempre
Queria dizer-te mas não sei se agora
me saberás ouvir


Autor  : Maria Alberta Menéres

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Quando, do nome do mar

paul kelley

Quando digo o nome do mar não é do mar
que digo o nome, mas de tudo o que
antes e para lá do mar ficou
em sobressalto nos perigos da sua travessia.

Aprendi isso em lugares raros,
como o último silêncio, a última gota
de água ou de mel.

Autor : Francisco José Viegas

domingo, 17 de dezembro de 2017

memórias

anka zhuravleva

nunca te pedi nada,
tu nada tinhas para dar,
mas, naquele dia que a mãe não estava em casa
e a fome apertava

foste ao pomar
e colheste a maçã maior e mais bonita
que existia na macieira

partimos em duas porções
e repartimos

e, ainda hoje eu tenho
memórias do sabor doce, e
a imagem dessa maçã.

Autor : BeatriceM

sábado, 16 de dezembro de 2017

Poemas

André Kohn

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

Autor : Mário Quintana

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Pedaços de mim

Eduardo Arg_elles

Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante

Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.

Autor : Martha Medeiros

.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Amo o caminho que estendes

leszek paradowski

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


Autor : Daniel Faria
in “Dos Líquidos”

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Recado aos amigos distantes

Frank Wilcox oleo

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.


Autor : Cecília Meireles

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O lado de fora

Tela de António de Macedo

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.O meu rosto não reflete a tua imagem,
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.


Autor : Manuel António Pina

domingo, 10 de dezembro de 2017

Sonhos

by Evan Raditya Pratomo

apago todos os vestígios,
dos assassinos de sonhos,
e fico com as estrelas,
a recordar  os meus  devaneios 
de criança.
.
Autor : BeatriceM 2013-12-15



sábado, 9 de dezembro de 2017

Sombras


Voltam-se as sombras sobre nós
coisas soltas, costumes muito antigos
acompanham-nos os gestos desde perto,

desenham figuras nas paredes.

A casa sossegou, o vento veloz
Em cada recanto obscuro faz jazigos
onde se perde o olhar antes aberto.

Crescem líquenes, raros musgos verdes.
As janelas fecharam-se, vazio

o quarto. Perguntas por fazer
suspendem-se da voz

para sempre remetida ao seu silêncio.
Nada pois a temer,
sombras somos nós.

Autor:Bernardo Pinto de Almeida
Foto:dudeusz

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Na casa antiga, cada um de nós levava

Diggie Vitt
Na casa antiga, cada um de nós levava
consigo um candeeiro, com que arrastava
o seu duplo de penumbra e de sombra.
A chama do petróleo ardia junto à boca,
podíamos devorar a própria luz.
Chamas nos queimavam as entranhas
e em archotes vivos nos tornaram,
vagueando por corredores e por escadas
atrás do Outro, que nada nos dizia.

Autor : Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Último Poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Autor : Manuel Bandeira

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Das palavras

Natália Drepina
Das palavras
de algumas palavras
temos de conhecer mais
que seu significado,
temos de lhes sentir o tacto
o gosto, ouvir a voz,
temos de as provar
beber, comer, saborear
mastigar suavemente
e depois com ternura,
as engolir para que permaneçam
guardadas em nós.
Amor! O que é amor
se não for vivido!

Autor : Alice Queiroz
In“Jardim de Afectos”

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Este Inferno de Amar

Diggie Vitt

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Autor : Almeida Garrett
in 'Folhas Caídas'

domingo, 3 de dezembro de 2017

Quero partir e ficar


Elena "Kassandra" Vizerskaya



A manhã pariu um dia por onde  fundeio nos acinzentados serpenteados  no horizonte
Os barcos partiram  sem mim
O oiro do meu cabelo desfez-se na brisa que o mar  semeou
E o tempo esvai-se
Que parem todos os relógios do mundo
Que eu quero partir e ficar
.
BeatriceMar

sábado, 2 de dezembro de 2017

Leve

Kyle Thompson

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

Autor : Mário Quintana

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Exausto



Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Autor : Adélia Prado

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

interiores


Ionut Caras

chove na manhã de todos os silêncios
iluminada pela bruma que penetra
a janela
a casa é um santuário no recolhimento temporário
o cão presente olha para mim
sentado, à espera da habitual refeição
mas é ainda tão cedo
e, não fora ele, a realidade escapava-se da minha mão
assim, o dia acordou
os pássaros voam e chilram
as goteiras dos beirais e varandas
produzem a música
e o isolamento acabou.
ah! guardei o beijo matinal
recebido
habitual
com que o dia começa
sempre diferente
sempre igual.

Autor : LuísM Castanheira

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Sonhe e seja o que você quiser


Sonhe com o que você quiser.
vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
…e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.


Autor : Clarice Lispector

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Ausência

Karen Hollingsworth


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Autor: Carlos Drummond de Andrade

domingo, 26 de novembro de 2017

Choveu



Gustav Klimt

Choveu
pouco, quase nada
mas a água molhou a praça
e os abrigos gotejaram
pouco, muito pouco.

Choveu
em Novembro de há tantos anos
e na lembrança que tenho
era apenas  uma canção
e o teu primeiro choro de bebé.

Autor : BeatriceM

sábado, 25 de novembro de 2017

Vontade

Elizabeth Gadd

Despida de roupa
e de falsidade
quero a nudez pura
na plenitude da tua pele
acesa
Quero-te assim
iluminada e tensa
como quem pensa
que me pode perder
e só me tem a mim

Autor : Edgardo Xavier

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

De que serviu ir correr mundo,

Anka Zhuravleva
De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

Autor : MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
In Nenhum nome depois
(2004)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Saber

Kyle Thompson

O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência, mas somente a falta de curiosidade.

Autor : Agostinho da Silva

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

...

Ildiko Neer

Perder, dói! Não adianta dizer não sofra, não chore; só não podemos ficar parados no tempo chorando nossa dor diante das nossas perdas.

Autor : Lya Luft

terça-feira, 21 de novembro de 2017

todas as aves





Surreal Photo-Manipulations by Norvz Austria

Das árvores despidas outras o não ficam
e essas também gritam
gritam no poema, quase dor
na ausência da chuva ou do amor
das que (a)guardam as palavras
neste outonal calor.

Abro a janela e espreito a madrugada
e o frio choca com o poema, na chegada
só aí, desperta a alvorada.

- todas as aves ficam presas à minha mão...!

Autor : LuisMCastanheira

domingo, 19 de novembro de 2017

Ao lado da chuva e de mim

Impassível,
a cidade,
abandono-me com a ansiedade,
que abrigo neste deslumbramento de mim.

Pesa-me,
a chuva deste outono.
Agitam-se as memórias,
 que esfiapo.

E como se fizesse renda,
acolho sob o guarda-chuva,
fragmentos de nós.
.
Autor: BeatriceMar 2013-17-11


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Em uma tarde de Outono

Elizabeth Gadd
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Autor : Olavo Bilac
in "Poesias"

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Garras dos Sentidos

Anna Razumovskaya´

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Autor Augustina  Bessa-Luís
In Garra dos Sentidos 98

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

mesmo que o silêncio...


 Leszek Paradowski


mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras

vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas

          Autor: Carlos Nogueira Fino

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ilha




Photo by Leszek Paradowski

Dancei no fio
de uma espada
num poço aberto
em sol vermelho
há tanto tempo
não sei de ti
toquei na chama
mas era um espelho

Soltei a dor
como um segredo
que se guardou
e não se deu
lambi a ferida
de te esperar
mas este sangue
sabia a mar

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

Andei num fio
de navalha
fui acrobata
e enlouqueci
abri uma fenda
e foi-se o mar
mas este mar
não chega a ti

Há uma ilha
dentro do deserto
há um caminho
numa vaga
há espaço para correr
sob o sol
há um barco vazio
que me arrasta

És uma ilha
dentro do deserto
és um caminho
numa vaga
És espaço pra correr
sob o sol
és um barco vazio
que me arrasta

és um barco vazio
que me arrasta

Autor : Mafalda Veiga

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cantares

leszek bujnowski

Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e graná voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se...

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar...

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar"...

Golpe a golpe, verso a verso...

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe vieram chorar
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
"Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

Autor : António Machado

domingo, 22 de outubro de 2017

herança

Deixaste-me tudo o que podias
E foi tão pouco
Tão pouco


Quase nada

Nada
Ou quase tudo

.Quando ainda me lembro
Ainda sinto a tua pele
Em mim


E procuro na noite
O teu beijo
Perdido por aí...

..

Autor :BeatriceM (reeditado)
Foto: Żaba-Ewa

sábado, 21 de outubro de 2017

Dois rios

Elizabet Gadd

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luis Miguel Nava

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Prazo de vida

Olga Astratova
No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

Cecília Meireles
in 'Mar Absoluto'

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ver e não ver


Idilko Neer

Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte, e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido, ou na conversação, ou em algum cuidado, não dar fé das mesmas coisas que estais vendo? Pois esse é o modo e a razão porque naturalmente, e sem milagre, podemos ver e não ver juntamente. Vemos as coisas, porque as vemos: e não vemos essas mesmas coisas, porque as vemos divertidos. 

Autor : Padre António Vieira
in "Sermões"

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Terror de te amar

Ana Razumovskaya

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in “Obra Poética”

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Praia

Laura Lee Zanghett

Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar

teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas

braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu

e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

domingo, 15 de outubro de 2017

Partilha

Vera Rockline

Não me perguntes quem sou
Não te importes saber de mim
Nem de ti – quando estás aqui
Não te importes saber dos outros
Nem de nós – depois
Ama-me
Assim como estou – agora
Nua e só tua
E depois
Nada interessa
Nem tão-somente
Nós.

Autor: BeatriceM 2011-03-06
(reeditado)

sábado, 14 de outubro de 2017

De Longe

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Autor : Eugénio de Andrade