terça-feira, 25 de abril de 2017

Há nesta memória



Há nesta memória uma inóspita dor. Subterrânea.
Ou talvez uma gravidez calada.
E um rastilho aberto (ainda não fogo).
E um murmúrio de água que se deslaça do interior da pedra
Antes da fonte. E os dedos de colhê-la.

Ou a sede que se pressente
Neste arfar. E no desalinho da cidade...

Há nesta espera um novelo
Que os olhos desfiam. Gota a gota...

E há um estio bravio. E uma inquietação que lampeja.
E uma dor que se faz canto e uma centelha
Que almeja. E o fio oculto da chama.
Ou um grito.

Há talvez um dia outro - que a memória se desprenda!...
Ou uma brisa. Que incendeia. Ou um mar. E gente
Sofrida que não cala.

Há talvez alamedas. Míticas e cheias.
E flores no cântico das armas.

Que então a pedra seja chama. E as praças sejam parto.
E os corpos se incendeiem.
E a água seja cântico.

E Abril seja límpido. E claro.
E a justiça viceje no rosto do meu Povo.
E na boca dos famintos...

Autor : Manuel Veiga
...............................................
25 de Abril, Sempre!...
http://relogiodependulo.blogspot.pt/2014/04/

domingo, 23 de abril de 2017

palavras estranhas ...ou a definição do amor

Vincent Baurilhon

há palavras estanhas…
é estranho também é o amor, e a sua definição
estranhas palavras, essas,
que não ousamos dizer, nem rejeitar
estranha estou eu…sentada entre as palavras,
por entre o desamor,
e o amor (por definir)
em palavras...

Autor : BeatriceM 2017-04-21

sábado, 22 de abril de 2017

Súplica

Rosanne Pormerleau
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Autor : Miguel Torga

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Mirada Secreta


Natália Drepina

Foram-se
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.

Autor : Lya Luft

quinta-feira, 20 de abril de 2017

...

Achraf Baznani

Apenas nos iludimos, pensando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Autor : Miguel de Sousa Tavares

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O Poema Ensina a Cair

anka zhuravleva

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

Autor: Luiza Neto Jorge
in 'O Seu a Seu Tempo'

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sono


eric zener

Dormir
mas o sonho
repassa
duma insistente dor
a lembrança
da vida
água outra vez bebida
na pobreza da noite: 
e assim perdido 
o sono 
o olvido 
bates, coração, repetes 
sem querer 
o dia.

Autor : Carlos de Oliveira
in 'Cantata'

domingo, 9 de abril de 2017

mentira

Neil Driver

há em mim, um medo do temporal
quando lá fora chove
e o vento agreste, bate nas persianas.

traz com ele um ruído, que me relembra
eternamente,
tu a bater na minha porta.

eu sei que não é
mas, isso não me afasta o medo.

e sempre que isso acontece
tapo a cabeça com o lençol
e finjo que gosto de dormir assim.

fico sempre com a sensação
da minha mentira
quando digo que já está tudo olvidado
e que não gosto, nem nunca gostei de ti …

Autor : BeatriceM

sábado, 8 de abril de 2017

ser...

Omar Ortiz


quero o silêncio pelo meio
entre o que foi e há-de ser

quero um outro amanhecer
com um sorriso em teu seio

quero também sentir o vento
e me deslumbrares em marés

e se não for pedir muito, o alento
de seres aquilo que és.

Autor: LuisM Castanheira
https://barcaarmada.blogspot.pt/

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O Poema

Jenna Martin

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
De Livro Sexto (1962)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Lembra-te

jenna martin

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Autor: Mário Cesaruny



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Tu tens um medo

Ben Zank

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Autor : Cecília Meireles

domingo, 2 de abril de 2017

sonhar-te...ainda

Fabrizia Milia

quis ser sonho, em ti
mas, qual quimera solta
deambulando em ecos
no vento, de que apenas
suspiram ruínas
dum sonho apenas,
e só meu.


Autor : BeatriceM

sábado, 1 de abril de 2017

Garras dos Sentidos

catrin welz stein artist

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.

Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Dá má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Autor : Agustina Bessa-Luís

sexta-feira, 31 de março de 2017

11

Ben Zank

Não é difícil um homem apaixonar-se.
Ferir a sua paisagem,
cinzas de um passado caído, fluente.
Ao fim de vidas partilhadas pode ser que
diga "estremeci
durante anos sem te abraçar". Agora é tarde.
Agora é tarde sobre a terra cercada.
Por planícies ficou o desespero,
a dor lilás dos homens soçobrados
na paciência nocturna.
Só depois do terror os cães ladram fielmente
aos portais da manhã, só
após o gume das vidas partilhadas.
"Passei a vida a fugir para a tua boca", e
confundo já o teu rosto
com um qualquer.

Autor: Rui Coias
in A Função do Geógrafo, V.N. Famalicão: Quasi Edições, 1ª edição

quinta-feira, 30 de março de 2017

Pernoitas em mim

Frederico Erra

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Autor : Al Berto

quarta-feira, 29 de março de 2017

Predestinaçao

Steve Hanks

Longe no tempo
um homem lançou
no ventre
de uma mulher, uma semente
e eu nasci para ti.

Longo o caminho
Mais tempo que Jacob
servi Labão para cumprir a vida.
Da carne fiz chão pr'a caminhar
da vontade fiz ponte
para o sonho de ti
que trouxe da semente que me fez.

Chegou ao altar a oferenda
os deuses que cumpram a promessa.
Fechem-se todas as chagas
no abraço azul do teu amor.

Autor : Angela Leite

terça-feira, 28 de março de 2017

Amor

Marc Figueras

Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...

Autor : Nuno Júdice
De «Meditação sobre Ruínas» (1994)

domingo, 26 de março de 2017

e na outra margem existe o mar


e todos os dias atravessas a ponte,
que te conduz à cidade grande
e ainda, e sempre
é o rio que te confunde o olhar,
quando procuras novos detalhes.

e consegues sempre,
edificar,
uma infinidade de pequenas coisas,
que se confundem nas roupas garridas,
que usas e abusas.

Autor: BeatriceM

sábado, 25 de março de 2017

Sonho

Samantha French

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Autor : Agostinho da Silva
in 'Poemas'

sexta-feira, 24 de março de 2017

Apesar das Ruínas


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Autor:Sophia de Mello Breyner Andresen
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 23 de março de 2017

115




Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.

Autor : Fernando Paixão
In De Fogo dos Rios (1989)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Título por haver

Anka Zhuravleva

No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso

Autor : Ana Luísa Amaral

terça-feira, 21 de março de 2017

Pai




ionut caras

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei. 

Autor : José Luís Peixoto 
in 'Morreste-me' página 13/14

domingo, 19 de março de 2017

Pai

Mikael Aldo

A chuva parou, e a lágrima já não cai.
Secou, quando tive a certeza
que a tua partida inevitável
fazia parte do mistério da vida
ou, se calhar da morte.

Sim, é mais assertiva.

Comigo transporto o teu nome,
ou parte dele.

E é uma bênção.

Autor : BeatriceM 2017-03-19

sábado, 18 de março de 2017

O pequeno sismo

mikael aldo

Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera!

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de março de 2017

De mim para mim com amor

Jantina Peperkamp

Desatei o laço
do ramo de rosas
que comprei
na florista
para mim
Abracei-as desatadas
soltas
rosas da cor do sol, do sangue, do fogo
resplandecentes
húmidas do orvalho
cúmplice
que a florista quis que tivessem
E rocei os lábios pelas pétalas
deleitada
evocando o prazer que terias
se fosses tu a dar-mas.

Autor:Ângela Leite
in Metáforas Sobre o Amor

quinta-feira, 16 de março de 2017

De novo a montanha

Diggie Vitt

De novo a montanha e um silêncio íntimo
Em que percorro veredas d´água. E o magma
E nesse fogo se condensam estalactites. Afectos agora
Evanescentes. Essências matriciais ainda.

Fecha-se o círculo. Em redor as brumas
E os rostos. E os cheiros. E esta pedra
Em que trôpego desfaleço. A febre quente.
E o suor frio. E o grito d´alma que voa
Qual corrente. Veleiro sem regresso
Nem destino certo...

A vida? Esquivas corsas que de tão lestas
Se pressentem e apenas no rasto se iluminam.
Fortuitas são as horas. Não o caçador negro
Nem o coração da pedra. Apenas a água
(E sal da lágrima) são lírios e são heras.

Guardo sôfrego este silêncio e me retiro.
O fogo é agora esta paixão de nada: o eco de calcário
E meus dedos brasa. Poeira e caliça.

E muros derrubados.
E esta centelha viva que na queda
Se derrama.

Fim de tarde
Que no declinar do sol
Se incendeia.

Autor : Manuel Veiga
 "Do Esplendor das Coisas Possíveis" - Poética Edições
Lisboa Abril  2016

quarta-feira, 15 de março de 2017

Um outro tanto

Metin Demiralay

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Autor : Maria Teresa Horta

terça-feira, 14 de março de 2017

Apenas areia



Thomas Eakins

Sou o pó
E vou no vento
Através de rios
E montes
Vou no vento
E talvez eu pouse
Talvez encontre
O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento

Autor : António Ramos Rosa

domingo, 12 de março de 2017

Adeus



Despi-me do orgulho e de todos os subterfúgios
Que ainda sobreviviam em mim
Embora – desnuda
Afaguei palavras
Que te ofereci na limpidez
De um verbo –- apenas.


Era tarde
Disseste-me
E eu novamente parti
.
Autor : BeatriceM 16/09/2012
(reeditado)

sábado, 11 de março de 2017

Mais Beijos


Devagar...
outro beijo... outro ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!
Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!
Sim, amor...
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

Autor: Judith Teixeira
Foto:Szara Reneta http://plfoto.com/zdjecie,ludzie,trzy-gwiazdki,2129815.html

sexta-feira, 10 de março de 2017

Solidão



A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Autor:Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

Foto:Shawreus

quinta-feira, 9 de março de 2017

Fado


Que te ditam os meus versos
Quando me pedes para te escrever um poema?
Que pele reveste a tua alma
Quando na escrita me encontras?
Que sentimento é este que soa
Por entre as cordas da guitarra?
Um amor lento de final de tarde?
Um olhar quase cansado e caído
Por entre os véus da noite?
Uma lágrima que encontra
Conforto nos lábios que afagas?
Um grito de amor
Numa garganta muda?
Que alma é esta que te procura
No adiar dos dias
E que mata a sede
No teu corpo cevado?
Que pesar este o de te amar
Numa demora que não é a minha
Nesta folhagem de Outono
Quando é de azul-mar que te matizo?
Que sentimento é este
Vivido intensamente nestes dias partidos
Repletos de partidas e chegadas
De abraços e de confissões?
Que amor é este que de tanto se querer
Tudo tem para dar?
Que paixão é esta que não pesa na alma
E liberta o espírito
Sempre que de sorriso te revivo
Serás tu alma igual à minha

Que sente nas veias este fado?


Autor : Madalena Palma
Foto: Żaba-Ewa

quarta-feira, 8 de março de 2017

esplanadas

Eduard Gordeev


Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria

Autor: José Tolentino Mendonça

Um dia virei


Elizabeth Gadd


Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,
para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem
e eu não sinta.

Autor : Albano Martins

domingo, 5 de março de 2017

quero

Katia Chausheva

quero o teu abraço
não no destempo, do tempo
mas agora! enquanto ainda
há tempo.

Autor : BeatriceM

sábado, 4 de março de 2017

...

Achraf Baznani

"Se pudesse zangava-se. Sacudia o saco da tristeza. Se pudesse isolava-se. Passava a ser um nobre eremita, sem relações íntimas nem ambições. Qualquer ambição sugere-lhe logo a preguiça e a certeza da derrota merecida. Se pudesse tornava-se irascível, sarcástico e impossível de aturar. Em vez de não o convidarem por não se lembrarem dele, passavam a não o convidar por se lembrarem demasiado bem dele. Queria passar a sofrer da solidão de não querer.Este silêncio é que não."
.
Autor: Pedro Paixão“Café Instantâneo”
in Viver Todos os Dias Cansa

sexta-feira, 3 de março de 2017

Entregámo-nos

Neil Driver

Entregámo-nos
um ao outro
dentro dos lençóis
brancos
à tarde
e agora sabemos
e não sabemos
um do outro
escrevemo-nos
escrevemos

Autor : Adília Lopes

quinta-feira, 2 de março de 2017

...


Leszek Paradowski

Pobres cavalos que há em 'mim'
Tanto desejo chegar
Que acabo por ficar
Onde o princípio é o fim.

Autor: LuisM Castanheira

quarta-feira, 1 de março de 2017

4

Omar Ortiz

com que palavras irei escrever agora o nome
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria

nessa altura o verão vinha ainda muito longe
e por isso era possível acreditar em frases dessas
esperando que tudo acontecesse
como nos perdoáveis lugares-comuns dos filmes
que estreiam sempre no natal
e furiosamente desejei que a paixão se enredasse
entre os limos e sargaços das tuas pernas

mas agosto foi apenas um lugar de emboscadas
em todos os precipícios da nossa cama
e lentamente as águas definiram
com rigor implacável
o que sobrava de ti nas minhas mãos
e o silêncio baixou sobre as águas
como antes da invenção do mundo

e agora não sei onde acaba o teu nome

e começa o nome de deus

Autor : Alice Vieira
in DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA
Pág 74 ( Editorial Caminho, 2007)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Cavalgada


Já rebentei de correr
Sete cavalos a fio.
O primeiro era cinzento
Com sonhos de água sem fundo
E cor do norte o segundo
Com ferraduras de prata.
O terceiro era um mistério
E o quarto cor de agonia.
O quinto, de olhos em brasa,
Era só prata e espanto.
O sexto não se sabia
Se era cavalo, se vento.
Corria o sétimo tanto
Que nem a cor se lhe via.
Quanto mais ando mais meço
As distâncias que há em mim
Cada desejo é um fim
E cada fim um começo.

Autor:Armindo Rodrigues
In “Antologia Poética para a Infância e a Juventude

domingo, 26 de fevereiro de 2017

o cinzento do dia

Omar Ortiz

o cinzento do dia
é névoa que me conduz
a colorir
com labaredas de fogo
as memórias que circulam
em mim, e que eu apenas
quero atear cores.

Autor : BeatriceM

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Do amor


Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares

.
Autor:Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Dos teus dedos

Natália Drepina

Do vento conheço o sopro
por vezes a velocidade

dos teus dedos só conheço
a medida calma dos poros

Autor : Joaquim Alves

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Leah Johnston

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
.
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo
.
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
.
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

Autor : Maria Teresa Horta
in Só de Amor(Quetzal,1999)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por vezes

Mikael Aldo

por vezes...
fazemos coisas "tão loucas"
como respirar o Sol
abraçar a lua
sorrir à vida...
e esquecemo-nos
do amanhã...

Autor : José Luís Outono
in Mar de Sentidos (ed.Vieira da Silva 2012)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dois Rios


Kylli Sparre

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luís Miguel Nava
in O CÉU SOB AS ENTRANHAS (Limiar, 1989)



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

3


Esperar por ti agora quando já todos me explicaram
Como está completamente gasto o tempo de esperas
Com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
Sinais desajustados
Pode parecer daquelas coisas que fazíamos
Quando há muitos anos as pessoas
Olhavam para nós e repetiam meu deus
Onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
Que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
E tu murmuravas havemos
De convidá-la para o nosso casamento
E ríamos muitos e tínhamos a certeza
De que viver era isso)

Não importa hoje temos
Outras maneiras de fugir e de resto
Já morreram todos os que então
Furiosamente nos vigiavam
Embora possa ainda
Haver quem nos reconheço e se espante
E invente presságios e vozes de oráculos
Ou muito simplesmente destinos banais
Adivinhados nas folhas de chá
E em surdina nos avise
Que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
Demasiado inóspito o lugar
Onde nos encontramos

Mas eu já percorri muitos lugares em chamas
E esperar por ti agora é apenas
Mais um longo corredor de memórias regressadas
Que se atravessa entre os nossos corpos
Pelo meio de retratos desfocados com o Sena ao fundo
E discos de vinil com velhas canções
Que nunca partilhámos com mais ninguém

- até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
Pronunciando devagar cada sílaba do nome com que de mim nascias

Autor : Alice Vieira
in DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA pag 21/22
 (Caminho, 2007)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Da Música

Anka Zhuravleva

A musica derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.
A música traz na bagagem
a memória do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.
A música rompe um rio de lava
por si mesmo criado. Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Autor : Casimiro de Brito
in Canto Adolescente (Poesia 61.Faro.1ªed)