sábado, 30 de novembro de 2019

Intimidade


No coração da mina mais secreta, 
No interior do fruto mais distante, 
Na vibração da nota mais discreta, 
No búzio mais convolto e ressoante, 

Na camada mais densa da pintura, 
Na veia que no corpo mais nos sonde, 
Na palavra que diga mais brandura, 
Na raiz que mais desce, mais esconde, 

No silêncio mais fundo desta pausa, 
Em que a vida se fez perenidade, 
Procuro a tua mão, decifro a causa 
De querer e não crer, final, intimidade. 

Autor : José Saramago
Imagem : Katharina Jung

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

vejo brilhar uma estrela que,

vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a 

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade 

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos. 

Autor : Maria do Rosário Pedreira
in “Poesia Reunida”, 2ª. edição, Quetzal Editores, Lisboa, 2013
Imagem : Joel Robison

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

dedos e dedos


voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.

inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.

acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem

quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

Autor: Vasco Gato
Imagem : Istvan Sandorfi

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

As madrugadas ainda guardam


As madrugadas ainda guardam
a primeira palavra que dizias
antes do café

e vai ser difícil despegar-me dela
porque nada deixaste de sílabas e sons
que não fosse o eco das tuas mãos
nas minhas pernas

vai levar muito tempo
antes que tudo volte a ter
a cor parda dos embrulhos
esquecidos nas cómodas

antes que os quartos deixem
de gritar na insónia das noites
como crianças abandonadas

Autor :Alice Vieira

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Gestos


imagem : jenna martin 

Gestos,
apenas gestos. A minuciosa ternura
posta nas coisas imediatas,
nas que duram contra a noite,
nas que acendem lâmpadas precárias
e contêm o silêncio, o silêncio,
como se a música fossem
e nela nos viéssemos
perder.

Gestos,
tu ouves?
Nem o teu coração pode dar guarida
a tanto silêncio da terra.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse
e se, mergulhados numa aguda nostalgia
ou na recordação de um rosto,
nos desencontrássemos do mundo,
só esse gesto viria resgatar-nos,
a nós, feridos de amor e de sentido.

Por isso, hoje só posso dizer
o que o teu coração abandonou.

Autor: _Luis Filipe Castro Mendes

domingo, 24 de novembro de 2019

Momentos

Cristina Coral
Estou doente!  A médica diagnosticou-me um vírus e mandou-me para casa com baixa médica e em repouso absoluto. Regressei dos serviços médicos,meio morta, meio viva, passei no supermercado, comprei leite, ovos, cereais e massas, e meti-me na cama.  Não consigo abrir os olhos, doí-me o corpo todo e vou fica aqui a hibernar até que me passe a virose.  Coloquei o telefone em sinal de vibrar mas já decidi que não vou atender ninguém. Ninguém.  Ninguém também se aplica a ti. Hoje sinto o mar ainda mais perto. Está bravo e eu oiço-o como se estivesse a entrar-me em casa, e sei que é impossível, eu vivo num 4ºandar. O vento assobia lá fora, daqui a nada chove. Também não interessa. Vou ficar aqui a contar a solidão e a tentar massacrar a  dor que se entranhou em mim. Não estou alegre nem triste, estou doente. Não vou atender o telefone. Não vou!

Também nem telefonaste.

Autor : BeatriceM 2012-11-15(reeditado)

sábado, 23 de novembro de 2019

Estou louco

Joel Robison

Estou louco, é evidente!
Mas que louco é que estou?
É por ser mais sonhador
que gente que sou louco?
Ou é por ter mais completa
a noção de ser pouco?

Autor : Alberto Caeiro

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Ilusão inalienável

Emerico Toth

Ora, quero lá saber da chuva,
 do vento que uiva lá fora,
 do rio furioso que transborda,
 dos raios, dos trovões,
 de todas as intempéries!

Quero antes aquecer ilusões à lareira,
todos os serões,
de portas e janelas bem fechadas,
 para que das chuvas ácidas
 que afogam esse mundo estranho
 no meu mundo nunca entre nada!

Autor :  Bárbara Pais,19-11-2007
 in In Vida Veritas, inédito, 2007

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Ruínas

richard blunt

Por onde quer que tenha começado
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

autor : manuel antónio pina

domingo, 17 de novembro de 2019

Vigília

Roberto Liang

É noite e transporto comigo as agruras do dia. Pesado. Gélido.
Não temo o fim do dia. Apenas a noite me atraiçoa. Sempre!
Escondo-me na utopia e escudo-me do silêncio que se abate nas paredes, brancas,
Sou um pingo de cal. Pinto-me de manhãs claras e sonho. Os olhos abertos.
Sonham.
E desenham um dia a alvorecer cheio de sol.
Um sonho desenhado na noite – em claro.

Autor : BeatriceM 04-11-2012 (reeditado)

sábado, 16 de novembro de 2019

....


"Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor. E a felicidade. A felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos participar. É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior."

Autor : Miguel Esteves Cardoso
In Último Volume
Imagem : Victor Bauer

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

ANÍMICO

Nossa história está escrita
dentro de cada célula
só não sabemos lê-la
ainda

dentro de nós existe
a resposta que buscamos
só que não a procuramos
bem

o nosso lado mais sábio
ainda se esconde da gente
e vamos nascer novamente
até saber

Autor : Bruna Lombardi
Imagem:Joan Carol

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Espera por mim

Matthew Scherfenbergh

Estou a chegar 
À tua janela 
De vidro translúcido. 

Serei esse pássaro 
Que volta sem medo 
À casa perdida 
No céu da lonjura 

autor : josé pascoal 
branza 
editorial minerva 
2019

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Luto




Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Fiquei parada a meio da viagem.
No cais da vida, na tua bagagem.
Nada ficou que preencha ou conforte.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Fiz da tua partida uma miragem.
Ao desalento prestei a vassalagem.
Estrela morta sem roteiro, sem norte.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
À doença chamei má sina, sorte.
Perdi o sonho, a crença e a coragem.

Não fiz o luto. Não aceitei a morte.
Estás comigo em pintura, em recorte.
Alma com alma, em perene mensagem.

Autor : Maria Helena Amaro 26/01/2014

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Trova do Vento que Passa


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Autor : Manuel Alegre

domingo, 10 de novembro de 2019

É quase meia-noite


É quase meia-noite, vou até à varanda e sinto frio.   Lá em baixo um cão corre, saltando as poças de água que se formaram com a chuva que hoje caiu ininterruptamente.   Passou mais um dia, sem nada de novo.   Tenho o nariz a pingar e resolvo entrar para dentro.   Esta casa é pequena.   Tenho em cima da mesa jornais velhos, nem os li, separo-os.  Amanhã vão para o lixo.  Retiro as fotos que tenho sobre a mesa-de-cabeceira, que me sorriem, e já não me dizem nada.   Ou talvez digam.   Eu é que já feneci.   Depois desse tempo em que ainda sorria e fazia pose,para a câmera.  Hoje foi a última vez que assinei o meu nome, com uma parte do dele.   Assinei e não volto mais a assinar.   Isso não importa.   É apenas um nome.   Tenho frio.   E não tenho sono!   Apenas tristeza.   E uma solidão imensa espalhada por toda a casa, uma solidão maior que a casa que até é pequena.
-
Autor : BeatriceM 2012/10/21 (reeditado)

sábado, 9 de novembro de 2019

O Livro Fechado


Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Autor : Rui Knopfli
in "O Corpo de Atena"
Imagem : joel robison

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Chegam cedo de mais


Chegam cedo de mais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde – uma ou duas palavras para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

Autor : Maria do Rosário Pedreira
Imagem : Escha van den Bogerd

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Nasceste


Nasceste do outro lado,
onde o sol nunca destruiu os negros signos
da escuridão,
onde o terror do pai,
o distraído olhar da mãe,
o silêncio dos irmãos, faz crescer em ti as
imperecíveis flores da amargura.

Foste sempre
a equívoca imagem dos espelhos: um sorriso
era uma lágrima.
À tua volta estava escrito:
o amor é uma espada de fogo, às vezes mata.

Navegaste turvos oceanos cujas vagas alterosas,
nunca antes vistas,
batiam no teu assombro.
Atravessaste os ares, muito perto do céu,
mas nunca viste as altas mansões de Deus.
Eras apenas o anjo,
aquela que nunca pôde deixar as estâncias do
sono.
Entregaste, sem saber, os segredos do teu corpo,
tão predisposto à imolação.
Choraste tantas vezes,
em quartos de persianas descidas, que a morte
habitava,
sem fazer ruído.

Hoje,
não dizes nada.
Levas sobre os ombros um xaile de magoada renda.
Vestes quase sempre de negro.
Vais e vens,
ao longo dos labirintos onde em cada esquina
espreita o tigre.

Não sabes o que fazer com as mãos frias,
povoadas de angustiantes anéis.
Não bordas o livro das tuas horas,
e o dedal das avós dementes caiu sempre no
chão.

A chuva caiu sempre nos teus dias,
e caminhaste pelas ruas, à deriva, cabisbaixa,
como se pedisses perdão.
Ninguém te ouviu,
pois não havia palavras debruçadas da tua
boca.
Era sempre Inverno.

E quando ele chegou,
o filho pródigo de uma ilha,
parecia que enfim poderias cantar nos jardins da
paixão, na elevação das chamas.

Mas não.
Assassinaste sempre a ternura que ele ainda
guardava no devassado cofre da sua idade.
Suicidaste-te.

José Agostinho Baptista
'Esta voz é quase o vento'
Assírio & Alvim, 2004
Imagem : Angelo Bonini