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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

A misteriosa fraqueza do rosto humano


Não compreenderás a misteriosa fraqueza (que te confronta)
Não reconhecerás sequer o rosto

Não distinguirás, em difusa bruma, nenhuma utopia (evidente)
Nem uma única aspiração

Entenderás que existes, existes apenas,
E que, brevemente, também essa existente continuidade cessará

Sentirás, então, que presságio algum te estava destinado
E que era a ti, somente, que incumbia determinar o caminho

(Exceptuando, talvez, os contornos dos atalhos incontornáveis)

Perceberás, tardiamente, a instabilidade do percurso que percorreste
Escutarás o progressivo ruir dos territórios (que não poderás deter)

A iminente insurgência de um tempo absurdo

Como Sartre, compreenderás a frágil existência do destino figurado
Ser Nada, senão a razão dialética de uma responsabilidade crítica

Recordarás, enternecido, a candura inaugural
E, por um brevíssimo momento, serás o tempo pleno

A remota idade, a vida remotamente feliz
A época precedente à divergência das faces

Perceberás, mais tarde, a debilidade do sonho humano
Sentirás o progressivo desfazer dos fragmentos (que não saberás reter)
O gradual elevar do rosto inanimado

O levantamento de um tempo onde nenhum regressivo caminhar Te poderá regressar

Da vergada silhueta que (unicamente) subsistirá
Não reconhecerás sequer o rosto

Autor  : Filipe Campos Melo
Imagem : Anke Herzbach

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

A Nocturna Vigilia do Pranto Oculto das Sombras

 


As sombras invadem um mundo como hordas semblantes
Povoam abandonados espaços
Apossam-se na escuridão da escuridão da luz errante

Em taciturno caos avultam-se decrépitas figuras
Silhuetas de destituídos contornos
Esbatidas no retraçar de um símbolo inscrito em infinitos círculos

Cingidas, as sombras agigantam-se, inclinam-se sobre o corpo, abatem-se sobre a face
É íngreme o caminho conducente à ascensão
A nocturna vigília do pranto oculto das sombras

As sombras apoderam-se da razão como hordas errantes
Avolumam-se no obscurecimento da memória
Apartam da luz a luz semblante da escuridão

Iluminadas, as sombras são labaredas insanas
Silhuetas esparsas de um fogo
Incêndios ocultos no corpo

É inquieta a noite que se estende num sibilar de vento infame
É débil o desígnio ocluso que se sente silêncio impronunciado
Silenciadas, as sombras arrastam-se, contraem o rosto, desabam sobre o corpo

Árdua é a crisálida do monocromo de uma lágrima
A nocturna vigília do pranto oculto das sombras

Autor : Filipe Campos Melo
Imagem :Michelle Ellis

terça-feira, 28 de abril de 2020

Do Amor Impossível

 Do amor impossível diz-se invisível sua inevitabilidade

 Como te dizer deste amor intransparente, que, sendo evidente, visível não é
Como incandescer tal translúcida chama

O amor é sempre imprevisto, sempre surpreendente, sempre-sempre indeclinável
Como negar a incerteza que se oculta na tua necessidade

Sinto-te num sonho profundo, memória num tempo-porvir, espera sem sequer
suceder

Do amor impossível diz-se visível sua impossibilidade

Da descrença e das suas invisibilidades ocupam-se os passos das sombras
Num desvendar de névoas desnudo tua claridade, corpo-contraluz contendo minha
densa escuridão

Do amor impossível digo ser visível sua inevitabilidade

Como contradizer este luminar sentir
Como extrair a rara luz da luz exacta

Autor : Filipe Campos Melo