domingo, 28 de outubro de 2012

Divagação



Tu vais ter sempre o teu mundo tão próprio, tão pessoal, tão secreto e intransponível que mesmo por ser tão misterioso, nunca mais me vai atrair.

 Posso mudar de cidade, de rotinas até de país, e, não será por isso que vou compreender a tua filosofia de vida.

Não vou!

 Mas, também já nem me afecta muito.

 Cansei de viver uma vida que não era a minha, mas a tua, e mesmo assim saber que não valeu a pena. Eu era uma actriz que apenas contracenava para um espectador.

Por vezes ainda choro e quero acreditar que foi apenas uma fase que passou.

 Um dia vou voltar para um lugar onde o mar seja mais azul e a praia mais amarela.

 Por vezes, ainda me doem os ossos e por vezes ainda sinto o meu corpo em chamas.

 E talvez em algum lugar alguém me espere, mesmo que não seja tu.

Autor : BeatriceM
Foto . UM

domingo, 21 de outubro de 2012

É quase meia-noite



É quase meia-noite, vou até à varanda e sinto frio.   Lá em baixo um cão corre, saltando as poças de água que se formaram com a chuva que hoje caiu ininterruptamente.   Passou mais um dia, sem nada de novo.   Tenho o nariz a pingar e resolvo entrar para dentro.   Esta casa é pequena.   Tenho em cima da mesa jornais velhos, nem os li, separo-os.  Amanhã vão para o lixo.  Retiro as fotos que tenho sobre a mesa-de-cabeceira, que me sorriem, e já não me dizem nada.   Ou talvez digam.   Eu é que já feneci.   Depois desse tempo em que ainda sorria e fazia pose,para a câmera.  Hoje foi a última vez que assinei o meu nome, com uma parte do dele.   Assinei e não volto mais a assinar.   Isso não importa.   É apenas um nome.   Tenho frio.   E não tenho sono!   Apenas tristeza.   E uma solidão imensa espalhada por toda a casa, uma solidão maior que a casa que até é pequena.
-
BeatriceM 2012/10/21

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Medo




(Sabugal, 18 de Novembro de 1943 –Porto, 19 de Outubro de 2012) 



Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?

Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"

domingo, 7 de outubro de 2012

Recuo no tempo


Recuo no tempo e no espaço
E sei que ando à deriva
Como barco em tormenta
Sem bússola
Águas amotinadas impedem
A minha chegada
A algum porto de abrigo
Estou completamente só
Aqui
Agora
E para sempre

A escuridão tomou conta de mim
E nem o azul do céu me sorri
Mas
Deixo-me ir ao sabor do vento
E se calhar
Algum porto haverá
À minha espera

. BeatriceM  2012-10-07