quinta-feira, 13 de março de 2008

Notas para o diário




deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio.

e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo. sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas.

gosto do deserto, e do acaso da vida.

gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.

pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-

ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite.

basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer:

daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue.

chove torrencialmente.

o filme acabou.

não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.

fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto.

e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas.

e

nada escrevo.o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Autor:Al-Berto

Horto de Incêndio

Assírio & Alvim3ª edição - Dezembro 2000

3 comentários:

Anónimo disse...

lol

joão marinheiro disse...

Al Berto é sempre uma boa leitura.
Abraço.

Andreia Ferreira disse...

Haverão poucos tão grandes como Alberto :)
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