Preciso do teu abraço
pode ser em silêncio
há momentos em que as palavras
se tornam supérfluas.
Apenas um abraço
para que a inquietude adormeça
e os dias se tornem mais afáveis
sem ansiedade.
Imagem : Alex Stoddard
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
Falamos das coisas e elas acontecem
por isso ciciamos o que nos pede o corpo
não são as coisas só aquilo que dizemos
nossas pobres palavras não as dizem inteiras?
As palavras são coisas, extremas, luminosas,
quando tu dizes porta, há uma porta que se abre
quando tu dizes sexo, há um amor que se cumpre
não sabemos sequer o poder das palavras
nem o poder das coisas nem o poder dos rostos.
As coisas são palavras feridas pela morte
são agulhas finíssimas que trespassam a noite
os teus lábios dizem coisas os teus lábios cintilam
por eles fala o mundo, por eles se faz o oiro
pois o mundo acontece sempre que o pronuncias.
Os sapatos vermelhos
rasos e sem hesitação,
a mesma presilha do dia
do casamento,
as solas lisas depois de tudo.
Esse calçado e não
um par de sapatilhas forrado a cetim,
provavelmente os pés
arranjados lá dentro,
em pontas,
as fitas que deviam subir pela perna
a desfiarem-se já antes do laço seguro.
Os sapatos vermelhos
permeáveis a todos os passos
escolhidos às cegas.
Vermelhos, hoje mais,
são do jardim e das pedras
da calçada. Servem-me
ainda no primeiro dia de aulas.
E das ramagens do meu ser,
Libertam-se gotas de sonhos
Banhadas pelo perfume dos lilases
Agora, soltos em flores atemporais.
Do meu corpo eclodem rebentos floridos
Que se soltam de mim
E sobem, lentamente, na leveza da alma
Pousando na candura dos dias felizes.
Olho-me ao longe...
Reconheço cada fragmento, cada cor
Cada recanto, que agora procura paz.
O corpo jaz no restolho dos sonhos...
Com asas de pássaro, esvoaço para longe
Somos transeuntes
num mundo desencantado
onde o amor
parece não ter morada
nem pátria
mas apenas indigência.
A verdade sobre o amor se esconde na sua pontuação
da minha palavra endereçada a você.
Lágrimas
a cada partida.
E choramos
não pela morte,
mas pela brevidade
da vida.
Os que vão
deixam rastros
que não passarão
àqueles a que deixarei
os meus.
A saudade
dura pouco
além do adeus...
Levarei comigo,
é bem possível,
eu sei,
os últimos vestígios
daqueles por quem chorei.
O alvorecer rompe o dia
que nasce aprazível e morno.
A presença impõe-se:
é hora de agarrar a vida
e, em silêncio, agradecer.
Que virá, quando ouvires dizer que vem?
E como, se ao chegares nada aparecer?
Mergulhador nocturno, mergulhador diurno
ao fôlego que resta haverás de confiar
o que em fundura chama e à superfície ecoa.
Em breve ficas pronto para nada perguntar
ouvindo o que vier, recebendo o que chegar.
Não é preciso o que, nem necessário o onde
o para quê de quando, o para quem de como.
E chegará sem porque e falará nem quanto
por entre contra e dentro, perante quase em tudo
apenas vindo assim, sem modo, com chegando.
a rapariga com coração de pássaro
hesitou entre o vento e o amor.
e voou.
É fim de noite
Não fim de tarde
É fim, de noite
Que dentro arde
É meia-noite
Não meia verdade
É meia-noite
Falta uma metade
Pague a conta
Já é tarde
Não é faz-de-conta
O que me invade
É fim de noite
E o meu pranto
Sem validade
É meia-noite
A quebrar o encanto
Do cair da tarde
Já foste rico e forte e soberano,
Já deste leis a mundos e nações,
Heróico Portugal, que o grão Camões
Cantou, como o não pôde um ser humano!
Zombando do furor do mar insano,
Os teus nautas, em fracos galeões,
Descobriram longínquas regiões,
Perdidas na amplidão do vasto oceano.
Hoje vejo-te triste e abatido,
E quem sabe se choras, ou então,
Relembras com saudade o tempo ido?
Mas a queda fatal não temas, não.
Porque o teu povo, outrora tão temido,
Ainda tem ardor no coração.
Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.
A tua ausência
foi a minha carta de alforria ,
a minha liberdade.
Quem te viu como eu vi, em meus braços perdida,
sem dúvidas e enleios,
o corpo, como as curvas de uma estrada
por onde louco me fui em constante escalada,
do vale de teu ventre
aos cumes de teus seios...
Quem te sentiu assim, quando estávamos sós,
com teus braços em torno a mim
como cipós,
teus braços delicados, de repente possantes
e ardentes
como ondulantes
serpentes...
Ah! quem provou a força imprevista que punhas
nesse laço,
sentindo sobre mim, como estranhas picadas,
as tuas unhas
cravadas
em cada abraço...
Quem te teve como eu - toda, inteirinha -
(cada encontro era uma lua-de-mel, uma boda!)
quem como eu te sentiu minha,
com essa ânsia da terra sedenta a erguer no alto
os ramos,
estonteada de luz e calor,
entregando-se toda
à carícia molhada da chuva
sem pudor...
Ah! quem te teve assim, e te tem, e te quer,
nesta loucura imensa
que às vezes nem parece amor, parece doença,
e sente que possui de ti nestes instantes
a tua alma e o teu ser,
não precisa seguir mais... nem um passo que seja!
- teve tudo afinal que se quer ou deseja,
já podia morrer...
Apagaram o meu nome de todas as ruas
das listas organizadas dos heróis
das esquinas da escrita
do desenho.Não tenho nome agora
do meu título ninguém se lembra
a água da roupa das mulheres
a pedra onde bate a força das mulheres
junta sílabas de silêncio
um nome antigo se desenha
mãe
A luva no bolso
do antigo casaco de Inverno
atravessou inerte
todas as estações. Tantas
vezes entrou pela janela
o som da água molhando o passeio
enquanto nos vincos
do forro de lã reteve
a memória íntima das mãos.

Cantigas leva-as o vento
Nenhures as deve guardar
E vão da fama ao esquecimento
Se perdidas no momento
Em que se ouvem cantar
Quem me dera que o talento
Me ajude a fazer canções
Que o povo cante ao relento
Naquele contentamento
De quem vive as emoções
Não há nada mais bonito
Que ouvir um povo a cantar
Canções que se tornam um mito
No imaginário infinito
Da cultura popular
Cantigas leva-as o vento
E o vento sabe o que quer
E quem andar bem atento
Pode ouvir o próprio vento
Em contratempo a cantar
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Meu amor,
O oceano não precisa das tuas lágrimas para ficar mais salgado.
Nem os céus nem as estrelas ficarão mais luminosos
do que o brilho dos teus olhos.
mas a minha vida ficará mais deserta
sem o aconchego dos teus abraços
e o suspiro melancólico da tua voz em meus ouvidos.
Portanto, não se esqueça de que
o oceano sempre toca o céu no infinito das paixões,
assim como eu infinitamente enlaço o corpo da tua alma
despudoradamente através do erotismo que brota ávido
no corpo das minhas palavras.