segunda-feira, 20 de julho de 2015

Todas as ruas


Todas as ruas me falam de ti. A minha saudade é urbanismo e geografia. Por vezes, sem vezes desço a cidade até ao cais mais antigo, fito o mar no promontório do farol e digo coisas que não escrevo. Virando para a marginal, cumprimento as estátuas e os barcos e as árvores e vejo o rio a correr, a saltar de brilhos e de espelhos. Ao atravessar a ponte a sombra de ferro fica-me tatuada nos ombros. Vento gelado, gaivotas evanescentes, nuvens copiosas. Todas as ruas me falam de ti. Tapo os ouvidos a esse rumor insistente, não é nada comigo. Por vezes, cem vezes subo a cidade pelas escadas mais altas até à praça do entardecer. Teatros, luzes, cafés pomposos, candeeiros frágeis. Exausto me examino e detenho. A luz fala de ti, cinzenta e fria como o mar que a dissolve.

Autor :Bernardino Guimarães

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