sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Diminuto

norv austria

São horas de apanhar o primeiro transporte público
que se atravessar no meu atraso.

Mas
por favor, deixa-me
pelo menos por agora
tentar ordenar os ponteiros deste relógio insustentável
em cujo tempo se privou de me transportar

Das mãos
é preciso exigir mais qualquer coisa
além dum mero adeus
um verbo qualquer
que dê, pelo menos, para comprar o pão de cada verso.

Por hoje
permite-me que vá
devagar
para que a poesia
onde quer que apareça
possa ter a duração de uma pedra
por mais um minuto
desmesuradamente finito.
Inefável.

Com que lábios te vais defender dos meus beijos
aí, onde nenhum passado nos põe a salvo da memória?

Deixa-me fazer um minuto de poesia
em nome dos pássaros
abandonadamente suspensos
em linhas de voo.

Um minuto de poesia
apenas um bocado
o suficiente para flutuvoar rente às ondas
pingando indefesas
à beira da sede.

Fazer um minuto de poesia
como se o silêncio doesse mais alto
que as próprias palavras.

Repetir incansavelmente o mesmo verso
até que o poema se canse de ser diferente.

Amormecer no teu colo
e poesiar-me por todos os lados
enquanto as sonolências perto da tua voz
me dizem baixinho, muito baixinho
quase em segredo:

Poesia
é o prazer que nos acompanha
quando se escreve em legítima defesa da solidão.

Autor :Paradoxos (Heduardo Kiesse)
daqui http://paradoxosdoedu.blogspot.pt/2011/

2 comentários:

Suzete Brainer disse...

Que poema excelente e original.
Muito grata pela leitura nesta sua
partilha generosa!!
Beijinhos.

Gil António disse...

Frases soltas. Os relógios são uns malvados, lool
.
Escrevi:: * Cai a Chuva em desejo de amor-perfeito. *
.
Deixo cumprimentos
Boa tarde.