quinta-feira, 30 de abril de 2015

O Amor é Muito Difícil


Penso que o amor é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada, e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado, não é fácil de fazer permanecer.


Autor : José Luís Peixoto, 
in 'Notícias Magazine (2003)'

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Canção Erótica


Alegria é este pássaro que voa
da minha boca à tua.  É este beijo.
É ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo.  E morto de desejo.

Alegria é este orgasmo.  Esta loucura
de estar dentro de ti.  E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
de possuir-te.  E possuir-te devagar.

Autor : Joaquim Pessoa
in CANÇÕES DE ex-CRAVO E MALVIVER.

terça-feira, 28 de abril de 2015

os nós da escrita

 Viktor Sheleg

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva que neles caia não se escoa.

autor : Luís Miguel Nava

segunda-feira, 27 de abril de 2015

É no meu corpo que morreste



é no meu corpo que morreste. agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as
conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação de imperícia;
os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na
sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou no dia.
é no meu corpo que morreste, agora.

Autor  : © António Franco Alexandre

domingo, 26 de abril de 2015

A dieta


Deitei-me sem jantar, naquela noite
sonhei que te comia o coração.
Suponho que seria pela fome.
Enquanto devorava aquela fruta
─ era doce e amarga ao mesmo tempo ─
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos que nunca.
Suponho que seria pela morte.

Autor : amalia bautista

sábado, 25 de abril de 2015

Revolução


Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Autor : Sophia de Mello Breyner Andresen
in O nome das coisas

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Cadernos de Poesia



Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.

O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira 

autor Egito Gonçalves

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Mudemos de casa

Mike & Madeleine Bülow

Mudemos de casa; porque é preciso
arrumar as dores de outra maneira,
certificarmo-nos da existência do corpo
em novos lençóis, voltar a ter ilusões,
lugar propício para a curiosidade
de alguns que nos fazem acreditar
que a vida é um amplo anfiteatro
para as mãos.

autor : jorge gomes miranda

terça-feira, 21 de abril de 2015

...

aynur Guçlu



para lá da cortina além da porta errada
silencioso e só está sentado
e lê num livro velho
a sua própria história

autor : manuel de castro

segunda-feira, 20 de abril de 2015

É uma tortura passar o dia à espera da noite

Pier Toffoletti
Perco-me nestas linhas,
com que te tento escrever...
As linhas que desenho no meu pensamento,
reproduzindo o teu sorriso...
O teu rosto perfeito,
desenhado à mão pelo mestre...
A tua beleza única,
que me prende em sonhos....
Aqueles sonhos que vivo
enquanto durmo e me mantêm vivo...
Acordo e só penso em dormir
para poder estar contigo...
É uma tortura passar o dia à espera da noite...
Queria ter-te a toda a hora...
Resides na minha lembrança...
Apenas isso...
Aquele momento que passou...
O cheiro que deixaste tatuado no meu corpo...
A pele sedosa que vestias...
Nuvens onde dormimos,
criadas pelo incenso que assistiu ao nosso amor...
Dissiparam-se depois...
Como os meus sonhos,
todas as manhãs quando acordo e tu não estás...

Autor : Nuno Miguel Miranda

sábado, 18 de abril de 2015

O Amigo

Kam Kan

Esqueceste amigo!
Quando mais era preciso
Que te lembrasses
Esqueceste amigo!
Ou talvez não saibas
Que quando a dor
Nos abafa e deprime
Quando o peito estala
E nos oprime
Necessitamos por vezes
De uma simples palavra de conforto
Ou de um pequeno gesto a dizer-nos:
Estou contigo!
E é tão fácil amigo
E tão verdade
Quando dentro de nós
Mora de facto a amizade.
Mas se nada disto sentes
Se nada disto entendes
Ou achas que não mereço
Então…
É com mágoa que reconheço
E te digo
Que não és
Nem nunca foste
Meu amigo!    
                                                                                                         
Autor Orlando Laranjeiro


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Agora é diferente


Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Autor : Manuel António Pina


quinta-feira, 16 de abril de 2015

A esquina estava lá



A esquina estava lá
E a árvore prevista
Mas não eu.
Falto-me? Faltei-me
Mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
Basta a esquina sem estrada onde passei
Basta ouvir-me o silêncio em cada passo.


Autor : Helder Macedo

quarta-feira, 15 de abril de 2015

....

Anamika


Cidade caótica -
a borboleta atravessa a rua
com o sinal vermelho.

Autor : Casimiro de Brito

terça-feira, 14 de abril de 2015

Chegaste


chegaste donde o medo tecia os meus cabelos
donde os pássaros ardiam a voz
donde só o silêncio se desconhecia
era tão larga a morte
que não se podia ver dos meus olhos

chegaste quando o fim sangrava dos meus braços
a casa soterrou-me dos teus passos
terra de mim todo
chegaste pelo coração de água da noite
quando o mistério escorre em grito pelos telhados
e Deus se desabita

chegaste tão de dentro de mim mesmo
que agora que a morte me nasce na garganta
a noite e o meu rosto são alguém
que eu próprio desconheço

Autor : Pedro Sena-Lino

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O medo Global

Eduardo Hughes Galeano

03 de Setembro de 1940 
 13 de Abril de 2015

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho, os que não trabalham têm medo de nunca encontrar o trabalho.
Quem não tem medo da fome tem medo da comida.
Os automobilistas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados.
A democracia tem medo de recordar e a linguagem tem medo de dizer.
Os civis têm medo dos militares e os militares têm medo da falta de armas.
As armas têm medo da falta de guerras.
Medo da mulher à violência do homem, medo do homem das mulheres sem medo.
Medo dos ladrões, medo da polícia.
Medo da porta sem fechadura, do tempo sem relógio, das crianças sem televisão.
Medo da noite sem comprimidos para dormir, medo de dia sem comprimidos para acordar.
Medo da multidão, medo da solidão.
Medo do que foi e do que pode ser.
Medo de morrer, medo de viver. 


Autor Eduardo Galeano

domingo, 12 de abril de 2015

...

natália ova

Um nome arde tanto
de repente todos os caminhos parecem de regresso
a vida por si mesma não se pode escutar demasiado
a vida é uma questão de tempo
um sopro ainda mais frágil

a rapariga desce à pequena praça,
compra uma flor para ter na mão
uma forma intemporal de conservar
a perfeição ou a incerteza

Autor José Tolentino Mendonça

sábado, 11 de abril de 2015

Festa

xelomy

Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.

Autor : Alejandra Pizarnik
Antologia Poética
trad. Alberto Augusto Miranda

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Afinal



E amar-te era afinal tão fácil
Era apenas amar
Todos os defeitos que tu tinhas.


Autor : Nuno Miguel Cruz Rosa

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Podia dizer-te hoje



Podia dizer-te hoje,
Que nunca te deixei.
Por nenhum momento.
Ouvia-te chorar dentro de ti.
E as tuas lágrimas
Inundavam as planícies, negras
E acidentadas, do meu corpo
Pela erosão dos teus dias.
Já não tenho lugar
No silêncio onde moram as gaivotas,
Nem na tua pele, onde dantes,
Desenhava constelações.
Já não deixamos as roupas
Debaixo dos luares
Dos nossos corpos,
Nem sentimos o galopar
Dos nossos corações,
Por entre bosques
E lábios de silêncio.


Autor Paulo Eduardo Campos
in «Na serenidade dos rios que enlouquecem»,

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Beijo

Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada.
Que não saiba a café
ou a desamores.
Que não transborde paixão
para dentro da minha boca exangue
e não diga frases molhadas.
Não quero um beijo rubro
carregado de ânsias febris,
um almiscarado ósculo
com um currículo de mágoas, de paixões
de raivas tracejadas.
Quero um beijo meu.
Não sei se é cândido, se devasso
mas traz em si um rótulo diabólico
um carimbo que não passa de prazo
uma tatuagem que morde e infecta.
Bebo nesse meu beijo a saliva de outro
o despudor da alma desnuda
o vício de largar na boca
inconsequentes devaneios.
Nos meus lábios sinto quebrantos
e orgias seladas com lacre.
Quero um beijo meu
que não seja teu
que não seja nada
que não seja de ninguém

Autor© Margarida Piloto Garcia.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Memória de um pintor desconhecido

Joy Jordan

Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas,
cimento e energia atômica
indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?

Autor : Mário Dionísio

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Se o mundo não tivesse palavras

Katerina Plotnikova

Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.

Autor : Casimiro de Brito
In Livro das Quedas

domingo, 5 de abril de 2015

...

Ibai Acevedo

roubaram-nos as noites!
[e os dias em que as sonhávamos]
roubaram-nas como se furta tudo quanto se destrói com um fim prematuro, abrupto, imprevisto.
no meu ventre deixaste cair lágrimas. inconsciente despedida de uma noite que desconhecíamos ser a última.
a nossa última noite!, em que nos roubámos, um ao outro, como em tantos dias sonhámos.


Autor © João Costa

sábado, 4 de abril de 2015

Poema 2


Katerina Plotnik



De tarde, no campo, nenhum pássaro cantou;
e só neste fim de dia um vento traz o assobio
da primavera melancólica: despedidas,
imagens breves, nenhuma inspiração. O sopro nocturno,
porém, anuncia um reflexo de espelho no fundo
do corredor. A voz surge de um dos quartos
em que a ausência se perde. Um baço
murmúrio se aproxima do gemido que evoca
o mar - sem que a onda se decida, quebrando
o som agonizante. Então, abro a porta
e chamo-te; sabendo que só a noite me responderá.

Autor Nuno Judice in «Poesia Reunida 1967 -2000», ibidem

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sonho

Jaroslaw Datta

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença, conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles, aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço para que sonhe o que aqui te conto.

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Autor : Maria João Cantinho