raízes
onde estão minhas raízes
onde estão
a prenderem-me ao chão?
agora que o voo é solto
a terra só me quer morto.
10.set.2014
Autor :LuísM Castanheira
Aqui estão as minhas escolhas do que considero melhor em Poesia,Prosa Poética e Fotografia. Domingo é dia de trabalhos de minha autoria.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
domingo, 11 de dezembro de 2016
...
Federico Erra
Apenas o eco do silêncio
Inunda a cidade
E eu sonho o teu sorriso
No reflexo da água
Com que o rio me presenteia
E tu chegas num eco de saudade
Autor : BeatriceMar
(reeditado)
(reeditado)
sábado, 10 de dezembro de 2016
Dezembro
Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo
Autor :Carlos Drummond de Andrade
(Dezembro de 1981)
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Bela Adormecida
Eric Zener
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de
dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por
causa das águas,
deste ar que desentoca do chão
as formigas aladas,
Atitude ou se é por causa dele
que volta
e põe tudo arcaico, como a
matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na
cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
Autora : Adélia Prado
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mãe
Conheço a tua força, mãe, e a
tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o
teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho
permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade
e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te
mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos
problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma
força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o
prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe
porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e
inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor
como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua
vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo
universal.
Autor : António Ramos Rosa
in
'Antologia Poética'
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Desespero
7 de Dezembro 1936
18 Janeiro de 1984
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.
Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.
Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu
A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.
Autor : Ary dos Santos
in 'Liturgia do Sangue'
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Dies Irae
Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Autor : Miguel Torga
in 'Cântico do Homem'
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.
Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.
Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.
Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Autor : Miguel Torga
in 'Cântico do Homem'
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
....
Norvz Austria
De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.
O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.
Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.
Amarro o teu nome à palavra instante
antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.
O relógio marca a ilusão
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo
até amanhã...
Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/
domingo, 4 de dezembro de 2016
Cantiga para não morrer
10 de setembro de 1930
4 de dezembro de 2016
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Autor : Ferreira Gullar
sábado, 3 de dezembro de 2016
Tarde
é tarde
já devia estar deitado
mas
continuo sentado
à minha mesa
de estudo
a escrever
coisas que penso
continuo sentado
à minha mesa
de estudo
a escrever
coisas que penso
coisas de nada
e de tudo
e de tudo
num desabafo
em silêncio
com o papel
nu e mudo
em silêncio
com o papel
nu e mudo
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Sabes por vezes queria beijar-te
Federico Erra
“Sabes por vezes queria beijar-te. Sei que consentirias.
Mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado porque os beijos apagam o desejo quando consentidos.
Foi melhor sabermos quanto nos queríamos, sem ousarmos sequer tocar nossos corpos.
Hoje tenho pena. Parto com essa ferida.
Tenho pena de não ter percorrido teu corpo como percorro os mapas, com os dedos teria viajado em ti do pescoço às mão da boca ao sexo. Tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro. Acordado perto de ti. As noites teriam sido de ouro e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo.”
Autor : Al Berto
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
Fim
norv austria
faz-se tardee eu deixei de esperar-te.
todos os portos se fecham sobre mim
e a floresta adensa-se -
nenhuma clareira se abre à passagem dos
animais e do homem antigo.
são 4 horas na manhã de todos os relógios.
Autor:José Agostinho Baptista
in Deste Lado Onde
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
O Pecado da Gula
paolo barzman
Ontem à tarde saí. Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.
É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.
Autor : Rosa Alice Branco
in'Animal Volátil'
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Como se Morre de Velhice
Ionut Caras
Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.
Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.
Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que
vença.
Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.
De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.
(Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.)
Autor : Cecília Meireles
in 'Poemas (1957)'
in 'Poemas (1957)'
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Labirinto
By Trini Schultz
labirinto sem fim.
Nada o que parece
foi ou é.
Onde estarão as memórias
fieis às origens?
O Tempo adulterou-as!
Hoje estão sublimadas
mudadas, momento a momento.
Até... ao esquecimento.
.
Autor:LuisM Castanheira
https://poesiaaremar.blogspot.pt/
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
Não deixeis um grande amor
Ionut Caras
Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa
assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava
assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor
chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro
não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha
não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidencias negava
por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo
Autor : José Tolentino Mendonça
in 'Longe não Sabia'
quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Elegia em Chamas
Tommy Ingberg
Arde no lar o fogo antigo
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:
Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.
Autor : Carlos de Oliveira
in 'Terra de Harmonia'
do amor irreparável
e de súbito surge-me o teu rosto
entre chamas e pranto, vulnerável:
Como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem.
Autor : Carlos de Oliveira
in 'Terra de Harmonia'
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Pessoas Estranhas
As pessoas são estranhas. Algumas pessoas são. Elas serão conduzidas a descobrir coisas, mesmo que as mais triviais. Eles começarão a relacioná-las, sabendo contudo que podem estar enganadas. Você vê essas pessoas com blocos de notas, a raspar a sujidade das lápides, a lerem microfilmes, apenas pela esperança de encontrarem o fio à meada, fazendo ligações, resgatando qualquer coisa do lixo.
Autor : Alice Munro, entrevista
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
Leonard Cohen
21 de setembro de 1934,
10 de novembro de 2016,
A neve cai. Há uma mulher nua no meu quarto. Os olhos pousados na carpete cor de vinho. Tem dezoito anos. E os seus cabelos são lisos. Não fala o idioma de Montreal. Não se quer sentar. Não parece ter a pele arrepiada. Ficamos os dois a ouvir a tempestade.Autor : Leonard Cohen
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Amei-te sem Saberes
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada
Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio
Autor : Mia Couto
in 'Raiz de Orvalho'
domingo, 6 de novembro de 2016
Apetece-me parar
Ionut Caras
Apetece-me parar, já não me apetece escrever
Escrever-te
Não me motiva e o pensamento é levado
Apenas no vento
E no momento
Tenho medo
Medo
Muito medo
De que tu desapareças numa nuvem
E nunca mais te possa escrever
Mas!
Será que parar
Limitará a minha sede
De ti?
Não sei
Nem me parece
Que seja solução
Nem para mim
Nem para nós
Autor : BeatriceMar
sábado, 5 de novembro de 2016
Tenho fome da tua boca
Trini Schutz
Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratue.
Autor : Pablo Neruda
in "Cem Sonetos de Amor"
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
De que são feitos os dias?
De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Autor : Cecília Meireles
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...
Autor : Cecília Meireles
in 'Canções'
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
Soneto do Amor e da Morte
Ionut Caras
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Autor:-Vasco Graça Moura
in Antologia dos Sessenta Anos(ed. Asa, 2002)
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Para Ser Lido Mais Tarde
Saul Landell
Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando
já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
para ti será o começo de tudo
Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante
Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara
Autor : Mário Dionísio
in 'O Silêncio Voluntário'
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