domingo, 11 de maio de 2008

A carta da Paixao



Esta mão que escreve a ardente melancolia

da idade

é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,que à imagem do mundo aberta de têmpora

a têmpora

ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra

a sua queimadura desde os recessos negros

onde

se formam

as estações até ao cimo,nas sedas que se escoam com a largura

fluvial

da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.Os dedos.A montanha desloca-se sobre o coração que se

alumia: a língua

alumia-se. O mel escurece dentro da veia

jugular talhando

a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se

a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas

obscuras, a lua

tece as ramas de um sangue mais salgadoe profundo. E o marfim amadurece na terra

como uma constelação. O dia leva-o, a noite

traz para junto da cabeça: essa raiz de osso

vivo. A idade que escrevo

escreve-senum braço fincado em ti, uma veia

dentro

da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta

da figura cavada

no espelho. Ou ainda a fenda

na fronte por onde começa a estrela animal.Queima-te a espaçosa

desarrumação das imagens. E trabalha em tio suspiro do sangue curvo, um alimento

violento cheio

da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força

desde a raiz

dos braços, a força

manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda

fechada, a límpida

ferida que me atravessa desde essa tua leveza

sombria como uma dança até

ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma

estação é lenta quando te acrescentas ne desordem,nenhum

astroé tão feroz agarrando toda a cama. Os poros

do teu vestido.As palavras que escrevo correndo

entre a limalha. A tua boca como um buraco

luminoso,arterial.E o grande lugar anatómico em que pulsas como

um lençol lavrado.A paixão é voraz, o silêncio

alimenta-sefixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te

toda

no cometa que te envolve as ancas como um beijo.Os dias côncavos, os quartos
alagados, as noites que
crescem

nos quartos.É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel

relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta

pelo meio

o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras

um pouco loucas

engolfadas, entre as mãos sumptuosas.A doçura mata.A luz salta às golfadas.A terra é
alta.Tu és o nó de sangue que me sufoca.Dormes na minha insónia como o aroma entre
os tendões

da madeira fria. És uma faca cravada na minha

vida secreta. E como estrelas

duplas

consanguíneas, luzimos de um para o outro

nas trevas.


Autor:Herberto Helder

2 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Quem me dera escrever assim...
Gosto do autor, tem poemas fabulosos. Este é apenas um exemplo.

"Tu és o nó de sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria."
Brilhante...

Beijinhos

Maria Ana disse...

que forte! lindo!