terça-feira, 29 de outubro de 2019

....


O mais terrível dos sentimentos é o sentimento de ter a esperança perdida.

Autor : Federico García Lorca
Imagem : Brooke Shaden's

domingo, 27 de outubro de 2019

Recuo no tempo


Recuo no tempo e no espaço
E sei que ando à deriva
Como barco em tormenta
Sem bússola
Águas amotinadas impedem
A minha chegada
A algum porto de abrigo
Estou completamente só
Aqui
Agora
E para sempre

A escuridão tomou conta de mim
E nem o azul do céu me sorri
Mas
Deixo-me ir ao sabor do vento
E se calhar
Algum porto haverá
À minha espera

Autor : BeatriceM  2012-10-07
Imagem : shawrus

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

[As gaivotas desta tarde…]



As gaivotas desta tarde
cravaram dentes
repetindo o sinal da cruz

de tanta tristeza,
não andam mais juntas
em busca do sol:
guardam a dureza
de quem surfa a morte como os abutres.

Autor : Clarissa Macedo

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Por vezes


"Por vezes sentado sozinho na sala, apenas com o cão por companhia, pensava que, contrariamente ao que ele supunha, não eram precisas palavras para entendermos o essencial: que tudo é uma breve passagem e que não há outra eternidade senão a da solidão partilhada.
Ou no amor, ou na camaradagem das grandes batalhas, ou no silêncio de uma sala entre um leitor e um cão. Talvez estivéssemos a ficar parecidos e até nos imitássemos um ao outro."
Autor : Manuel Alegre
In 'Cão como Nós'
Imagem: Mãrcio Camargo

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Mãe, agora que guardaste na arca


Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que

já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te

porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda

te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos

do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão

negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão

azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam

no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?

Autor : Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Para ser feliz


Leva-me para onde os dias florescem
semeando maresia
e as noites se entretecem
de mistério e poesia.

Diz-me as palavras que tens no olhar
e nem precisas de me dizer
porque as sei adivinhar
mesmo sem querer.

Deixa-me desvendar o paraíso
no teu corpo. Algo me diz
que de nada mais preciso
para ser feliz.

Autor : Torquato da Luz
Imagem: antoine renault

domingo, 20 de outubro de 2019

Crepúsculo

Uma lágrima insolente
Teimou em cair
Soprei-a para longe
Cansada do seu  sabor a sal
.
Caiu desprotegida
E perdeu-se na suavidade
Da pele sem maquilhagem
.
Transformei-a num sorriso
E abraçei a saudade de ti
Na tarde incandescente de sangue
.
Autor : BeatriceM 2012-09-09 (reeditado)
Foto: anna o. photography

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

O que não escrevi,calou-me.

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.

Autor : Affonso Romano de Sant'Anna
Imagem: Logan Zilmer

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Memória é Medo


                                                           memória é medo
que se entreva
entre as teias
do corpo
memória é osso
sem carne
que cobrimos
da melhor forma
possível
para que não
sangre

Autor : Vera Lúcia de Oliveira

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Pedras

Eu canto estas pedras de fio,
Este areal de aves esquecidas.
Passo por ti sem ver as rosas, a flor que pelos olho esvoaça.

Eu canto como se aqui fosse uma praça,
Uma praça coberta de cadáveres
E o teu rasgado pelo ventre
Fosse um cadáver mais por entre os dedos.

Por isso é que esta dor não pode ser poema.
Por isso é que não pode ser uma palavra.

Autor : Mário Contumélias
In Sou deste mar Lisboa, Litexa, 1983
Imagem: Jaroslaw Datta

domingo, 13 de outubro de 2019

Esta dor


Não sei desenlaçar-me 
desta dor 
que se hospedou em mim 
e que aqui fez pousio 
e se demora. 

Eu sei 
esta dor é 
exclusivamente minha 
e só minha 
e se calhar para sempre. 

Autor : BeatriceM 2019-09-02
Imagem : Cristina Coral

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Os dedos de meu pai

os dedos de meu pai pulavam na guitarra
como crianças correndo no jardim...
Vinham os trinados de encontro a mim
cotovias... rouxinóis... uma cigarra?

Os dedos de meu pai longos, delgados,
dançavam na guitarra com leveza...
Era harmonia... música... beleza...
Baladas... canções... duetos... fados.

Ficava muda ouvindo as guitarradas,
com elas vinham duendes, magos, fadas
e na noite, bailados de luar...

Os dedos de meu pai eram sereias,
cometas, estrelados, luas cheias,
que corriam sobre mim, para me encantar...

Autor : Maria Helena Amaro  8/01/2014
Imagem : Tela de José Malhoa (O Fado)

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Em...


Em todos os momentos de minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes.

Autor : Gabriel García Márquez
Imagem : Rosie Hardy

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Recordar é preciso


O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.

O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.

Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

Autor– Conceição Evaristo
 no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.
Imagem :  Richard Blunt

terça-feira, 8 de outubro de 2019

....


Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.

Autor : Federico García Lorca
Imagem : Desconheço o Autor

domingo, 6 de outubro de 2019

Ausência

Já não sei se te oiço, ou se é eco somente
Na imaginação (minha)
É
Deve ser
Claro que é
Agosto acabou e tu foste
E levaste contigo tudo o que fantasiamos
Juntos
Deixaste os domingos para sempre
Envoltos nesta saudade
De ti
De nós
A tua ausência é este vazio
É este corpo que reclama
O apêndice do teu
Eu podia dizer que estás aqui
Que ainda te oiço
Mas tu não estás
E nunca mais vais estar.

Autor: BeatriceM 2012-09-23 (reeditado)
Imagem : Vladimir Volegov

sábado, 5 de outubro de 2019

Elucidação

Digam-me, sem pudor, o que há que constar
Para não ser visto como quem por aí anda
Sem saber qual a razão para tal demanda,
Em que vivo como que prestes a expirar.

Elucidem-me quanto ao que posso engendrar
Para que a vida não semelhe miseranda,
Nem tod’esta triste existência execranda,
Nada mais havendo para d’ambas me lastimar.

Esclareçam-me acerca do que tenho sido,
Do que julgo ser sem que saiba quem sou,
Sem que perceba que há muito ando perdido,

Quando sempre soube por onde caminho e vou,
Pois o que faço não pode ser nisto resumido
P’los que me tomam como quem por algo se matou…

Autor: Luís Corredoura dixit
Imagem: Katharina Jung

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Outlet

Os sonhos em promoção:
o mundo à venda
mas nada se realiza.
Só este vazio com desconto
preenche de gordura a mercadoria

Autor : Clarissa Macedo
Imagem : Anya Anti

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

hoje,


hoje, meu mundo caiu, fiquei sem chão
suspenso na queda livre de uma vida instável
de um vazio quase eterno, quem me dera
se ao menos esse poço tivesse fundo
enfim, vou aproveitar o silêncio por aqui
e descansar um pouco

Autor kaio bruno dias
imagem - mikael aldo

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário

Autor: Luiza Neto Jorge, in 'A Lume'
Imagem : paolo barzman

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Deixa que te ame em silêncio

Deixa que eu te ame em silêncio
Não pergunte, não se explique, deixe
que nossas línguas se toquem, e as bocas
e a pele
falem seus líquidos desejos.

Deixa que eu te ame sem palavras
a não ser aquelas que na lembrança ficarão
pulsando para sempre
como se o amor e a vida
fosse um discurso
de impronunciáveis emoções.

Autor : Affonso Romano de Sant'Anna
Imagem: Joan Carol