sábado, 24 de abril de 2010

Sobre o Regaço



Sobre o regaço tinha
o livro bem aberto;
tocavam em meu rosto
seus caracóis negros.
Não víamos as letras
nem um nem outro, creio;
mas guardávamos ambos
fundo silêncio.
Por quanto tempo? Nem então
pude sabê-lo.
Sei só que não se ouvia mais que o alento,
que apressado escapava
dos lábios secos.
Só sei que nos voltámos
os dois ao mesmo tempo,
os olhos encontraram-se
e ressoou um beijo.


Foto:Fredka5

domingo, 18 de abril de 2010

Lentamente corre

Lentamente corre como chuva de Abril sobre o
meu rosto.
Desligo o comando. O automatismo. Desligo o
que me liga.
A ti. À hora que persiste em ser retorta. Desligo
(me),
Rega. Gota a gota. Sou. Árvore que s’abarba
ao lanho.
Que resiste no sangue do machado que a corta.
Pusilânime.
A fruta ainda. A flor da aurora. Lamina d’água.
Néctar…Boca.
Primavera. Tela reflectida.
Lentamente corre. Lentamente (a)Vida..

.___
Foto:roobcio

sábado, 17 de abril de 2010

confidências,,.

Ouvi,
em marulhos de névoa, uma gaivota
inquisidora:
“Que fazes?
Perdeste-te?
”Olhei-a,
enroscada-nos azuis
e
procurei-me na resposta…
“Voo!”,,,disse-lhe convicto-de-evidências…
"Sim, eu sei,,,mas que fazes aqui? Perdeste-
te?” Insistiu ela em esgares trocistas…
“Não sei…provavelmente procuro…” disse-lhe
irrequieto
e
já sem voo! ( perdi-me, pensei,,, em certezas
só minhas…)
.
Autor :Almaro
Foto:Almaro

sexta-feira, 16 de abril de 2010

chuva

Outrora
Quando a chuva vinha
Era a alegria que chegava
Para as árvores
O capim
E para a gente.


Era a hora do banho sob a chuva
Meninos sem chuveiro
A água regateada na cacimba
Muitas horas de pé esperando a vez.


Era a alegria de todos, essa chuva:
Porque então fiz o primeiro poema triste?


Hoje ela veio
Veio sem o encanto de outras eras
E ergueu na minha frente o tempo ido.
Porque estou triste?
Porque estou só?


A canção é sempre a mesma
Mesmos os fantasmas, meu amor:
Inútil o teu sol ante os meus olhos
Inútil teu calor nas minhas mãos.
Essa chuva é minha amante
Velho fantasma meu:
Inútil, meu amor, tua presença.


Autor :Mário Antonio(Obra poética)
Foto:arturJM

sábado, 10 de abril de 2010

Querer-te é sentar-me na praça,




Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã,
só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice,
as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso
alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde
das acácias e das palmeiras e as rosas de Jericó
alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,
as tâmaras, a voz da grande Kolthoum vinda de uma
janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é
o teu corpo nu, exausto, branco como um templo,
porque todos os corpos são um templo no solo
consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil
e dançante caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer

Autor:Victor Oliveira Mateus http://adispersapalavra.blogspot.com/
in Os Dias do Amor – um poema para cada dia do ano
Ministério dos Livros Editores

Foto:Ifrom http://plfoto.com/160374/autor.html

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Morte silenciosa

A noite cedeu-nos o instinto para o fundo de nós imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida mas não nos chega: somos resina de um tronco golpeado para a luz nos abrimos nos lábios dessa incurável ferida

Na suprema felicidade existe uma morte silenciada

Autor:Mia Couto

Foto:Paralajka

quarta-feira, 7 de abril de 2010

o azul do mar



O azul do mar desprende-se da água.
Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava
que o mar se sustivesse e da qual sempre
supus também que o mar se alimentasse (de tal forma
por vezes o sentimos
encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado,
subsiste agora
que o tempo tudo apaga à minha volta.


Autor: Luís Miguel Nava
Poesia Completa 1979-1994
Publicações D. Quixote, 2002
Foto: silvia-anna http://plfoto.com/161414/autor.html

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Música



Como são belos os teus seios! Foram feitos
à medida das minhas mãos. Pousa-os
na minha boca e conta-me
a tua história. Não tens
história? Não tens noite nem vazio nem praia
branca? Fala-me então
do sol, da migração dos pássaros, da mansidão
das estrelas - fala-me de ti antes de possuíres
um nome, uma história. Sim
em qualquer parte
lançaremos os nossos corpos na relva; alfaias
efémeras; armas exíguas
ardidas na guerra. Como são belos
os teus seios! Trémulas
palavras. Deixa que neles eu me queime como quem
se deita num rio. Sinto
a terra mover-se. Iluminas
as águas e as estrelas. O percurso
é longo. O silêncio montanhoso. Debruço-me
na tua solidão.

.

Autor :Casimiro de Brito

Foto:fernando pedro

sábado, 3 de abril de 2010

mínimo

abarcavas-me em azul dos astros
e eu dançava plena
ao som de um poema ainda por inventar.
.
som, fonema celestial,
rio carnudo em busca do seu caudal.
.
… apenas!

.

Foto:elbandit

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O nosso “eu-mesmo” não nos mente porque SENTE, só o “eu-outro” nos engana porque grita murmúrios surdos de um espelho negro.Os espelhos só nos falam verdade quando as imagens se desfragmentam em assimetrias.O encontro está na ousadia de transformarmos o “eu-outro”, no “eu-mesmo” sem perder a cor do sentir…

.

Autor: almaro —September 5, , 2005
Foto;Shawrus

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mãe, eu quero ir-me embora


Mãe, eu quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram -
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique -
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira in " O Canto do Vento nos Ciprestes",
Gótica, Lisboa, 2001, pp 35 - 36.
Foto_Marek Stan