sexta-feira, 28 de março de 2025

A língua sobre a pele o arrepio

fabrizia milia

A língua sobre a pele o arrepio
Os teus dedos nas escadas do meu corpo

As lâminas do amor o fogo a espuma
A transbordar de ti na tua fuga

A palavra mordida entre os lençóis
As cinzas de outro lume à cabeceira

Da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
Nada do que era teu vou devolver.

Autor : Alice Vieira
in Dois corpos tombando na água

quinta-feira, 27 de março de 2025

Há dias em que em ti talvez não pense

Steve Walker

Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio

Autor : Gastão Cruz
in Fogo (Assírio & Alvim, 2013)

quarta-feira, 26 de março de 2025

Manhã sem adjectivos

A manhã chegou à janela do meu quarto
e entrou. Trazia, em braços de giestas e mimosas,
a cor da Primavera

e um raio de Sol nasceu no meu sorriso que
ainda sonhava o teu corpo num beijo.

Deslizei a mão pela tua ausência na minha cama
e senti ainda na extremidade dos meus dedos
o teu calor, a tua nudez, o sal da tua pele.

Nesse abraço voltamos a fazer amor.

Autor : Sandra Costa
Imagem : Lara Zankoul

terça-feira, 25 de março de 2025

ANUNCIAÇÃO

Só o ombro do anjo
permite a visão
da luz
o sinal

é na mulher
o rosto anuncia
o cortejo solene do sol
que lhe cresce
no colo

o mistério

a flor
do lírio acesa.

Autor : José Tolentino de Mendonça

domingo, 23 de março de 2025

Recolhimento

Fecho os olhos
e abdico de tudo.

Nas minhas mãos cerradas,
guardo o meu mundo,
a pulsar inspirações
no dorso das árvores desnudadas
e em toda a respiração
carecida para viver—
dias de simetria
em todo o meu ser.
 
Autor : BeatriceM 2025-03-22
Imagem : Artur Saribekyan

sábado, 22 de março de 2025

A noite



A noite veio de dentro, começou a surgir do interior
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro.
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros.
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que,
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde,
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo
a treva nasalada.

Autor:Luis Miguel Nava
in Vulcão IPoesia Completa 1979-1994
Imagem : Rosie Anne Prosser

sexta-feira, 21 de março de 2025

Se os Poetas Dessem as Mãos


Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia,
cairiam as grades das prisões
que nos tolhem os passos,
os arames farpados
que nos rasgam os sonhos,
os muros de silêncio,
as muralhas da cólera e do ódio,
as barreiras do medo,
e o Dia, como um pássaro liberto,
desdobraria enfim as asas
sobre a Noite dos homens.

Se os Poetas dessem as mãos
e fechassem o Mundo
no grande abraço da Poesia.

Autor  : Fernanda de Castro
Imagem : Pinterest

quinta-feira, 20 de março de 2025

Vivemos sobre a terra

 

Vivemos sobre a terra. Apresento-te
a nossa casa, os nomes que damos ás coisas,
as honras que nos são destinadas,
este corpo de sangue e nervos.

Sobre ele que julgamos vivo
dizes minha razão. A da vida
e a de outras coisas que se percebem.

Os barcos retomam lentos o seu lugar
em volta de um coração marinho.
Como se morre aqui?

Autor : João Miguel Fernandes Jorge
Imagem : Kyle Thompson

quarta-feira, 19 de março de 2025

Um dia talvez faça sentido a tua fuga urgente

 

Um dia talvez faça sentido a tua fuga urgente
e fria
pela calada do silêncio.
Só então perdoarei o tempo
pela dor de não te ter tido
nem ter sabido de cor.

Podias ter sido um barco
a navegar no mesmo ritmo das ondas,
mas não. Quiseste ser vento contrário...

Mas tudo tem duas faces.

A tristeza é só a outra face da alegria
tal como a morte é só a outra face da vida.
Este amor tem duas faces:nós...
e nós somos apenas tu e eu,
o desencontro na volta lenta da vida
o reencontro além do tempo.

Logo chegará o dia
em que o teu espaço será o meu espaço
e o teu tempo será o meu tempo
e jamais haverá sinais a apontar destinos
proibidos.

Seremos apenas nós,
com a certeza de um amor sobrevivente
na memória longínqua do olhar.

E será pelo olhar que nos reconheceremos...

Hoje eu sei que não vou morrer por não te ter,
porque um dia
atravessarei o portão desconhecido
e, ainda que tu não saibas,
levar-te-ei comigo...

e se não posso ter-te aqui,
ter-te-ei além
onde os barcos navegam sem vento...

ainda que não te tenha nunca...

Autor : Maria José Quintela
Imagem : Ilya Kisaradov

terça-feira, 18 de março de 2025

Ser Poeta

 

Ser poeta é maldição
É ter nascido sem ‘sperança,
É, dentro do coração,
Nunca ter sido criança...

É nunca existir agora
Partilhar de um outro olhar
É partir sem ir embora
Chegar sem nunca chegar.

É não querer explicação
Para tudo o que se sente
Colocar o coração
No lugar frio da mente.

Ser poeta é um destino
Que não leva a nenhum lado
Ser homem sem ser menino
Sem futuro nem passado.

Autor: C. A. Afonso 19-01-2019

domingo, 16 de março de 2025

Palavras em Cicatriz

Derramaste a ternura desmedida
sobre as palavras que me dedicavas.
Guardo-as nas memórias,
e nem a humidade do tempo
as fará modificar,
porque há palavras
que criam cicatrizes—
e ficam para sempre.

Autor : BeatriceM 2025-03-15
Imagem : Kelly Tan

sábado, 15 de março de 2025

na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

Autor : José Luís Peixoto
in 'A Criança em Ruínas'

sexta-feira, 14 de março de 2025

Tortura

 

São de vidro as pétalas que me rebentam
na boca. Não há grito ou palavra que não
se rasgue quando o mundo me chega aos lábios.
até o silêncio sangra quando o pensamento
me atravessa a língua para chegar ao coração.

Um dia o meu íntimo será feito apenas
de poemas esgaçados.

Autor : Virgínia do Carmo
Imagem : Daniela Haubertová

quinta-feira, 13 de março de 2025

14.TRAÇO

 

traço o dorso da frase
como o desenhador
que sobre a superfície pura
delineasse a curvatura
das tuas espáduas.

numa liberdade total
numa suspensão
quase asfixiante.

como uma tarde que resistisse
a declinar no clarão final
das tuas nádegas,
no aveludado êxtase
do seu volume.

enquanto por todo o chão
se espalham e se adensam
as ervas odoríferas

modelo cada vértebra
da tua coluna,
e sob o amarelo da pele
o tempo vai emergindo
numa escassez fóssil
quase irrespirável.

é assim que a tua beleza
se completa, atrai
e atraiçoa.

Autor : Vitor Oliveira Jorge
Imagem : Stephen Carrol

quarta-feira, 12 de março de 2025

..


limitações
a morte não chega

a vida não basta
não quero não queiras
ser ave sem asas

Autor : Líria Porto
Imagem : Shelby Robison