domingo, 25 de janeiro de 2026

Barco de Sonhos


Escrevi todos os meus sonhos
numa página imaculada
onde o silêncio ainda respirava
e dela fiz um barco
leve como um gesto de esperança

mas, sendo apenas papel,
desfez-se ao primeiro embate do mundo,
fragilizado pela coragem
de querer existir

e, no breve naufrágio,
não foi só o barco que se perdeu:
afundaram-se também
todos os meus sonhos

e o que restou de mim
ficou à deriva, até hoje.

Autor:BeatriceM 2026-01-24
Imagem : Achraf Baznanis

sábado, 24 de janeiro de 2026

...

Eu escondia
debaixo de um baú antigo
no celeiro velho da fazenda
meus rascunhos
dos poemas
que eu iria
escrever um dia
quando os recolhi
cheirava a mofo envelhecido
mas vivi.

Autor : AA
In Albino Alves Facebook do Autor
Imagem : Manuel Archain

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Noutro lugar do vento



Até posso corar se te disser que todas as noites,
quando me afundo na cama,
abraço-me como se fosses tu a abraçar-me.
Peço-me de empréstimo.
Enquanto os teus braços estão aí,
noutro lugar do vento 

Autor : Ana Salomé
Autor : Alex Stoddard

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Soubeste abrir a porta


Soubeste abrir a porta
que dá para o sucesso
para o longínquo
para um lugar
onde mesmo em deserto
o amor nasceu
onde o leito dum rio
traça a directriz
capaz de o conduzir até ao mar

Autor : António Salvado
Imagem : Pinteres

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Eternamente

Enquanto nos teus olhos encontrar
O verde das searas
A imensidão do mar
E essa explosão de estrelas
que brilha no luar.
.
Enquanto o sol brincar no teu sorriso
E o dia amanhecer
Doce, brilhante e quente
.
Enquanto tudo isso acontecer
Eu vou viver…
Eternamente!

Autor : Isaura Moreira
Imagem : Michal Maciak

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mais do que do outro

 


Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mundo de desencontros marcados «slogans» que violam
os espaços aéreos de países castos
e se dissipam além dos limites naturais
um laivo incendiando as espirais do rasto
Mais do que do outro o meu reino é deste mundo
mas de uma província de incerta geologia
com uma história sem crónicas ou reis absolutos
a única a que a constituição se refere numa clave de sol
onde os cidadãos de todos os burgos
pulam à rua das mãos estendidas de deus
dessa nenhuma anexação polui a virgindade civil.

Autor : Sebastião Alba
Imagem :Pinterest

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Anel


O anel que me ofereceste
descansa, discreto,
no cimo de livros antigos
da estante de madeira.

Às vezes olho-o
e sei que não lhe posso tocar.
Talvez ainda me sirva no dedo,
mas já não o arrisco.

Permanece lá,
esquecido e só,
como fiquei eu,
tentando remendar
o que nunca chegou a ser. 

Autor:BeatriceM 2026-01-17
Imagem : Alejandra Salido

sábado, 17 de janeiro de 2026

O que me faz escrever este poema

Lis Costa

O que me faz escrever este poema
não são as coisas: terra céu astros.
A saber: estendo a mão: e
o mundo reconhece-a encontra a

memória onde repousa e se transforma.
Pequena questão de valor cósmico. Insisto:
elo que liga bruma e fumo
felicidade de imagens nome inamistoso.

Não sonho palavra sonho barco.
Imóvel aprendo a não esquecer:
aspecto mineral do corpo
um destino de mica qualquer coisa
que não cessa de bater.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge
in "Vinte e Nove Poemas"

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Tempo

Johan Messely

O tempo tem aspectos misteriosos:
Um ano passa a toda a velocidade,
E um minuto, se estamos ansiosos
Parece, às vezes, uma eternidade.

Um dia ou é veloz ou pachorrento
-depende do que está a contecer-
O tempo de estudar, pode ser lento.
O tempo de brincar, passa a correr.

E aquela terrível arrelia
Que até te fez chorar, por ser tão má,
deixa passar o tempo. Por magia,
Quando olhamos para trás, já lá não está.

Autor : Rosa Lobato Faria

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

...

 

Por que pairas?
Por que insistes?
Por que pairas se deixaste
que te prendessem terrenas
falsas tranquilidades?
Por que negaste o que eras -
nuvem íntegra, real,
sobre as mentiras do mundo?
Às vezes cantas em tudo.
Mas é tão triste e tão tarde.
Meu amor, porque vieste?
Nunca tivera sabido
como se nasce e se morre
de repente ao mesmo tempo
para sempre, ó arrastada
humana deusa frustrada
água irmã da minha sede
luz de toda a claridade
que só em ti neste mundo
para mim era verdade.

Autor : Alberto de Lacerda
Autor : Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda
in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores
Imagem : Martin Stranka

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A saudade

a saudade não é da ordem do tempo

mas sim do espaço
não se trata de querer
rever revisitar reencontrar
(reiteração de verbos
num infinitivo infinito)
mas de algo da equipe do corpo
seu acervo de cheiro e ruído
seu buquê de seiva e voz
a saudade é da ordem do espaço
vago e é sempre hoje
e é hoje sempre
nesse seu breu
escavado
sabe-se como
debaixo das barbas do sol

Autor : Adriana Lisboa.
Imagem : TJ -Drysdale

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CORPO

em cima do que foi olhado
pela poesia

estendo o meu luando

empresto o meu corpo ao chão
e adormeço.

Autor : Ndalu de Almeida, mais conhecido como Ondjaki
Imagem : Pinterest

domingo, 11 de janeiro de 2026

Desconsolo


À espera da viagem
que se perde no almejar,
pelas estações corridas
uma após outra —
o mapa velado revisto,
já sem esperança 

Autor:BeatriceM 2026-01-10
Imagem : TJ.Drysdale

sábado, 10 de janeiro de 2026

Amo-te Assim


Amo-te assim
Com o amor dos condenados,
O desespero dos náufragos,
A lucidez dos suicidas;
Moro em tua liberdade,
Sonho em teu mar selvagem,
Desperto em tua vida.
Amo-te assim
Com a tristeza dos cegos
E a doçura do crepúsculo
Na hora azul que se perde
Entre o que sou e o que fui.
Amo-te assim
Em cada último minuto
Que rola sobre as pétalas
De tua essência,
E morre em minha carne.

Autor : Paulo Bonfim
Imagem : Paolo Barzmar

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

a tristeza

 

Ninguém conhece melhor a tristeza
do que eu. Não uma melancolia
branda de algodão doce, nem a chamada
no sangue de uma janela, nem as veias
com o mar inteiro lá dentro
e os ossos ainda tão fundo

A tristeza como
uma crosta de mármore colada à pele
e sobre as pálpebras o cinzel dos passos
que não quiseram esquecer
que já não me seguem
batendo sempre.

Autor : Inês Dia
 In situ
Imagem : Mira Nedyalkova