domingo, 13 de janeiro de 2013

Do amor impossível

1

Vai e sofre:
Não nos resta senão esta partida
Para o país de lágrimas e névoas
Dentro de cada um de nós.
Vai e esquece:
Nesse outro lado da vida
Das nossas vidas independentes
Talvez nos encontremos juntos
Os dois
2
Se dizes «Vem», amor,
Porque não vou?
Se dizes «Vem»
E sei que o dizes,
Porque me fico longe
A olhar-te, a desejar-te?
Porque não saio de onde estou?
Porque não vou para onde estás?
Se dizes «Vem»
(Eu não me engano, amor)
Porque não vou, meu bem?
Porque não vou?
Ser orgulhoso à tua frente
Fazer-me forte à tua frente
Oprimir-te oprimindo-me
Inquietar-te tornando-me
Inquietamente indiferente?
Amor, porque não vou?
Porque não vou, amor?
Porque não vou?

3

Talvez não seja de ti que eu goste
Mas da outra
Que tão estranhamente contigo se parece.
A outra a quem me não atrevi a amar
A outra por quem falhei
A outra.
Mas este desejar-te e repelir-te
Temer-te como se a outra fosses e adorar-te
Este estar aqui e desejar-me a teu lado
Este paradoxal receio
Isto
Que me faz rasgar os planos arquitectados
E apaga as tintas de todos os quadros-só-tu-e-eu que idealizo,
Isto
Como explicar tudo isto
Se tu não és a outra?
Talvez seja a outra que eu adore.
Mas tu pareces-te tão estranhamente com ela
Tens tanto dela, dessa outra, tanto,
Que talvez sejas a outra
Aquela a quem me não atrevi a amar
Aquela por quem falhei
A outra,
Tu.

4
Não te possuí
Nem sei se o quis.
(Contudo
A impressão de te ter perdido!)
Adorei as curvas do teu corpo infantil
Mas não as quis, não as amei pròpriamente,
Mas à sua frescura
-Frescura doce dos frutos que amadurecem.
Nada mais eu quis.
(No íntimo,
A impressão de que talvez te
[houvesse querido.)
Se os olhares que me deste e recebi
Ou recebi sem que mos desses
Eram pra mim,
Nada mais quisera do que a sua continuação.
Quantas vezes sentiste
A carícia dos meus olhos no teu corpo
No teu corpo infantil, no esboço
Do teu futuro corpo idealizado!
E quantas vezes cruzaste o meu olhar!
Mas talvez não fossem para mim
Os olhares que encontrei.
Talvez fosse o acaso.
Teu olhar-acaso foi-me esperança por vezes.
Teu olhar-inocência foi-me, por vezes, pedido.
Teu olhar-menina-púdica foi-me, por vezes, tentação.
Mas afinal
Talvez não fosse a ti que eu quis.
Talvez não fosse a ti.
Talvez nem te adorasse.
Talvez nem a tua puberdade me encantasse.
Penso que talvez não tivesse sido nada
Neste momento da partida não-realizada
Da separação de nós
Que nunca fomos nós
Mas eu e tu:
Tu ela, tu alheia, tu distante,
E eu...
Que recolho sem vontade
Os cacos do meu coração partido.
.
Autor : Mário António*


*Mário António Fernandes de Oliveira. Maquela do Zombo, 05/04/1934 - Lisboa, 07/02/1989) Estudos primários e liceais em Angola. Licenciado em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas e doutorado em literaturas africanas de língua portuguesa pela Universidade Nova de Lisboa. Foi considerado dissidente pelo MPLA e menosprezado pelo regime angolano. Sua obra foi, injustamente, relegada à segundo plano. Morreu em Portugal em 1989, país onde morou desde 1963.



domingo, 6 de janeiro de 2013

Selo literário 2013


O Selo Literário 2013 - Leia sempre
foi criado pela blogueira
Érica Bosi


Quem me indicou foi a Ana de http://semti2012.blogspot.pt/http:
que agradeço mas vou fugir às regras 
obrigada!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

....

Banco de Imagenes Gratis

aqui neste esconderijo
oiço as águas do rio
a correr para a foz
sei que perdi tudo, mas que ainda vou a tempo de
colar os cacos que se espalham dentro e fora de mim.

é ano novo e ainda me atrevo a sonhar.