quarta-feira, 30 de setembro de 2015

vive

Carlos Henrique


a poesia vive de palavras descalças
e de praias onde as pegadas
são tão leves quanto o sal.
vive do som de punhais deslizando
pela noite, e de madrugadas florindo
como a cauda de um pavão.
vive de desertos onde a música
é porcelana ao vento, e de jovens
que cantam o vinho do sonhador.
vive da aflição de memórias morrendo
com a chuva, e de anjos
que lavam a dor de cada noite.
a poesia vive em ti, mas não por ti.
a poesia és tu, o teu nome, um verbo,
cada sílaba, migalha de luz.

Autor João de Mancelos
In O pó da sombra. Lisboa: Colibri, 2014.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

...

David Talley

Conheço todos os caminhos que conduzem
à tua morada,
na grande noite que se fecha,
à volta dos ciprestes.

Quando te procuro,
a tua música cala-se e não me procura,
ao longe.
É apenas um lamento no ar,
uma voz de pedra,
um violino ardido.

Que vento frio traz a canção dos mártires para
tão perto do meu nome?

Autor: JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Esta voz é quase o vento

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura

GNP

«Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado...»
.

Autor : Herberto Helder

terça-feira, 15 de setembro de 2015

As lágrimas do Poeta

Frederico Erra

Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos

Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?

O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta
-
Autor: Ana Hatherly
in O Pavão Negro

domingo, 13 de setembro de 2015

deixa

Elena Kassandra Vizerskaya


deixa respirar a paixão,
como borboletas que se enrolam no estômago,
e saem sem destino pela boca ( a minha).
.
Autor : Beatrice Mar

sábado, 12 de setembro de 2015

As vidas que nos habitam


As vidas que nos habitam
Caminho pelo lado da rebentação das ondas ―
o litoral guarda segredo dos meus passos entre
as redes de sal trazidas pelos barcos
e o labirinto das algas ainda agora oferecidas

à praia. Sinto-me à mercê das falésias a riscar
o teu nome na areia; e é como se lentamente
pronunciasse um chamamento triste a que ninguém
acode. Fez-se tarde para os lamentos das sereias:

agora as marés dobam novelos de espuma à roda
dos meus pés, as águas já não transportam
a minha voz, a perder-se sobre as dunas
que os ventos vão desbastando devagar

ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O silêncio


Barbara Cole

O silêncio é como se fosse água.
Daquela água pura da montanha
que se bebe directamente
pelo coração.

Autor : Jorge de Sousa Braga

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O silêncio em relevo

Brooke Shaden

O silêncio em relevo
nos versos em que me teço
é a corda em que tropeço
enleado no que escrevo
e a voz que me enleia
entretecida hesita
entre os sentidos da escrita
e os da voz que a permeia
e nesse intervalo denso
entre o andar e o cair
já nem logro distinguir
entre o que sinto e o que penso
_

Autor : António Gil

domingo, 6 de setembro de 2015

Perdi o tempo



...perdi o tempo, com ele todos os rascunhos. E as agendas já não fazem sentido nenhum. Eu sei que é um jeito meu. Um olhar além de mim e do meu horizonte. Mas eu sempre gostei de olhar além e talvez hoje o além de mim é apenas a finitude de tudo ou de alguma coisa que apenas eu vislumbrei. Não teve continuação!

Embrulho-me nas neblinas dos dias e das tardes, e alvoreço com uma angústia que o estado nem traduz. Intraduzível. Apenas isso. Não fujo de mim apenas o meu eu se foge para horizontes fortuitos e cobertos de névoas e fragrâncias indisfarçados de medos e amotinação. Mas ao mesmo tempo mansa. Não terá repercussões. Pesa-me este corpo sobre estes passos incertos. Titubeantes. Pesa-me a injustiça neste mundo, onde só os fortes é que sobrevivem. Pesa-me esta lágrima que se queria uma pérola de alguma ostra perdida nas rochas…

.

Beatrice Mar 2013-07-13

(reeditada, porque faz todo o sentido)



sábado, 5 de setembro de 2015

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho

Leslie Ann O'Dell

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado
Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde
Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.

Autor : ANA HATHERLY
in A IDADE DA ESCRITA