quinta-feira, 16 de julho de 2015

A língua sobre a pele o arrepio

fabrizia milia

A língua sobre a pele o arrepio
Os teus dedos nas escadas do meu corpo

As lâminas do amor o fogo a espuma
A transbordar de ti na tua fuga

A palavra mordida entre os lençóis
As cinzas de outro lume à cabeceira

Da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
Nada do que era teu vou devolver.

Autor : Alice Vieira
in Dois corpos tombando na água

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Estamos tão sós


Laura Makabresku


O que nos afasta
uns dos outros
é o que nos aproxima
uns dos outros. Este
ser ao mesmo tempo
um e outro. Este ser
ao mesmo tempo
todo e parte desse
todo. Estamos tão
sós quando nos
bastaria apenas ser.

Autor : luís ene

terça-feira, 14 de julho de 2015

Dormes

Laura Makabresku

Dormes.
Não há no mundo senão teu rosto.

O céu sob o tecto
espera comigo que despertes.

O meu único relógio
é a sombra imóvel no chão do quarto.

A curva da terra
em tua pálpebra desenhada:
no teu sono me embalas.

Dormes-me.

Autor : Mia Couto

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Está tudo bem mãe

Kamil Vojnar

Está tudo bem, mãe,
estou só a esvair-me em sangue,
o sangue vai e vem,
tenho muito sangue.

Não tenho é paciência,
nem tempo que baste
(nem espaço, deixaste-me
pouco espaço para tanto existência).

Lembranças a menos
faziam-me bem,
e esquecimento também
e sangue e água a menos.

Teria cicatrizado
a ferida do lado,
e eu ressuscitado
pelo lado de dentro.

Que é o lado
por onde estou pregado,
sem mandamento
e sem sofrimento.

Nas tuas mãos
entrego o meu espírito,
seja feita a tua vontade,
e por aí adiante.

Que não se perturbe
nem intimide
o teu coração,
estou só a morrer em vão

Autor : Manuel António Pina


domingo, 12 de julho de 2015

Conclusão

David Talley
Fui amante da morte
e da beleza. Vi a loucura,
acreditei na vida.
Da infância falei
como lugar de abismo.
O prazer
foi também a grande fonte
de perturbação e alegria.
Lembrei as mulheres
que recusaram submeter-se,
escrevi palavras fúnebres.

Não poupei a adolescência,
o coração magoado
e não soube que fazer
de mim fora das palavras.
Escrevi para desistir
e depender
e ter identidade.

Autor :Isabel de Sá
in 'Erosão de Sentimentos'

sábado, 11 de julho de 2015

Dor


Seu nome esqueci sim
Só dói quando chamo
Por mim

Autor : Alice Ruiz

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Perdi as mãos por tão pouco

lukrecja czerwon ajcio

Perdi as mãos por tão pouco.
Por uma gota da água dos teus olhos,
pelo rumor na tua boca,
pelo ciciar dos ventos nas muralhas.
perdi as mãos por tão pouco…
Ficou-me a fome na boca,
fome de quem nada deseja
para além da antemanhã.
Acho um a um os meus dedos
delgados, ventos nos cabelos,
as palmas das mãos tão sulcadas,
tão leito onde as águas se demoram.
Com as minhas mãos perdidas
encontro branca
a nudez das tuas.
Com elas brinca
a fragrância da madrugada.


Autor : Lília Tavares
in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

por ti deitei o meu corpo ao mar

Elena Kalis
por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti dormi no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome quando a mão anuncia a ternura
que é quando os meus olhos procuram os teus


Autor : Vasco Gato
in Um mover de mão, Assírio & Alvim, 2000

segunda-feira, 6 de julho de 2015

...




Percorro
o mesmo caminho
uma e outra vez


e o mesmo caminho
uma e outra vez
conduz-me


a diferentes

e estranhos
locais





Autor : luís ene

domingo, 5 de julho de 2015

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Autor : Mia Couto
in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"