quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Silêncio


 Ermese-Durcka Lake

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
.
Autor : José Agostinho Baptista

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lábios



Fervem os lábios enquanto brilham na espera
e eu amo-te tanto
que não sei porque as bocas estremecem
no medo de se darem
Perdem-se as bocas em línguas de fogo
e eu amo-te ainda mais
mas não posso dizer-to
Se os lábios se envolvem num espasmo desmedido
eu rasgo-me louca na polpa agridoce
Neles se tocam os seios e os sexos
as palavras e os silêncios
neles se enredam histórias e estremecem estrelas
e as explosões dão-se em eternos segundos
Por isso amo-te
mas guardo na boca fechada o teu nome

porque ele é um segredo a florir nos lábios

Autor : Margarida Piloto Garcia

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

...

Julie de Waroquier

Na folha vazia,
Onde escorre a tinta das letras,
Existe a voz de um silêncio inacabável
No qual me deito e sonho.
.

Autor : Luís Ferreira

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Eras o poema


laura zalenga

Escrevi um poema numa folha perene
veio o vento e o poema levou

Escrevi um outro num pergaminho
mas o tempo impiedoso o apagou

Nas asas de Ícaro escrevi um outro
que o sol implacável queimou

Tentei um último na vela de um barco
mas o mar enfurecido o rasgou

Escrevi então o meu corpo no teu
e o poema até hoje ficou.


Autor: Fátima Guimarães

no livro "A voz do nó"

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Fantasmas

Rebekah W

Erguem-se os fantasmas lá na rua
com suas vestes brancas a adejar...
Deslizam mudas à ténue luz da lua
como chamas de vela a tremular...

Autor : Maria Helena Amaro

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Como se mágoa fora!...

Ricardo Fernandez Ortega

Desfolho a pétala
Que o vaivém da onda
Nega como se fora
E não fora...

Sorvo o vento
No búzio do tempo
Glória sem eco
Que me devora...

Alinho ternura
No arco sem volta
De qualquer procura...

Denso perfume
Que se acende em lume
Na ilusão de ser…

Ausência rola
Como se mágoa fora
Fingindo não ser...


Autor : Herético 2010-11-14
http://relogiodependulo.blogspot.pt/

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Desfolhada

Birdcam Italia


Soltei um pássaro
que me pousou no texto
mas não lhe evitei
o menear das pétalas
Só mais tarde
tão tarde
que já adormeciam as palavras
ouvi espargir irrepreensíveis
metáforas
na folha de papel
Soltei uma rosa
que se exala
quando a sopro para voar
mas sempre regressa
desfolhada
como um pássaro

.
Autor :Eufrázio Filipe mar arável 2010-01-01
http://mararavel.blogspot.pt/

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O coração todo teu


Michael Vincent Manalo

Agora que sabes que te amo
O coração todo teu
Para lá do tempo


Envolves-te no manto do silêncio
Eu aqui na angustia da espera

Tardas

Envelheço nas curvas dos dias
Sem memória já
do teu corpo inalcançável
e fico adormecido


este amor
tão doloroso de ausente
como ausente sou sempre
das noticias tuas que tardam


a ausência esse lugar dos destroços
agora que sabes que te amo
o coração todo teu


Autor : João marinheiro 2008

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A esta hora


" A esta hora a que te escrevo , amor , não sei nada sequer de ti .Talvez sejas lágrimas .Talvez tenhas nas mãos tuas, as rosas que aí deixei . Não sei se és nua ...Não sei se és lua... Nem carta tua me chegou . Carta que me falasse de amor e de rosas . Ontem , falavas-me tanto dos sonhos quando abraçavas as rosas . E à hora a que te escrevo , nem mãos , nem rosas , nem carta tua me chegou . Mas eu quero-te amor em lua e nua. E quero as tuas mãos a esta hora a que te escrevo ."
.
Autor Armindo Lima de Carvalho

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Fragor



E vêm daí as marcas da sombra:
a trança solta ao sol de fevereiro,
uma mão cheia de vento sobre o teu ombro,
e o cão do crepúsculo a correr adiante de nós.
Como um destino,
leva consigo as últimas palavras
antes da noite.

Autor : Eduardo Bettencourt Pinto