domingo, 9 de junho de 2013

anoitece


anoitece
talvez sejas o mar e
eu vá descendo pelas pernas
azuis do teu corpo, como
a bola de fogo que se introduz mais dentro
nas linhas demasiadas do caderno
ou nos recônditos músculos
do oceano.


Autor : João Ricardo Lopes
In : a pedra que chora como palavras (2001)
Foto : katia chausheva


domingo, 2 de junho de 2013

(...)



(...) Por vezes é preciso esquecer para poder continuar. Esquecer, ou pelo menos afastar para um lugar onde não andem à solta, fazendo estragos, provocando sentimentos à deriva, experiências que nos fazem temer que não somos nós que temos mão sobre a vida, mas ela que tem a sua mão sobre nós.(...)


pedro paixão in «a cidade depois»

domingo, 19 de maio de 2013

Da Nossa Morte




                                           Agora é tarde. 
Ninguém responde às cartas que escrevi e 
atirei ao mar,
quando pensei que um dia serias como esse 
marinheiro que num sonho antigo abençoava 
o filho e depois partia nas asas do albatroz. 
Agora é tarde. 
Ninguém responde à sombria música dos meus 
punhos golpeando a cadeira vazia, a mesa, as 
folhas em branco onde uma única palavra se 
aproxima, 
manejando as suas armas - 
três letras, três sinais de fogo. 
Agora é tarde. 
Ninguém cala os tempestuosos rios no fundo 
dos meus olhos, 
quando penso nos vermes, nas viscosidades 
que te procuram através do cetim. 



Autor : José Agostinho Baptista
Foto :Anues

domingo, 5 de maio de 2013

Melancolia


Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai

A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.

Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens

Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.

Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa

Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas

Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.

.

Autor : Bernardo Pinto de Almeida
Hotel Spleen Lisboa, Quetzal, 2003
Foto:http://olharemtonsdeflash.blogspot.pt/

domingo, 28 de abril de 2013

Hoje


hoje apetece-me, 
voar,
mas vou ficar aqui,
apenas
a imaginar o meu voo.

BeatriceMar
foto : inez77


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Chamei-te mar


No mais íntimo da pele

desgrenhei o vento
para te desassossegar os cabelos

escrevi na água
da chuva
para ver
como as palavras
se desmoronam

No mais íntimo da pele
lá estavas azul
tão azul tão azul
que te chamei mar

e já é tanto.
.
Autor: Eufrázio Filipe
http://mararavel.blogspot.pt/








domingo, 31 de março de 2013

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas - longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
.
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamentea infância, postais antigos, o silêncio - nada
.
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longede casa.
Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
.
Autor:Maria do Rosário Pedreira
In A Casa e o Cheiro dos Livros



domingo, 24 de março de 2013

Prece




Estou acorrentada a uma imagem, que o espelho me traduz
E que não a sinto minha – EU
0lho-me
e atormentada vejo penumbras.
E presa nos gestos
que desprendo
Desenho uma estrela cheia de  luz
Um pedaço de céu
Um pouco de mar
E para lá do espelho
Peço aos Deuses um pouco de paz
E lucidez neste pedaço de Terra


BeatriceMar 2013-03-21




domingo, 17 de março de 2013

Caminho


Caminho nas cores incandescentes, que escolho no olhar,
desato as correntes que me estrangulam o ser.
O trejeito irrefletido no ir,
o brado no vácuo de não saber para onde ir,
mas vou!
.
BeatriceMar 2013-03-16


domingo, 10 de março de 2013

Um verão distante




Estou por aqui queimando o tempo
vazio de mim
desejando-te
e tu és memória difusa
de um dia em que te amei
sinto um vazio pleno de emoções
estou despido, nu de sentimentos
desejo-te
já não sei quem és
memória de um dia antigo
um verão distante.

Autor : João marinheiro Junho 2004 http://porquexistes.blogspot.pt/