domingo, 25 de março de 2012

Esqueci



Tantas vezes me dizias que me amavas
 E eu sabia que era mentira 
Mas fingia e acreditava
 Porque nada tinha senão as tuas palavras

 Esqueci 
 As esperas a imaginar
 As chegadas 
Que eram apenas partidas 
 Apenas promessas em palavras

 Esqueci

 As datas
 Os locais
 Tanta mentira que quando
 Se transformou em verdade 
Eu pensei que era mentira

 E simplesmente esqueci

E esqueci-te


Autor : Beatrice
Foto: OczywistaPanda

domingo, 18 de março de 2012

Falesias


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual o faço vir como um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
.
Autor : Luís Miguel Nava
Foto : The Professor


domingo, 4 de março de 2012

Ofício de Amar



já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e
o remorso



um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas



ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Autor : Al Berto In O Medo

Foto : monicy

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste





Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Na noite


Na noite existem estrelas mágicas
Que me levam a alumiar o caminho
Entre o céu e o destino

Em archotes de luz ávida
E esplendorosa
Semeio pirilampos

E percorro mansamente
Os trilhos proibidos que me levam a ti
.
Autor :BeatriceM 2012-02-12
Foto: Rockania

domingo, 5 de fevereiro de 2012

...


ladro à lua faminto de teu corpo
nas infinitas noites
em que não vens apesar do grito!..

tomo-te em meu corpo febril
como adolescência do desejo
em solidão desesperada!...

colho-te pura flor da madrugada
entre orvalhos e lascívia sibilada
em que te deito sem te ter!...

sorvo-te no altar da tuas coxas
persigo a meta como caça em língua
resoluta em febre de greta  molhada...

sublimo-te na explosão do meu sexo
como gota na sofreguidão do beijo
como se tu viesses toda inteira...


Autor:Senador
Foto: Jerzy Sowa, Jr.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Haverá talvez


Haverá talvez um modo de amanhecer
que revele nos olhos o secreto ardor
com que se levanta o trigo enorme.

Haverá talvez um lago que a noite não toque
e de dia em dia, como ontem, como amanhã,
cante a mulher que ali foi ver nascer o filho.

Haverá talvez um suor que não o do sacrifício
e com o qual a pele cintile como uma borboleta
que vem descendo o céu até à flor dos teus lábios.

Haverá talvez uma fala onde nos poderemos encontrar
sem que a tua mão esqueça a minha, sem que o sorriso
esconda o vazio, uma fala que só possa e saiba dizer nós.

Haverá talvez um poema em que o soluço aperte as veias
como o rio aperta o mar, um poema em que eu e tu
dormimos sobre o luminoso esplendor do universo.

 Autor : Vasco Gato

domingo, 22 de janeiro de 2012

É hora da partida


É hora da partida – esperada
A roupa cobre o meu corpo 
Agora só meu
E deixo desordenados 
Aromas impregnados no teu 

Descansas num mar revolto
De sentires 
De desejos consumados
E de olhos fechados – dormes
Sonhando prazeres partilhados

Já não estou mais ardendo
No lume que nos queimou
No ocaso que chegou
No eco que se desfez
Na hora da partida que se anunciou

E vou pela calada
Dançando em passos ligeiros
Ainda com vestígios de beijos e mel
E das carícias que ficam 
A flutuar em parcelas de saudade.
.
Autor : BeatriceM 22-01-2012
Foto: Laura Makabresku

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A música



Rui Costa
 1972-2012

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti.
.

Rui Costa
in Um poema para Fiama,
Labirinto,2007

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os Versos



Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão em escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta
.


Autor :José Tolentino Mendonça
Foto:fotoalterego