terça-feira, 31 de março de 2015

Primeiro foste um nome

ira zhuyka dzhul


Primeiro foste um nome, 
depois um corpo 
que se anunciou aos meus olhos, 
por fim fizeste-te ouvir 
na voz com que me acariciaste… 
Voaste para mim inteira. 
Nesse momento percebi, 
abrias as asas para me abraçar.

.
autor : albino santos

segunda-feira, 30 de março de 2015

...



Ravshaniya

Não sei sobre pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Autor : Alejandra Pizarnik

domingo, 29 de março de 2015

do amor proibido



Ignoramos
e ambos sofremos
e ambos amamos
como se pudéssemos
mudar o rumo dos acontecimentos
era proibido
e ambos sabíamos.

Tu nunca saberás
que todos os dias
à mesma hora que telefonavas
eu oiço a “nossa” música
porque sei que nunca mais
vais voltar a faze-lo
e eu não mais ouvirei a tua voz

Tu nunca saberás
que em dias alternados
mas sempre no mesmo dia da semana
eu sento na mesma mesa
no mesmo café
e sei que tu nunca mais vais aparecer


Tu nunca saberás
que eu releio as tuas poesias
embora as saiba de cor
porque sei que tu nunca mais
irás pegar num simples lápis
e me escrever uma que seja


Tu nunca saberás
que eu sei que tu não sabes
mas que eu sempre soube
que tudo era falso e vão
que da tua parte
eu não passei dum devaneio


Tu nunca saberás
que eu choro nas minhas
noites vazias
e que relembro
cada gesto
Cada palavra
cada sorriso

Tu nunca saberás
que no amor
tudo é possível
tudo pode ser permitido
tudo pode ser compartilhado
tudo pode ser amado
e para ti tudo era proibido

Tu nunca saberás
que nada se esfumou
na minha lembrança
e que para tudo
teria de haver uma solução
e eu sei que tu nunca
quiseste sequer encontrar
essa saída

Do amor proibido
do nosso amor proibido
que não foi
que não esqueceu
que magoou
que continua a magoar

Tu nunca saberás...

Autor © Piedade Araújo Sol, Dezembro de 2003

quarta-feira, 25 de março de 2015

....

Sentir a vida.
Correr com ela
doida,
por entre as veias.
Enlouquecer
Do vício de viver.

Autor : Ana de Melo

terça-feira, 24 de março de 2015

um dia destes

Herberto Hélder Luís Bernardes de Oliveira 
Funchal 1930 -11-23
Cascais 2015-03-23

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas
                                                                        linhas


Autor : Herberto Helder

domingo, 22 de março de 2015

Estou mais perto de ti porque te amo

 Oleg Oprisco


Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.


Autor © Joaquim Pessoa

sábado, 21 de março de 2015

Diz-me

Lyubomir Sergeev


Diz-me.
Que o mundo enlouqueceu.
E que afinal,
todos os sonhos são possíveis.
É só preciso querer.
Voar.
E tocar a luz dos loucos,
dos que caminham à procura.
Da verdadeira essência,
que vive na luz de quem se interroga.
Para saber.
De si e dos outros.

Autor : Ana de Melo

sexta-feira, 20 de março de 2015

São horas de voltar

São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Autor: Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 19 de março de 2015

Tu nunca irás saber

Julie Waroquier

Tu nunca irás saber
Da saudade
que se adensa no meu peito
agora que não me escreves
e já não te posso ler
Tu nunca irás saber
Das rosas
que perfumam os meus sonhos
quando sentada junto ao mar
eu penso em ti
Tu nunca irás saber
Da tristeza
que anoitece o meu olhar
Das minhas mãos despidas de alegria
onde a dor da tua ausência vem pousar
Tu nunca irás saber…


Autor © Isaura Moreira

segunda-feira, 16 de março de 2015

É por ti que se enchem os rios


É por ti que se enchem os rios
de carpas azuis,
de águas que querem saltar
pela minha janela.
Como é belo este silêncio ilimitado
quando nas copas redondas das árvores
o teu nome me chama.
Pedi-te que apagasses a lua
e que nos campos tacteando te encontrasse.
Sei-te na aurora, por isso não temo
e agora a lanterna dos dias pode
por fim ficar em ventos de abraços.
Voam aves dentro dos teus sonhos
como memórias de pétalas acordadas.
Ficas ancorado dentro do meu tempo.
Não há saudade nem solidão
que se não derrube.


Autor © Lília Tavares.

domingo, 15 de março de 2015

Obsessão Conivente

Felicia Simion

A surpresa que me assalta
todos os dias e a cada hora

nada tem a ver com estas coisas
dos desamores sem lugares
e outras circuntâncias

a surpresa que me assalta
tem sempre e conivente

o teu olhar

Autor: Joaquim Alves

sábado, 14 de março de 2015

Metade Maior

TJ Scott

A metade que me abraça
à lua desalinhada
e ao mar nascente,
pode ser um poema ao vento
ou um barco esquecido
num mar pequeno.
A metade que me abraça
no vento que fustiga as areias
na transladação dos céus,
pode ser um recital de sorrisos
ou uma caixa de cinzas
em ventania e temporal.
A metade que me abraça
no silêncio das minhas mãos
é a ilusão da certeza
e o início sem retorno.
A metade que me abraça
é a metade maior
é a metade sonhada
e a eterna poesia.


 Autor © António Carlos Santos

sexta-feira, 13 de março de 2015

De Repente



Kayleigh June


Vieste quando eu não te esperava.
 Partiste quando eu mais te precisava.
 Demoraste tanto a chegar
 E levaste tão pouco tempo para ir.
 Levaste tanto de mim
 E deixaste tão pouco de ti,
 Em vagos detalhes que ficaram contidos,
 Nesta saudade,
 Neste vazio,
 Nesta lembrança.

Autor.  Aluísio Cavalcante Jr.


quinta-feira, 12 de março de 2015

rasguei a minha identidade...

Julie de Waroquier


rasguei a minha identidade…

perco-me em caminhos não percorridos
abandono sonhos esquecidos na poeira da estrada,
tropeço no acaso de beijos de amantes extasiados
e embriago-me na loucura do desejo…

perco-me deslumbrada com o brilho das luzes
abandono-me em labirintos espelhados
de pedras faiscantes ,dispersas no vazio
e embriago-me no teu corpo morno na noite sem cor…

perco-me, tropeço, caio numa praia sem nome
rasguei a minha identidade e já não sei quem sou…

Autor:Ana Cristina Macieira 15-5-2012

sábado, 7 de março de 2015

De volta

Eric Wallis

De volta
Escuto no silêncio
Os nossos beijos
Que perduram nos teus olhos
Que revivo
Sem descanso
Saboreio a tua voz
Que me enlouquece
À espera do teu corpo
No cais do teu canto
Que amanhece

Autor: Nilson Barcelli © Dezembro 2005

quinta-feira, 5 de março de 2015

Pedaços



Nada mais triste
Do que a história do fim de um amor,
Para quem parte,
A dor imensa de ter amado de menos,
Para quem fica,
A dor sem limites de ter amado demais.

Autor : Aluísio Cavalcante Jr

segunda-feira, 2 de março de 2015

Descalço eu destruo o calçamento com meus pés de chumbo


Descalço eu destruo o calçamento com meus pés de chumbo.
Sobre a minha construção eu defeco cimento cinza.
Ou revisto o chão do meu quintal com caveiras (cabeças) de todo o mundo.

Um vírus letal destrói os neurônios de minha cabeça.
O mundo que eu construo não piso descalço pois são espinhos de aço.
Sobre o meu chão uma poça de sangue.

Construo cabeças em meu mundo cruel.
Construo calçadas e sobre elas eu defeco.
Paralelepípedos que me lembram colmeias mas sem abelhas e mel.

Descalço ando pelo chão do meu mundo destruído pela bomba da inveja.

Autor : André Francisco Gil