quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Tenta ler outra vez

Fletcher Sibtrhorp

Tenta ler outra vez. Não te apetece
voltar à febre alheia, à superfície
frontal da madrugada? Cada página
destapava outra vida, destilando
o veneno da esperança, a invenção
de um jogo mais que jogo, para lá
do lume que gritava enquanto ardia
na bola de cristal. Ainda conheces
o assombro ou a doença a que chamavas
pensamento? Regressa, por favor,
não te escondas na montra dos sentidos,
no vão sabor do corpo. Não te agrada
o abraço das estrelas quando nascem?,
a rota universal do labirinto?

Autor : Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Delirando

© sonia Firlej

Todas as noites me devora a minha cama.
É uma cama tão triste, tão fria…
Lugar de sonho, tragédia, drama,
Onde deliro até ao raiar do dia.
Desperto sempre louco, baralhado,
Apaga-se-me no sono a fronteira
Entre o mundo sonhado
E a realidade verdadeira.
Esta noite olhei ao alto,
Sonhei-te a voar,
Corri, alcancei-te num salto,
Levei-te comigo p´ro fundo do mar,
Encontrámos uma cidade,
Aquela que me faz viver intensamente,
Onde se mata a sede de liberdade,
Onde eu conseguiria amar docemente.
Habitada por duendes dóceis e audazes,
Vivem felizes: Fizeram as pazes,
Destruiram fronteiras
Rasgaram bandeiras,
Encontrei a liberdade real, finalmente,
A única liberdade é aquela que se sente.
Todas as noites me devora a minha cama...

Autor : Gonçalo Nuno Martins

domingo, 24 de novembro de 2013

vamos pela montanha a ver o mundo dos outros

Mattijn Franssen

os meus amigos foram por esse mundo além,
hoje estou só,
apenas a gata não me abandonou.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Os (teus) gestos

foto : Arveth

Disto ficarão pequenos gestos
nada grandioso que se exclame

sorte de te ter junto aos meus restos
memória da tua boca fogo infame.

Vitória do teu corpo sobre o meu
no exacto momento em que te venço

tão só correr de nuvens sobre o céu
ou no fim do mundo um recomeço.

Queria inventar-te um sítio sem palavras
em que só sobre o corpo a luz derrama

sua generosa claridade.
Lembrar-te nos momentos em que amavas

— os corpos extenuados sobre a cama —
e havia um sol de não haver idade.


Autor.Bernardo Pinto de Almeida

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Silêncio



Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no 
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.
.

Autor : José Agostinho Baptista

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Os Gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
.
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
.
Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
.
Autor : Manuel António Pina
(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011

18-11-1943
19-10-2013

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Depedidas

Sam Deawing

Todos os anos parto.
Vou e venho, já não sou de cá, nem de lá.
Todos os anos morro...e me choram!
Até sinto a pedra fria nas minhas costas, 
o sangue que me foge da cara, enquanto me 
rodeiam em círculo, para dizer um último adeus.
Não são momentos, são dias, antes de desarreigar, em que já não como, nem bebo...já não tenho entranhas. 
E quando chega esse dia, morro.
Mas não morro de verdade, sigo viva...para voltar a morrer!
E agora, que já conheço em vida a dor da morte, tenho dias,
em que penso, que talvez fosse melhor ficar por cá (Bélgica)
...para não ter que morrer outra vez!
.
Notas do meu diário

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

CHUVAS


Jeff Rowland

Espremi uma nuvem com as mãos
Para chover em meu jardim.
Choveu intransitivo, impessoal
Pedinte,
Choveu extrovertido
Trovoadas coloridas
Pingos azuis - teus olhos.

Relâmpagos ofuscaram meus olhos
Um girassol brotou irradiante
E minhas mãos secaram...
Pedintes, ásperas
Duras como um entardecer.

Espremi uma nuvem com as mãos
Para chover em meu jardim.
Choveu tanto, tanto
Que até choveu você em mim.

Autor : Carlos Eduardo Leal 02-04-2012