sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Rebeldia


Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida.


Autor:Manuela Amaral
Foto:NirVana

sábado, 22 de agosto de 2009

homem

homem levantado e caído
setenta vezes sete vezes por dia
que morte me quer para além
de deixar cair os braços?

Autor:Ruy Belo
Foto:Markhamian

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"


" Sou um desastre humano. Ninguém mo disse. Sou eu que o digo. Vivo de incertezas. A única certeza que me resta é que tenho de voltar a tomar os medicamentos e marcar uma consulta com a minha médica. Mas não vou fazer nada disso. Eu minto-lhe e ela mente-me, dizendo-me que me vai livrar de todos os meus desordenados pensamentos. [...] Por isso nunca lhe digo que deixei de tomar os comprimidos. Se eles me impedem de pensar prefiro a minha doença. O meu único sossego encontro-o nos sonhos que não se convertem em pesadelos.

Fui de férias. Viajei para longe para me esquecer de mim. Não deu resultado. para onde quer que vá a minha cabeça é a mesma. Não consigo tirar férias de mim. Talvez fosse melhor ser uma pessoa normal, com rotinas, famílias e coisas dessas. O meu azar é ter fé em coisas utópicas, coisas que não existem. Em nada me sinto segura, ninguém me pode convencer, só eu posso convencer a mim própria. Há muito que me convenci que não tenho cura e os dias sem piedade.

Autor:Pedro Paixão
Foto:pazudard

domingo, 16 de agosto de 2009

...

«As pessoas deviam ter mais de uma vida ou, pelo menos, uma que pudesse também voltar atrás se necessário. Para corrigir o que saiu mal à primeira, aprender a saborear as poucas horas boas - tal como uma canção que quanto mais se ouve mais se gosta - e, sobretudo, para poder ir primeiro por um lado e depois por outro e depois, sim, seguir pelo caminho encontrado.»
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Autor:Pedro Paixão
In:Viver todos os dias cansa

*

domingo, 9 de agosto de 2009

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Quando mo vieram contar, senti o frio
de uma lâmina de aço nas entranhas;
apoiei-me no muro e um momento
perdi a consciência de onde estava.
A noite abateu-se em meu espírito;
em ira e piedade afogou-se-me a alma;
e então compreendi porque se chora,
e então compreendi porque se mata!
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Passou a noite de sofrimento...a custo;
pude balbuciar breves palavras...
Quem me deu a notícia?...Um bom amigo...
Fazia-me um favor. Rendi-lhe graças.


Autor: Gustavo Adolf Bécquer

Foto:MartaPos

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Photografia

no escrever há um lugar supérfluo, uma
nitidez repetida do mundo, enganos
e ilusões que em qualquer lugar se perdem
de si mesmas, mas nisso a que chamas,
incessante real, algum nome
para as coisas ou o amor delas
está intacto o que a magia transforma.

Autor: Francisco José Viegas.

in Todas as Coisas

Foto:Wojcieclo Gepner

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Spleen de Lisboa

"Suave é o fumo do cigarro que entontece. Tenho passado estes dias na ocupação de os desfazer aos bocados. Tudo passa devagar como este fim de tarde em que o sol está quente e pachorrento e a minha alma anda por aí livre ao acaso. De resto não faço nada que valha a pena recordar. Quando muito escrevo uma carta que não mando, leio parágrafos vários de livros que folheio, escrevo coisas como esta em que não digo nada. Com sorte talvez beije uma rapariga, se for preciso ou a isso me obrigar. À parte isso não faço nada, sou como este fumo azulado que se dissipa sem vento".
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Autor:Pedro Paixão, in "Histórias Verdadeiras"
Foto:Argothh