sábado, 18 de abril de 2009

Teatro

Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação. Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue rebentar contra os rochedos. Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impediosamente jorram os projectores.

Autor: luís miguel nava
Poesia Completa 1979-1994
Publicações D. Quixote, 2002

Foto:Paulo Cesar http://www.paulocesar-eu.paulo/ cesar

domingo, 12 de abril de 2009

Lume



Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.



Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Autor:Ana Salomé

Foto:Pzaj

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ainda não




Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração


António José Forte
Uma Faca nos Dentes
Livraria Editora, Lda.

domingo, 5 de abril de 2009

...Prometemos um ao outro, as coisas
impossíveis. O amor proibido. As palavras
infinitas. Os livros que nunca lemos. As mãos
que nunca demos, os beijos que nunca trocamos.
As carícias do olhar que agora
está vazio.
Prometemos! Prometemos o tudo
e temos o pouco. Demasiado pouco!
Tu não sabes e eu desisto outra vez. Cansado.
Os dias horríveis tentando parar o tempo em
cada milésimo de segundo que seja.Tu não sabes!
.

Foto:Carlos Vilela

sábado, 4 de abril de 2009

Quero que me abraces



Quero que me abraces,

antes que a tristeza envelheça no meu peito.

Com o tempo, habituei-me

à conivência das palavras

e a usar, com inocência, certos gestos.

A tua sombra é-me familiar.

Sou espectador do teu sorriso

tão perto da simplicidade.

Quero falar contigo, horas a fio.

Sem pretextos de fuga.

Sem palavras caladas.

Um silêncio definitivo ser-nos-ia fatal.

Mas, depois, partirei,

porque sei que há no meu sangue

uma embarcação possessa

do chamamento do mar, ou da solidão.

.

Autor:Graça Pires
De Conjugar afectos, 1997